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A Casa do Papa-figo

Por Jaqueline Couto

Esta história se passou há muito tempo atrás, em uma época remota, onde as ruas do Recife ainda eram iluminadas pelo clarão dos lampiões. Anos onde as presenças das assombrações eram pedaços da história e da crença de uma geração acostumada a dormir sob a luz dos candeeiros...


Minha tia-avó, Francisca, durante 30 anos ou mais, foi freira na França. Por ter deixado o hábito, não havia muitas perspectivas de trabalho, afinal, o que faria uma ex-beata, recém chegada da Europa, no Recife do final do século XIX? A saída, para poder ajudar no sustento na casa dos pais, foi arranjar um emprego de professora de francês para crianças de famílias abastadas da cidade.


E foi o que aconteceu. Graças à interferência do pai e ao prestígio que o irmão gozava junto à algumas autoridades da época, conseguiu uma vaga para lecionar francês aos filhos pequenos do governador. Tia Francisca era muito doce, carinhosa e ensinava com paciência, o que despertou o interesse de uma outra conhecida e influente família pernambucana.


O patriarca, velho de autoridade inquestionável e de figura imponente, procurou-a e pediu-lhe que ministrasse suas aulas aos seus pequenos netos. Oferecendo-lhe como pagamento pelo feito notável quantia em dinheiro. Em princípio, titia achou a atitude estranha, mas como estava a precisar de dinheiro e professores de francês eram raros, achou que fosse penas uma excentricidade do velhote que queria cativar os serviços da jovem e discreta senhora para seus netos, que eram crianças esquisitas e taciturnas.


Essas crianças nunca saíam ao sol, e sofriam de uma bizarra aparência e inexplicável hipersensibilidade da pele à luz, levando à formação de pequenaslesões avermelhadas. Constantemente apresentavam dor abdominal, vômitos, e convulsões. Em uma das idas de minha tia à casa dos pequenos, presenciou cenas insólitas, como os miudinhos tendo algo que mais parecia alucinações seguidas de forte depressão. Achou estranho, mas como eram constantemente assistidos por médicos de semblantes arrogantes, não se preocupou.


Tudo ia bem até que, uma tarde, minha tia chegou mais cedo à mansão da tradicional família. Estranhou que não ninguém estava a esperá-la, pois, mesmo quando chegava antes da hora, graças à rapidez do condutor do bonde, sempre havia alguém para recebê-la e encaminha-la à biblioteca. Titia podia até ser discreta e calma, mas a curiosidade não era o seu forte, assim como de toda a minha família.


Soturnamente, foi pé ante pé pelos corredores do casarão à procura das crianças. O sol já estava se pôr, o que deixava a casa com uma atmosfera mórbida. Mesmo com um medo que não sabia explicar de onde vinha, prosseguiu em sua busca. Atravessando um dos salões, chegou a outro corredor que dava para os aposentos dos donos da casa. Lá visualizou uma porta entreaberta. Queria chamar alguém, gritar "olá", mas nenhum som saia de sua boca. Algo estava errado. E um pânico súbito começou a invadir seu coração.


Com o corpo trêmulo e as mãos já ficando frias, tia Francisca arriscou olhar pela fresta da porta e... Deparou-se com um cenário que nunca mais sairia de sua cabeça e nem das histórias de nossa família: Com o quarto iluminado a velas, e sentado em um tipo de bacia, o velho agourento (como titia costumava chamá-lo), estava sem roupas e de costas para a porta. Ao seu lado, um lacaio o banhava com algo viscoso e brilhante, que ela identificou na hora como sendo sangue.


Os pequenos também estavam juntos, sentadinhos em almofadas brancas e escorrendo em sangue. Titia soltou um grito abafado, mas perfeitamente audível pelo empregado do velho senhor. Foi então que viu algo digno de uma cena de filme de terror: em uma das mãos, o tal segurava o corpo magro e inerte de um mulatinho sem cabeça. Logo atrás, dois corpinhos infantis jaziam, também sem as cabeças, jogados no chão. Nesse instante o agourento virou-se, mostrando a boca cheia de uma massa pastosa e vermelha que empurrava, com uma vontade esfomeada, com as mãos brancas e
compridas.


Nesse momento, não se agüentou. Correu como louca, na escuridão e aos tropeços, sem se importar se corriam atrás dela ou não. No meio do caminho, suando frio e assustada, foi lembrando das estranhas coisas que encontrou na lúgubre casa: Em duas ou três ocasiões achou estranho os meninos da casa serem chamados para lanchar e voltarem com um estranho hálito e com salpicos quase imperceptíveis de sangue na roupa.


Foi lembrando, também, das notícias que se espalhavam a respeito do sumiço de crianças na cidade e da estranha mania que alguns aristocratas franceses tinham de comer fígado cru de infantes para se tratarem de uma terrível e rara doença pouco conhecida, e que já havia feito suas vítimas, como Jorge I do Reino Unido e Maria I, conhecidas figuras da história mundial.


Esbaforida, chegou em casa e logo foi acudida às pressas diante de seu estado lastimável. Acalmando-se, contou o que aconteceu. Com olhar de mistério, seus pais se entreolharam e foram unânimes em um veredicto: ela não voltaria mais àquela mansão. Nunca mais. Titia não retornou, tampouco foi procurada para que voltasse a dar aulas naquele lugar. Seu pagamento pelas aulas dadas foi entregue pelo cocheiro no dia seguinte.


Muitos anos se passaram nada aconteceu e nem titia quis que acontecesse. Teve medo. Famílias ricas e influentes tem seus segredos, e não seria ela a dizê-los. A não ser o sumiço das crianças de arrabaldes longínquos e pobres, que continuava a se alastrar pelo Recife, nada mudou.


Atualmente, após tantos anos de repetição do mesmo fato nas conversas entre primos e amigos mais chegados, sabemos que Tia Francisca, na realidade, conviveu com loucos que acreditavam que estariam libertos da porfiria (Papa-figo, para os mais antigos) tomando sangue e comendo fígado humanos. Hoje se sabe que há remédios, mas, naquela época tão antiga, onde a ignorância das patologias fazia acreditar em maldições, fez crescer um mito que até hoje permeia pesadelos e agonias e já faz parte das lendas urbanas que assombram o imaginário do Recife.