A Estátua de Bronze do Largo do Poço da Panela

Por Steel Vas

Conversa vai e conversa vem: bem na frente da igreja da nossa Senhora da Saúde, no bairro do Poço da Panela – distrito mais assombrado do Recife.

Conversa vai e conversa vem; na frente da igreja, havia um discreto, animado e famoso bar – do Vital. Era comum cadeiras e mesas na calçada e brevíssimas agremiações, descontrações, papos e desfrutamentos de bebidas alcoólicas.

Ó lá, ó! – chamou atenção Cleiton para Seu Macedo. Ambos bebiam à mesa, na calçada e conversavam bem-humoradamente em diversos assuntos aleatórios, ainda não totalmente ébrios. – Ó, p´r´ali, Seu Macedo… ficou até madrugada, perturbando aqui em seu Vital, querendo a saideira, chorando porque levou um pé na bunda.

Seu Macedo, que já era um senhorzinho espichado, reagia rindo amigavelmente.

Já Cleiton tinha menos idade; os assuntos de bar convergiam com a companhia de bar de Seu Macedo.

 – É seu amigo que está vindo? – perguntou Seu Macedo, sobre à aproximação do desconhecido.

 – A gente já brincou alguns carnavais juntos… – relatou Cleiton. – Mas, olha pra isso. Ontem bebeu sozinho, choramingando… deu pena. – Cleiton falava em tom de chacota – Aí, o bar fechou e ele não quis saber, foi ali pra frente da igreja (apontando), e deitou lá mesmo, encheu o cu de cana e dormiu.

 – Boa noite! – cumprimentou Macedo.

– Mas cara, como é que tu faz isso?  Arretando seu Vital e em vez de voltar pra casa, fica dormindo na rua! – comentou Cleiton em tom abismado. – Se liga, porra, cu de bebo não tem dono, não!

O rapaz não respondeu e compensação pediu um refrigerante ao garçom.

– Oxe! – surpreendeu Cleiton – Vai beber hoje não, é misera?Enquanto Seu Macedo continuava com o ar de riso, considerando toda a situação hilária.

 – Hoje não, meu amigo, hoje não… – renegando qualquer convite etílico. – Tô meio perturbado aqui, tô confuso… tô aflito!

 – Tás vendo, tu? – ressaltou Cleiton em expressão típica pernambucana. – Seu Macedo, o rapaz se encantou com aquela menina ali da Rua Tito Lívio, filha do Seu Paulo, sabe? Aí, largou ele e ficou assim, ó.

 – Mas o que aconteceu, homem? – indagou objetivamente Seu Macedo ao rapaz que, ainda com o aspecto de ressaca, tomava soda.

 – Nem morar aqui ele mora, Seu Macedo – observou Cleiton. – Vem pra cá lamentar e acha que vai esbarrar com ela.

 – Não, não… – negou o rapaz. – Né isso, não. A noite ontem foi esquisita, bicho.

 – Conte logo, homem! – estimulou seu Macedo quase imperativamente.

 – Ontem… madrugada de ontem depois de uns tragos, aí eu fiquei bêbo p´carai. E fiquei ali, ó (apontando), na frente daquela estátua de bronze… Porque era a única companhia que tinha. E eu acabei adormecendo ali mesmo.  Aí, passei toda a madrugada lá, dormindo. E acordei em uma hora estranha, o momento mais relutante da madrugada. Quando nem o grilo cricrila, quando há indiferença para a falta de iluminação pública nas ruas – pois ninguém reclama da escuridão. Quando não há vistoria de qualquer alma humana nessas vilelas. Quando a regra é o silêncio, e a exceção é o estranho rugido de uma inesperada ventania que quer dizer algo. Quando os ordinários adormecidos estão nas suas respectivas camas sonhando à deriva. Quando até os fantasmas se recolhem no seu recinto temporal…

Deu um gole no refrigerante e prosseguiu.

 – Uma coisa estranha aconteceu, bicho. Ainda grogue, um tanto embriagado, e senti aquela estátua de bronze ali, movimentando-se. No começo foi impressão, mas ela saiu do lugar, e eu cheguei até a ouvir o barulho das correntes. A estátua foi até a esquina da igreja e ficou observando; não a rua, não a vilela, não as casas, mas olhava compenetrada,  num ar de lamentação, num horizonte que talvez não mais existisse. E por alguns minutos, fixou-se naquele local, até retornar ao lugar do seu monumento.

 – Tu tá dizendo que a história da estátua que anda pela noite é verdade? E que tu viu a estátua andando quando bebeu feito um gambá na noite de ontem? – ironizou Cleiton.

– Então as lendas urbanas são verídicas. – especificou Seu Macedo. – Obrigado, meu rapaz. Foi uma história típica de Noites da Taverna, aquele livro misterioso de Álvarez de Azevedo.

E os dois riam ao mesmo tempo em que o contador de assombrações permanecia com o olhar assustado fixo numa recordação perturbadora.

Mas, rendido pela serenidade do rapaz, Cleiton perguntou:

 – Se a estátua só caminha pela noite, quando a rua tá deserta, por que ela não se importou contigo?

 – A estátua de bronze, famosa, provavelmente deve ter reconhecido um coração petrificado – sugeriu Seu Macedo referindo-se ao coração partido do rapaz, motivo que o levou à bebedeira.

O rapaz tomou o último gole de soda, recobrando a promessa contínua de sobriedade e disse para quem quisesse ter lhe ouvido:

 – O sobrenatural não está aqui para nos explicar sua existência ou nos preencher. O sobrenatural está aqui para nos intrigar.

E partiu do bar, sem se despedir dos amigos, caminhando pela Rua Real do Poço sentido à Avenida Dezessete de Agosto com dúvidas se reataria seu antigo relacionamento algum dia, mas com a certeza de que nunca mais passaria perto daquele sinistro lugar.

Steel Vas é escritor e letrista. Tem um livro publicado: Diário de Sonhos

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