A Brincadeira do Copo

Numa bela tarde, em 1994, quando minhas vizinhas, outro vizinho e eu conversávamos sobre espíritos na calçada da rua, resolvemos tentar “brincar” com o copo para sabermos a respeito dos nossos respectivos futuros.

Fomos para um terraço amplo, no primeiro andar da casa, e sentamos no chão mesmo. Colocamos uma cartolina redonda com o alfabeto e no meio as palavras SIM e NÃO. Pegamos um copo virgem e colocamos no centro. Começamos todos a nos concentrar, éramos cinco ao todo e tínhamos na época por volta dos 14 a 15 anos. Ficamos em silêncio por algum tempo e, como não acontecia nada, resolvemos brincar de dar sustos uns nos outros. Primeiro, uma das meninas, começou a dizer que seu braço estava doendo e que alguma força invisível não a deixava tirar o dedo de cima do copo, daí cada um começou a dizer que estava sentindo algo estranho. Nos assustamos de tal forma que começamos a gritar.

Passado o susto, caímos na gargalhada a ponto de chorarmos de tanto rir! Depois disso, resolvemos fazer a coisa com seriedade, afinal, ainda estávamos ansiosos com a possibilidade de ver o nosso futuro. Nos concentramos novamente, e passados quase que 50 minutos sem nada de estranho acontecer decidimos parar para descansar. Achamos que algo estava errado, pois não era possível que demorasse tanto.

Decidimos recomeçar, dessa vez, no quarto dos fundos. Esse quarto fica atrás da casa e serve como depósito para ferramentas e coisas velhas. O quarto é pequeno e a porta de entrada só dá pra passar uma pessoa, ainda sim, se essa não for muito gorda. Dessa vez, acendemos umas velas e incenso para harmonizar o ambiente. Sentamos todos da mesma forma e começamos a nos concentrar. Passados alguns minutos em silêncio, começamos a ouvir uma respiração estranha, ofegante, que vinha da direção do fundo do quarto. Como estávamos de olhos fechados, pensamos que seria alguém dos cinco que estivesse com o nariz entupido devido o quarto está empoeirado e com cheiro de mofo, além de já está ficando frio por causa da hora: era em torno das cinco e meia da tarde.

Continuamos sem maior espanto, até que algum tempo depois a curiosidade foi maior e aos poucos abrimos os olhos, para perceber que o barulho vinha do fundo do quarto mesmo, e que lá não havia ninguém. Ficamos paralisados, mas não tínhamos coragem para levantar. Uma das meninas, a que se encontrava de costas para o fundo do quarto, estava imóvel como uma estátua e com uma expressão estranha no rosto. Parecia que todos os músculos de sua face estavam rígidos como uma rocha.Para espanto geral, ela mandou com uma voz estranha, que todos tirassem os dedos do copo e somente ela poderia tocá-lo. Fizemos como foi dito, e como já imaginávamos o que estava acontecendo iniciamos as perguntas.

A primeira delas foi: Quem é você? E a resposta foi rápida: Fritz.

Já tínhamos entendido que era um homem e perguntamos como ele havia morrido. A resposta foi confusa, pois foi entendida de duas formas diferentes. Depois disso, decidimos perguntar sobre nós, e a única resposta que obtivemos foi: Parem de brincar!

Insistimos, mas, novamente a resposta foi:

– Não jogue mais!

Perguntamos por que deveríamos parar e a resposta foi bem assustadora:

– Porque há mais de um por aqui e vão te machucar!

Ficamos em silêncio, espantados, sem saber o que fazer e, por via das dúvidas, era melhor parar. Mas como fazer para nossa amiga voltar ao normal? Pedimos para ele ir embora, ao que foi dito: Agora é tarde!

Entramos em pânico! Uma das garotas começou a chorar e a sentir um enorme frio. Todos estavam sentido calafrios horríveis e dores de cabeça e coluna. Pedimos mais uma vez e não obtivemos resposta. Foi quando um dos cachorros da casa entrou no quarto correndo e ao ficar de frente para ela, começou a latir e rosnar feito um cão raivoso. Começamos a gritar de pavor e de repente, a bicicleta que estava pendurada num apoio na parede, despencou sobre nossas cabeças, por pouco que escapamos da pancada, pois já estávamos apostos pra sair correndo do quarto.

Nesse dia, quebramos uma velha teoria: a de que dois corpos não são capazes de ocupar o mesmo lugar no espaço. Descobrimos que numa situação de extremo pavor, não só dois, como quatro corpos são capazes de ocupar o mesmo lugar no espaço, já que passamos ao mesmo tempo por uma porta estreita e até hoje não sei como! Para se ter uma idéia, só o nosso vizinho ocupava quase que todo o espaço de passagem da porta. A nossa outra amiga continuou lá sentada e imóvel. Recobrados do susto, voltamos para resgatá-la: estava desmaiada. Quando entramos no quarto, o cachorro ainda estava lá latindo como um louco. Arrastamos a garota de lá e molhamos o rosto dela pra acordá-la: ainda bem que funcionou…

Ela não lembrava nada do que tinha acontecido, além de estar sentindo uma enorme dor no corpo, como se tivesse sido espancada. Passou uma semana assim.

Quando ao cachorro, parou de latir. E as nossas pernas, de tremer. Voltamos ao quarto para limpar a bagunça. As velas estavam apagadas e o incenso também havia sido apagado na metade. Rasgamos a cartolina e decidimos nunca mais brincar com o que nós não tínhamos controle, afinal, da próxima vez poderia ser pior, quem sabe…

Contado por Cynthia Sisnando