A Cadeira de Balanço

Ela balançava sozinha…

Zona rural de Várzea Alegre, Ceará. O ano é 1997. Decido passar o “fim de ano” na propriedade dos meus avós paternos. Recebido sempre muito bem pelos meus padrinhos, residentes lá, fico aos cuidados deles os quais sempre terei profunda estima. A eles, minha gratidão por tudo.

O vai e vem de gente que sobe e desce as ladeiras é grande. A Serra do São José é completamente vista do alpendre da casa de minha avó. A geografia da propriedade é típica de uma cidade interiorana do Ceará: solo árido, pedregulhoso, vegetações esparsas. De dia, tudo bem.

O cair da tarde descortinava o arrebol, que avermelhava o céu e fechava a paisagem. A escuridão logo vinha. As poucas casas da região acendiam suas luzes que contrastavam com as trevas. A sensação de isolamento misturada com o cenário virava matéria-prima para toda sorte de imaginações assombrosas.

O costume de sair cedo para buscar o leite das vacas é cultural. Seja de bicicleta ou na Pampa (Ford), a missão era obrigatória. O gado era levado do curral para um pasto no “Cacimbão”, um pequeno domínio de terra que meu avô paterno tinha para dedicação à plantação de bananas. Do fim da tarde para a noite aquele lugar era sinistro.

Pegávamos uma estradinha para ir buscar o leite. Passávamos sempre, no meio do trajeto, na frente de uma casa bem usada pelo tempo.

O que sabíamos é que somente residia uma senhora muito idosa. O seu aspecto bruxoso e a mesma sempre um pouco distante de quem perto chegava da casa criava uma sensação horripilante. As costas encurvadas e o lento andar com um característico som de arrastado de chinela denunciavam sua presença.

A casa era bastante lúgubre. Ali, era constante a presença de uma cadeira de balanço na sua calçada feita de tijolos de barro. Sempre vista só.

Naquela época do ano não ventava. Sol tinha demais! Com o calor batendo, o passo era ligeiro para poder botar em casa e fazer refeições. Em uma dessas, a cadeira de balanço da casa lúgubre foi vista balançando sozinha.

Foi visto por um, foi visto por dois, foi visto por três. A cadeira de balanço balançava sozinha! A maioria dos avistamentos ocorria pelo fim da tarde.

Chega janeiro de 1998. Acabam-se as férias escolares. Regresso a Fortaleza.

A velha senhorinha, com uma simpatia no mínimo esquisita, ria só às vezes dentro da casa lúgubre. Usava uma lamparina para guiar-se na escuridão entre os cômodos. Quem passava perto, ouvia o tom macabro da expressão sonora. Seria muito difícil acreditar que aquela idosa teria a imaginação de criar um “truque”. Tempos depois, faleceu. Só. À noite. No escuro.

Anos depois a casa caiu. Quem entrava nos escombros, sentia uma pulsação. Sensação de “tem mais alguém aqui”. Magnetismo?

Os escombros eram vistos a cerca de mais ou menos um quilômetro de distância da propriedade dos meus avós. Em uma obra de remoção dos escombros, foi encontrado o Livro de São Cipriano debaixo do fogão à lenha…

Há quem diga que, vez por outra, escuta a horripilante risada que era da idosa senhora.

A cadeira de balanço que balançava sozinha nunca foi encontrada.

Seria a cadeira uma ‘visagem’? Uma ilusão de ótica? Uma materialização energética? Um delírio? Talvez, mas a cadeira era real e balançava sozinha…

Contado por José Demontier Vieira de Souza-Filho