A Freira que Vigiava

Contado por Marília Maciel*

Minha mãe passou alguns anos interna em um colégio de freiras em Caruaru, o Lar Santa Maria Gorete, até aproximadamente seus 27 anos, o que coincide com o final da década de 70. O colégio possuía dois grandes dormitórios de meninas, em diferentes andares, e, como de costume, toda santa noite a madre superiora visitava os dormitórios para averiguar se não faltava alguma menina em sua cama.

Isso era tão rotineiro que elas já esperavam pela passagem da madre, e aquelas que planejavam saídas furtivas à noite programavam-se muito bem para isso. Uma certa noite, enquanto todas as meninas já haviam se recolhido, minha mãe disse que a madre entrou no dormitório onde ela ficava, e se dirigiu lentamente em direção a sua cama, observando e averiguando cautelosamente o ambiente.

Seus passos eram lentos e bastante pesados, e era até possível ouvir sua respiração cada vez mais próxima. Foi então que minha mãe, ainda acordada, se virou em direção à madre para dar um boa noite ou outro cumprimento. Como a freira já estava suficientemente perto de sua cama, ao virar-se ela ficou em frente àquele hábito negro, começando a seguí-lo com seus olhos até alcançar o rosto da religiosa. Ela conta que tudo estava lá, a roupa, os pés, os braços, mas, para seu completo espanto, não havia cabeça alguma naquela freira.

Ao perceber que não se tratava de uma madre de carne e osso, ela se se cobriu com o lençol e ficou quietinha por toda a noite, como se aquele gesto a protegesse daquela assombração católica. Já ouvi dizer que mulheres que se relacionam com padres viram mulas sem cabeça, mas qual seria a causa para uma freira sem cabeça?

No dia seguinte, minha mãe se manteve calada sobre o ocorrido, talvez pelo receio em ser motivo de chacota entre as outras meninas. No entanto, enquanto ela tomando seu café da manhã no refeitório, juntamente com todas as outras internas e as freiras, ouviu, em um canto esquerdo da mesa, um alvoroço de algumas meninas a dizer que nem haviam dormido na noite anterior. Elas alegavam que viram uma cabeça de freira flutuante, justamente na janela do dormitório do primeiro andar.

Minha mãe, não mais ressabiada, resolveu compartilhar também seu avistamento, e todos ficaram assombrados com o fato de uma freira fantasma ter aparecido em dois dormitórios ao mesmo tempo, sendo a cabeça no primeiro e o corpo no segundo andar. Seja lá o que foi, certamente essa visagem desenvolveu uma estratégia de vigília bastante eficiente.

*Marília Maciel é uma verdadeira apaixonada pelos causos e contos populares do folclore pernambucano, sejam eles nos engenhos, subúrbios ou ruas da capital. Desde muito pequena, ao visitar parentes e conhecidos em engenhos e bairros mais afastados, adorava ouvir relatos de malassombro. É apaixonada pelas histórias de assombração contadas pelos autores pernambucanos Gilberto Freyre e Jayme Griz. Tentou reunir em seu blog – Enquanto o Papa-figo Não Vem  – várias histórias, ouvidas durante sua infância e juventude.