A Botija das Almas Dançantes

“…uma botija enterrada próxima a um barreiro”

Isto aconteceu na década de 1920. Minha bisavó Filomena tinha com 23 anos e já era casada com o meu bisavô Joaquim. Moravam em Surubim, no Agreste de Pernambuco, na localidade de Chã de Marinheiro. Numa sexta-feira, à meia-noite, Joaquim começou a conversar sozinho e dizer à mulher que estava tendo uma visão.

“Um senhor branco, de cabelo grisalho e com roupa clara, me pedindo para procurar uma botija enterrada próxima a um barreiro”, relatou o marido, fazendo cara de espanto.


Filomena percebeu que a descrição em tudo lembrava o avô já falecido dela: um homem rico chamado Manoel, que fora proprietário de vastas terras lá mesmo, em Surubim. Terrenos que doou à Igreja entre os anos 1790 e 1810 (essa área, atualmente, vai do bairro Coqueiro até o Açude São José).


Só depois dessa revelação, Joaquim acreditou no que via e ouvia. E a aparição se repetiu na sexta-feira seguinte, também à meia-noite. Filomena não enxergava ou escutava nada do que o marido dizia testemunhar, mas sabia que ele falava a verdade. O espectro dava instruções de como localizar a botija e quais procedimentos tomar para “desencantar” o tesouro – só com total concentração teria direito à dinheirama e receberia três sinais de que estava fazendo tudo de forma correta.


Na sexta-feira posterior, exatamente à meia-noite, Joaquim e Filomena foram ao lugar indicado pelo fantasma. Por precaução, ele levou um vidrinho de água benta, um crucifixo e um terço. Com as mãos, começou a escavar no exato ponto indicado.

O primeiro sinal foi uma medalha achada logo quando Joaquim principiou a revolver a terra. Depois surgiu uma moeda antiga, o segundo sinal. Empolgado, ele começou a cavar com mais força. Nesse momento, passou a ouvir vários sons estranhos: uma repetida pancada metálica, como se alguém estivesse usando um martelo contra uma bigorna, e ainda música e gargalhadas. Além disso, enxergava pessoas dançando em volta dele – homens e mulheres com rostos desfigurados! Apavorado, o marido chamava a atenção da esposa, apontando para os vultos. Filomena, no entanto, nada via.


Joaquim ainda tentou achar força para persistir na escavação. Mas não conseguiu aguentar a perturbação sobrenatural. Nem a água benta, o crucifixo ou o terço afastavam as assombrações. O casal desistiu da busca e retornou para casa.


Na noite do sábado, eles voltaram à escavação nas imediações do barreiro. Joaquim não queria ficar sem o tesouro prometido, pois precisava vencer algumas dívidas. E foi ele tornar a escavocar que a manifestações sinistras recomeçaram. Batidas metálicas, melodias, risadas, e os espectros dançantes com suas faces deformadas. Acabou não suportando aquelas manifestações medonhas e fugiu.

Ao amanhecer, Filomena se deu conta que o esposo tinha ficado ainda mais transtornado com segunda tentativa de descobrir o tesouro. Joaquim permaneceu bem um mês num espécie de transe, quase sem comer, sem dormir direito e se recusando a vestir qualquer roupa. Filomena rezava dia e noite. Mal conseguia sair de casa, pois o marido ficava agarrado com ela, demonstrando completo desespero.


Entretanto, após essas quatro semanas, as perturbações cessaram, Joaquim se acalmou. Mas tornou-se muito calado e proibiu qualquer conversa sobre aqueles acontecimentos. Meses depois, souberam que outra pessoa teria desenterrado a botija que meu tataravô quis entregar a eles. Quando era jovem, minha mãe ouviu esse caso da boca da própria bisa Filomena.

Contado por Fernanda Freire Bezerra

Categorias