A Misteriosa Bela da Praia

Ilustração: Téo Pinheiro

O Pina é um bairro riquíssimo em histórias, considerado por alguns escritores como uma das povoações mais antigas do Recife. De fato, situa-se num local quase de inevitável ocupação, dada sua condição de estar entre o mar e o extenso e largo braço do rio Jordão. Neste querido bairro  tive uma infância quase perfeita, meus pais inclusive moram ainda na mesma casa, ocupada desde 1972.

Ali, também me veio uma fértil adolescência, com minha turma e bagunças. Durante esses anos, minha casa era uma verdadeira festa que não parava. Um “point” para a garotada da rua, como se diz hoje. Nestes encontros, diários, num certo período, o fim da noite normalmente era encaminhado para o “fantástico” e todos se esforçavam para contar a melhor história ou a história mais assustadora. Até que um dia, não recordo exatamente quem, falou:

– Alberto, conta agora o que aconteceu estes dias com teu pai.

Todos se voltaram e o apontado em questão titubeou, quase engasgou e disse: “acho que todos sabem”. Não nem todos sabiam e eu era inclusive um deles. Será que mais uma assombração estava fazendo das suas aparições pelo bairro? Não era suficiente que bem próximo dali, surgisse em noites de lua pelos mangues, a Encantada, que deu nome inclusive a uma rua ainda hoje existente lá? Não era outra. Ele começou e disse:

– Não riam. Pai está bem abalado com o que aconteceu.

Seu Marcos era muito conhecido naquela região, não apenas por sua habilidade como profissional, mas também por ser um boêmio incorrigível. Quando começava uma farra ao fim de semana, era difícil convence-lo que a segunda não era sábado. Também era um namorador hábil e a esposa fazia absoluta vista grossa. Tinha desistido de brigar a tempo e assim a vida daquela família corria. Até que numa noite de sábado, ele conheceu uma garota numa festa de bairro à beira-mar das que aconteciam àquela época, chamadas “feirinhas típicas”. E a praia foi o melhor lugar que encontrou para levar a menina.

E depois de namorar, como já estava “calibrado” de uma boa quantidade de cerveja, acabou adormecendo ali mesmo, que ninguém é de ferro. Há trinta anos, podia-se se dar ao luxo de dormir na praia e acordar vivo e com roupa e ainda com relógio e carteira. Foram poucas horas que descansou, mas foi reparador. Despertou só, em plena madrugada. A parceira havia saído e ele nem havia percebido. Uma esplendida lua cheia clareava toda a praia e as pequenas ondas de uma maré crescente, tornavam a cena encantadora e que acredito todos já tivemos o prazer de ver uma cena assim.

Sentou-se e passou a mão na cabeça para despertar realmente, olhando o mar de onde estava. A cena aparecia congelada. Uma foto de um artista habilidoso. Algo então o fez parar realmente. Um vulto emergiu das águas exatamente diante do ponto de onde estava. Primeiro pelos ombros e em seguida começou a vir em direção à beira mar. O resto de sono que ainda havia, diante do inusitado da situação dissipou-se completamente. O vulto começou lentamente a sair da água. Ah… e aí que o sono acabou-se mesmo!

Como era curioso, levantou-se e foi em direção àquela pessoa. Começou então a vislumbrar a mais linda mulher loira que poderia imaginar, com cabelos longos que chegavam à cintura e com um detalhe: estava com uma roupa muito transparente, quase nua! Com passos graciosos, saiu do mar e começou a caminhar em direção a Boa Viagem. O homem, estupefato e agora, realmente interessado, sem pensar duas vezes, começou a seguir aquela mulher maravilhosa que tomava banho nua em plena madrugada recifense. Como havia perdido em seu sono uma cena tão rara e especial como aquela?

Apressou o passo; ela por sua vez, caminhava sem virar o rosto, mas não estava apressada. Caminhava tranquilamente. Ele deslumbrado observava o corpo delineado como nunca havia visto. Os cabelos claros que desciam pelas costas… Tornozelos… Pés super delicados… Lindos. Mas ao observar para aqueles pezinhos, algo faltava. Ela não deixava marcas na areia! Achou que estava vendo demais ou de menos e ao virar para ver a trilha que tinham deixado, só encontrou as suas próprias pegadas!

Parou de medo. E teve mais ainda de olhar à sua frente. Mas o fez! E, diante dele, a linda mulher estava o observando, com um leve sorriso nos lábios. Descompassado, o coração do pobre homem pedia para ele que corresse, mas as pernas não obedeciam. Estava colado na areia da praia de tanto pavor. No local onde a rua Tomé Gibson encontra a Avenida Boa Viagem, a moça misteriosa tomou novamente o rumo do mar e, com grande agilidade, num único mergulho desapareceu sob as pequenas ondas. Ele lentamente tomou o relógio para ver quanto tempo ela ficaria mergulhada, ainda achando que podia ser uma pessoa entre os viventes. Mas a espera foi em vão. Ela havia retornado ao mar!

Estávamos obviamente estáticos e nem piscávamos ao ouvir o relato. E nunca mais esqueci essa história. Segundo pude perceber depois pelo próprio Sr.Marcos, ele nunca escondeu o que havia visto. Ouvindo depois outras tantas vezes o mesmo “causo” – porque história boa é como filme ou livro que se assiste ou lê várias vezes – me quedei muitas noites diante do mar do meu bairro, tentando ser o próximo que veria a encantada. Queria encantar-me com seu corpo e seu sorriso. Nunca a vi. Não sei se tive sorte ou azar.

PS: Os nomes reais foram substituídos nesta história absolutamente verídica.

Contado por Sergio Paulo de Mello Feitosa

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