A Serpente do Açude

O município de Triunfo fica na região do Alto Pajeú, Sertão de Pernambuco. Um lugar muito procurado pelos turistas por causa do clima frio que faz a gente querer sair bem agasalhado, de casaco, luva e touca. Isso porque é a cidade mais alta de estado – 1.100 metros de altitude. No centro existe o açude João Barbosa Sitônio, o orgulho dos moradores. Pois uma antiga história do lugar relata que uma recém-nascida foi jogada no açude por uma mulher que engravidara sem se casar e queria se ver livre do bebê. Eita mãe desalmada!

Contudo, ao cair na água fria e escura, a menina não morreu. Por obra de um misterioso encantamento, transformou-se em serpente gigante, cheia de escamas reluzentes. Anos depois, já no tempo em que padres promoviam missões religiosas e percorriam as cidades nordestinas abençoando os fiéis e pregando as rezas e penitências para salvação das almas, a criatura fez uma aparição medonha.

Um padre missionário celebrava uma missa na igreja matriz e avisou ao povo que iria acontecer uma coisa muito estranha, raramente vista pelos pecadores, imagem que em tudo lembraria o Livro do Apocalipse, a parte mais sombria das Sagradas Escrituras. O religioso provavelmente havia sonhado com tal ocorrência insólita depois de uma noite entregue às orações, com as contas do terço nas mãos.

No momento em o padre esboçava sua profecia, a tal serpente saiu ligeira do açude e foi até a igreja. O monstrengo procurou na multidão uma mulher chamada Celina, que, silenciosa e contrita, estava sentada entre os fiéis participantes da celebração. A gigantesca cobra achou-a no meio do povaréu, abriu num bote o decote do vestido da mulher e mamou no seio dela. Mamou como recém-nascido que descobre o aconchego da mãe. Num instante, a serpente virou uma criança – a menina jogada ao açude – e desapareceu por encanto.

Outra versão da lenda diz que, depois de mamar, a serpente simplesmente voltou à água, deixando Celina muito desconsolada e muito ressentida. Por via das dúvidas, os moradores de Triunfo preferem não passar muito perto do açude à noite: vai de lá que a misteriosa serpente revolve aparecer de novo?

Contado por Roberto Beltrão