A Coruja

Um belo e assustador poema de João Paulo Parisio.

janela fantasmagórica

A Coruja

Quinze para meia-noite,
ou onze e quarenta e cinco.
Uma alma veloz se esgueira
pela janela dum apartamento
no décimo quinto pavimento
do velho edifício Santa Cruz.
Esquadrinha o fragmento
da terra de Santa Cruz
que foi em dado momento
de sua encruenta infância
o maior empório de açúcar
sob todo o firmamento;
agora efervescente ruína.
Não voa contra um céu,
elidindo constelações
que já ninguém lê,
mas sob o estuque
das penosas nuvens
feitas de pó de cobre
misturado a fuligem,
observando a esmo
as pessoas nas ruas,
através das paredes,
presas ao solipsismo
de suas cotidianas sinas
e preocupações costumeiras,
cultuando a própria imagem
no recesso de um altar íntimo
como compensação mínima,
que é o que lhes resta da vida.
Os transeuntes não a notam,
estão todos distraídos;
sequer erguem as cabeças,
e os poucos que são atraídos
pela gravidade de sua existência
tomam-na por uma coruja,
uma coruja branca,
mas as corujas percebem
que esta não espreita ratazanas,
livre de necessidades mundanas,
logo não é uma das suas,
embora guarde semelhança,
como um lobo não é um cão;
esta coruja bebe pelos olhos
e seu bico está consagrado
ao mister de emitir crocitos
que façam os cândidos civis
intuírem que são fantasmas,
ao menos múmias prematuras
que se arrastam em procissão
embaladas pela vertigem
da ilusão de velocidade
e desejo de diversão,
ainda que antes da manhã
a revelação tenha se diluído
numa inquietação indistinta
atribuída ao mau costume
de comer antes de dormir.
Alguns entreveem ainda
os gárgulas imóveis nas quinas
dos monótonos, pardos edifícios
que se alinham na Boa Vista,
donde o estatuto da beleza
parece ter sido banido,
mas logo se convencerão
de que eram só os suicidas
dos quais os jornais silenciam.
Esta é uma lei da arquitetura:
mesmo o puramente funcional,
com o passar de suficiente tempo,
e a sobrevinda da obsolescência,
torna-se gótico por contingência,
e a beleza, essa é como a natureza,
sempre retorna ao ponto de origem,
mas isso eles não entendem ainda.
A meio caminho da volta
da singular ave de rapina,
um quadrelo de origem incógnita
trespassa-a e turva-lhe a retina.
Não é fruto de artesania,
nem de prata entalhada,
mas um artefato produzido
nas retortas dalguma fábrica,
feito em ferro ou em aço,
sem nenhum adereço
não ser secreta logomarca,
disparado por um mecanismo
com a força de dez mil braços,
e seu veneno não é extraído
de alguma planta, rã ou ofídio,
mas sintetizado em laboratório
a partir de resíduos da indústria
e secreções de tumores radiativos.
Tem o efeito de torná-la tangível.
Então a coruja, agora reles coruja,
apenas tem a oportunidade
de entrar pelo apartamento
no décimo quinto pavimento
do velho edifício Santa Cruz.
Lorena mexe na cama
e acorda com o ruído.
“A coitada se encandeou
e bateu com força na parede”,
pensa ao deparar o cadáver
pálido da coruja na sala,
mas ao olhar ao redor
para seus livros em desordem
(Walpole, Maturin, Radcliffe,
Hoffman, Maupassant, Poe)
e para seus rascunhos de poesia
espalhados em folhas avulsas
e cadernos sem pauta,
sente que nunca mais
lhe despertarão interesse,
inspirações profusas,
nem emoções mais altas.
“Nunca mais, nunca mais”,
balbucia insensivelmente.

***


Autor: João Paulo Parisio. Foto: Roberto Beltrão.

João Paulo Parisio é autor dos livros: “Esculturas Fluidas” (poemas, 2015) e “Legião Anônima” (contos, 2014), ambos pela CEPE. Tem publicações em antologias e jornais literários, entre os quais o Rascunho, de Curitiba, e o Suplemento Pernambuco. Entre 2008 e 2010, idealizou e editou a revista artesanal Pensamento. Criou recentemente o blog Fábulas Árduas – fabulasarduas.blogspot.com. Já esteve entre os vencedores de alguns concursos literários, incluídos o Prêmio Cidade de Belo Horizonte de Dramaturgia, o Concurso Nacional de Contos Cidade de Araçatuba, o Prêmio Cataratas e o Concurso Comemorativo do Sesquicentenário da Biblioteca Pública de Pernambuco. No Twitter, @JPParisio. Nasceu em Recife a 4 de setembro de 1982 e vive em Jaboatão dos Guararapes, também  Pernambuco.