A Missa da Meia-noite

É triste quando as pessoas já não acreditam na gente. Dona Brígida enfrentava essa sentença enquanto se debruçava na janela de casa naquela noite de domingo. Via o movimento de sempre rua da cidade alta de Olinda. Há quanto tempo vivia ali? Desde os anos alcançados pela lembrança. Pertencia àquele lugar como as árvores antigas, as residências de paredes grossas e as pedras que cobriam as ruas. Até um mês atrás, todos os vizinhos lhe davam boa noite quando aparecia na porta. Muitos paravam para dividir uma prosa, as crianças pediam a benção, imagine só. Agora passavam às pressas, de nariz arrebitado, um ou outro fazia uma aceno de cabeça e olhe lá. Quando dava as costas, podia ouvir os sussurros, pois era velha, sim, mas não mouca:

– Tá caduca, né?

– Parece que esclerosou…

– Será que foi porque falou muito da vida dos outros?

Não bastasse a dor nas juntas, a vista cansada, a viuvez, a pensão de poucas notas, fora premiada com a insônia e o desprezo dos que antes a tratavam tão bem. É, falava da vida dos outro, tá certo. Mas aquela gente dava motivo.

Fulana tinha nada que receber o entregador de gás quando o marido não estava? E era certo sicrano gastar o dinheiro da feira com jogo de bicho e depois ficar pedido trocado aos amigos? Repara só se mocinha de cambito fino, feito a filha de beltrana, tinha que sair na com uma saia de um palmo de largura. Fazia esses comentários assim, quase sem querer, mas era para o bem deles – eita povo desorientado, sem temor a Deus, sem Jesus no coração!

Ela dava o exemplo cuidando das obrigações da Terra e do Céu. Não perdia a missa do domingo no Mosteiro de São Bento. Estava sempre lá, fervorosa, rezando e cantando. Era seu único compromisso semanal desde a morte do marido, dez anos antes. Criados, os três filhos só apareciam de vez em quando. Entre uma visita e outra, não deixava amolecer a alma. E tome dizer o terço, fazer novena, participar de procissão, sem se esquecer de ajudar os pobres, pois fé sem caridade de pouco adianta.

Todavia, num certo domingo de julho, Dona Brígida dormiu demais e perdeu a hora da missa matinal. Resultado de uma conversa entre vizinhas até altas horas da noite anterior. A quebra de rotina provocou nela uma gastura. Passou o dia agoniada, imaginando como permitiu que o Diabo – sim, ele mesmo, só podia ser – a tivesse induzido ao pecado do cochilo a mais.

Quando a noite caiu, quem disse que ela conseguia dormir? Deu dez, deu onze horas, e nada de sono chegar. Não adiantaram nem a garapa, nem o chazinho de camomila. Colocou o xale sobre os ombros e saiu caminhando pelas ladeiras caladas para tomar um ventinho e ver se a angústia passava.

Ficou surpresa ao ver a igreja do mosteiro aberta e cheia de velas. À meia-noite estavam celebrando missa? Que alívio para uma pobre pecadora – não passaria o fim de semana sem cumprir seu dever cristão. Entrou na igreja e viu que estava lotada. Ficou num cantinho, escutando o padre.

O estranho é que o sacerdote falava em latim, como antigamente. Ainda mais esquisitos eram os outros fiéis: usavam roupas antiquadas, que há décadas ninguém tinha mais coragem de usar. E reparar nesses detalhes provocou calafrios. Levantou-se para olhar acima multidão e saber se o vigário era conhecido.

Descobriu que o celebrante era um esqueleto vestido de batina, caveira carcomida que usava trapos como paramentos! Esqueletos também eram as outras pessoas que estavam na missa – cada um segurando velas com mãos ossudas!

Dona Brígida saiu correndo e berrando, mas não foi muito longe. Caiu desmaiada a poucos metros da igreja. Foi desperta ao nascer do sol, pelo entregador de pão. Contou o ocorrido aos vizinhos e recebeu olhares desconfiados, muxoxos e risadinhas disfarçadas. As almas da missa trouxeram pesadelos às suas madrugadas, antes tão tranquilas quanto o sorriso da Virgem, e ainda tinham lhe roubaram o respeito que gozava entre aquelas famílias.

É triste quando as pessoas já não acreditam na gente. E na volta desse suspiro, naquela noite de domingo, percebeu que já se aproximavam as doze badalas. Os pensamentos voaram enquanto a rua emudecia em frente à sua janela. Arregalou os olhos ao notar, de longe, que a igreja do mosteiro parecia estar aberta e cheia da luz cálida das velas.

Cobriu-se com xale e caminhou pelas ruas em direção à igreja. Quem sabe aquela não seria mesmo a missa que, dali em diante, deveria frequentar?

Contado por Roberto Beltrão