A Moça que Dançava Mesmo Estando Morta

Uma lenda contada em várias cidades do Brasil e mesmo em outros países tem um versão recifense. Veja neste trecho do livro “Estranhos Mistérios d´O Recife Assombrado“, de Roberto Beltrão.

Conta-se entre os mais velhos que, nos anos 50, um rapaz compareceu a um tradicional clube social do Recife, onde se realizava um romântico baile. Lá, circulou tentando encontrar algum amigo, para quebrar aquela sensação de “deslocamento” que sentia. Nessa procura, avistou uma jovem desconhecida que lhe chamou atenção pela beleza e por uma certa aura de mistério que a envolvia.

Ele puxou conversa e foi ficando ao lado dela, profundamente encantado. Era estranho porque a moça estava sozinha na festa – coisa quase impossível para os padrões de comportamento da época. Mas o conquistador não ligou. Aliás, achou até bom. Dançaram por várias horas ao som da orquestra. A noite foi passando e, entre conversas sussurradas ao pé do ouvido, trocaram um beijo. No entanto, às duas da manhã, a jovem ficou inquieta e manifestou o desejo de ir para casa imediatamente.

E assim aconteceu. Foram à procura de um táxi para que a moça chegasse em casa com a pressa que necessitava. A madrugada estava fria e ele, gentilmente, colocou seu paletó em cima dos ombros dela. Deixou-a na porta da residência. Na despedida, marcaram um novo encontro para o dia seguinte, quando ela devolveria a peça ao rapaz. Ele, seduzido pela formosura da moça, não via a hora de revê-la. Tão logo entardeceu, retornou àquele endereço e foi recebido por uma senhora que lhe atendeu à porta. O apaixonado perguntou por Maria de Lourdes – este era o nome da bela jovem. Subitamente, a senhora foi acometida de uma palidez intensa e, ainda abalada, respondeu com um fio de voz:

– Lourdinha? Não é possível que o senhor a tenha conhecido, pois minha filha Maria de Lourdes… morreu há quatro anos, aos 23 anos de idade. Foi morta por um namorado ciumento, quando saía de um baile. Seu túmulo é no cemitério de Santo Amaro e posso acompanhá-lo até lá…

O rapaz ficou estupefato, pois não podia ser a mesma Maria de Lourdes de quem falavam. Ele ainda sentia o calor do corpo da moça, o seu perfume suave, a sua voz doce e a sua pele macia. Ao chegarem ao túmulo, encontraram apenas o sobretudo dobrado em cima da última morada de Maria de Lourdes. No mármore estava escrito: “Saudades de seus pais e irmãos”.

Ouvindo um relato assim, a gente fica a pensar por que um espírito voltaria a materializar-se, só para curtir um baile. Será que, “do outro lado”, as festas dançantes são proibidas? Difícil de responder… Parece que as almas das pessoas que foram verdadeiros “pés-de-valsa” sentem muita saudade de “balançar o esqueleto”, como se dizia no tempo da vovó. Triste de quem encontra uma dessas belas assombrações dançarinas e se encanta por ela. De acordo com os relatos, as vítimas sempre são homens desavisados e embriagados pela beleza sobrenatural da sua parceira de dança. E as conseqüências dessas paixões podem ser terríveis, como revela o cordelista pernambucano J. Borges, no folheto “A moça que dançou depois de morta”. Alguns versos escritos por Borges contam um sonho que o pobre apaixonado teve antes de descobrir que a sua querida era uma defunta:

Quando ele chegou em casa
a barra vinha quebrando…
Ele deitou-se e dormiu
e ali foi logo sonhando
que estava numa dança
com uma moça dançando.

E a moça era bonita
linda, atraente e cheirosa.
A cintura de pilão
e o rosto feito uma rosa
que de momento virava
uma caveira horrorosa

Veja um vídeo sobre a Moça do Baile!