A Sombra do Degolado

Tempos atrás, eu e minha esposa Shelley – inglesa de nascimento – morávamos na Rua Primeiro de Março, no Centro do Recife, numa pequena e antiga casa que conseguimos alugar por módico preço quando eu ainda era estudante de Direito. Após a morte de minha mãe, papai perdera o gosto pelo comércio atacadista e definhava de saudade a olhos vistos. Meu irmão mais velho procurava com dificuldade levar a firma adiante e ao mesmo tempo arcava com parte das custas de meus estudos. Pela manhã eu frequentava a Faculdade de Direito no Mosteiro de São Bento, onde ficava estudando até o final da tarde, quando ia trabalhar como redator no Diário de Pernambuco. A vida não era fácil, mas passado o luto familiar a levamos de forma simples e feliz.

Estranhava apenas o fato de pela manhã, por vezes ao raiar de um belo dia de sol, a casa em que morávamos apresentar ainda um aspecto sombrio e pesado, triste mas inofensivo. Perguntei a minha esposa se ela também notava isso, coisa que ela negou de forma um tanto reticente. Quando insisti disse ela que eu “cismava”. Assim, esqueci o assunto.Depois nossa sorte melhorou. Formei-me. Meu irmão firmou pé e fez nome na praça comercial do Recife, seguindo a senda paterna. Quando minha clientela começou a crescer pude comprar uma bela casa na mesma rua. Casa arejada e alta, mais nova e principalmente sem a tristeza que parecia rondar nossa residência anterior.

Foi então que, num sossegado café da manhã de domingo, comentei com minha esposa como as duas casas diferiam nesse aspecto que ela parecia ter ignorado todo esse tempo. Ela assentiu e disse:

– Agora posso contar-te.

– Mas de que se trata afinal?

– Assim que para lá fomos, nas noites em que dormitando no quarto te esperava voltar do jornal e mesmo quando já ressonavas eu ouvia roucos lamentos vindos da sala, aparentemente próximos da janela. E também o som estranho de algo que parecia arrastar-se e tombar. Isso se repetia diversas noites, depois cessava e retornava mais tarde. Era curioso.

– Curioso? Que dizes?

– Digo que desde que cheguei ao Brasil ainda não tinha visto ou ouvido tal coisa. Lembra muito minha terra e minha infância. Ouve: uma noite em que já dormias e escutei os ruídos resolvi ver do que se tratava. Tomei coragem e fui à sala. Ali, andando devagar junto à janela estava o vulto de um homem envolto em uma grande capa, que descia até os pés. Caído sobre a face um feltro certamente flamengo. Puxava ou arrastava pelo chão um florete, ou algo assim, que logo deixou cair como se estivesse muito cansado para segurá-lo. Vi então que jogava a cabeça para trás, de forma que seus olhos – ou o que adivinhava ser seus olhos – pudessem ver-me melhor. Nesse momento o fascínio da visão transformou-se em medo real e voltei rapidamente ao quarto.

Eu me apavorava ante esse conto. Falei com um fio de voz – É brincadeira…

– Mas de forma alguma! Algumas noites depois os lamentos e murmúrios voltaram a surgir na sala. Fui ver e lá estava ele, na mesma posição, meio apoiado na fina espada. Desta vez, quando o rosto foi se revelando sob o chapelão encarei uma face pálida com bigodes longos e uma expressão muito triste. Sobre a gola da capa pude entrever empoeirados cabelos louros. Como a dobra da capa se abriu, vi que com a outra mão ele apertava o pescoço – parecia sufocar. Eu estava no canto oposto da sala. Ele foi lentamente se aproximando e disse, quase sem voz, suplicante: “Wasser, bitte! Wasser…” (quer dizer “água, por favor” em alemão). Nesse momento, foi levantando o queixo e deixou cair a mão, ao mesmo tempo que foi ao chão de joelhos, produzindo o som que eu já ouvira antes. Aterrorizada, pude ver então que sua garganta estava cortada de lado a lado e um sangue enegrecido borbotava sobre rotas rendas que lhe ornavam a camisa. O pavor petrificou-me enquanto eu assistia avançar em minha direção o infeliz, implorando pela água que seu assassino ou contendor lhe havia negado na hora da morte, séculos antes.

Nessa altura, eu já não falava mais nada, ouvia fascinado a terrível história.

– Tinha a impressão que o sangue vertido espalhava-se pelo chão, tudo maculando. O degolado aproximava-se rastejando, rangendo os dentes amarelados – Wasser, bitte! Quando o espectro estava a meio metro de mim caiu de bruços ao chão e prontamente desvaneceu-se no ar. O desfecho abrupto despertou-me da paralisia. Corri para o quarto, enfiei-me sob os lençóis e fiquei a noite toda acordada, tremendo a teu lado. Mas sei o que fazer nesses casos. No anoitecer do dia seguinte desenhei algumas figuras e tracei antigas palavras em pano, que queimei com certas ervas e enterrei no quintal em frente à janela onde tinha visto o embuçado, enquanto cantava as orações de meus avós. Desde então o degolado não mais retornou.

Engoli em seco – estava estupefato. Mas como você conseguiu suportar isso todo esse tempo? Só porque espectros são tradição reverenciada nas terras de onde vieste? Por que não me contaste nada? Por que não me disseste o que acontecia na casa em que morávamos? A isso, Shelley – minha querida inglesinha, ruiva e sardenta – riu a bom rir e disse:

– Se te contasse, da forma como és medroso, ias querer fugir dali, jamais acabarias teu curso e iríamos morar à beira do Capibaribe – ou pior: com teu irmão.

Shelley tem sempre razão.

Contado por Raphael D. Brito

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