Alamoa

Nascido e criado perto do mar, Tião pescador tinha poucas ambições. Comprar um barco a motor, morar numa casa de alvenaria, mas principalmente casar-se com Rosa, morena de pernas grossas e cabelo longos na flor dos dezessete anos. Ficara noivo da menina graças à amizade que cultivava com o pai dela, Mestre Amaro, o pescador mais antigo da colônia. Quando não estavam na labuta diária, os dois passavam horas em prosa lenta, embalada pela brisa. O velho saboreavam cada palavra molhada em goles de cachaça.  Tião admirava sobretudo o jeito manso e a experiência do Mestre, adquirida em anos sem conta na lida com o pescado.

Numa manhã quente de janeiro, o corpo de Mestre Amaro foi encontrado entre as árvores rasteiras do mangue que existe perto da praia. Estava inchado e roído pelos peixes. Havia desaparecido há três dias, depois de se lançar silenciosamente ao mar num fim de tarde. Os colegas e vizinhos culparam a cachaça.  Tião, que se sentia como se tivesse perdido um pai, ficou intrigado. O Mestre gostava de beber, mas bêbado não sairia para enfrentar o oceano. Sabia, porém, que seu amigo andava tristonho nos últimos tempos: quase não respondia  às tentativas de diálogo.

No enterro, a menina Rosa vertia lágrimas sem choramingar.  Já não tinha mais nenhum parente neste mundo – da mãe, nem se lembrava. Abraçada ao noivo, só abriu a boca uma vez:

– Painho não teve culpa, não! Foi a galega encantada que virou a cabeça dele.

A menina contou que o pai tinha visto uma assombração ao voltar à noite de uma pescaria. Uma loira, da pele muito alva, branca como não costumam ser as pessoas vivas mais brancas. Estava nua na praia, como nenhuma mulher de vergonha faria, e atiçava o pescador para que a seguisse. “Uma alamoa”, dizia o velho, que disfarçava um sorriso nervoso cada vez que repetia o que tinha acontecido. Mestre Amaro não cedeu aos encantos da aparição: rezou pedido a proteção de Nossa Senhora até a loira desaparecer como uma névoa fina soprada para longe.

Mas nem todas as preces foram capazes de apagá-la da memória do Mestre. A tal mulher passou a assombrá-lo por dentro, segundo explicara a filha. Ele ficou mais calado daí por diante. Esqueceu os deveres, perdeu o sono e o apetite, até que um dia levantou a vela da jangada e entrou no mar para fazer a derradeira viagem.

Tião não era de acreditar em assombração, mas  doía nele imaginar que o Mestre Amaro tinham partido levando a fama  de pingurço. Mais doído ainda era ver a marca da vergonha no rosto Rosa, moça sem mácula que quase nada sabia sobre as maldades do mundo. E outra coisa: por que o amigo com quem gostava tanto prosear não havia lhe contato aquela história escabrosa?

Decidiu, então, descobrir a verdade. Perguntou a Rosa onde exatamente o velho tinha visto a assombração e ali passou a fazer tocaia todas as noite. Era um pedacinho da praia na frente de arrecifes. O rumor das vagas batendo de encontro às pedras arrepiaria até o mais valente: parecia  choro de alma perdida, talvez de gente afogada que não conseguia se livrar da angústia da morte na água. Tião ancorava a sua jangada e ficava em silêncio, ouvindo o barulho da ondas, sentido um frio molhado que ensopava a camisa, de olhos bem abertos para enxergar a Alamoa.

E na sétima noite de tocaia um manto cinza de nuvens cobria a lua e as estrelas. A escuridão estava ainda mais escura. Quando, pelos cálculos de Tião, se aproximava a meia-noite, notou nascer ao longe, na praia, uma luminosidade baça. Apurou a vista e vislumbrou uma mulher loira de pele alva e curvas suaves. Os cabelos longos, quase na cintura, dançavam no ritmo da brisa. Os pés delicados davam passos miúdos, enquanto as mãozinhas se estendiam para retirar pequenas conchas da areia.

Remou com rapidez para a terra. Desceu da jangada e foi se aproximando devagarzinho da moça. Quando a poucos metros ela percebeu a presença dele, o saldou com um sorrio doce, feito de dentes perfeitos como pérolas. Diante de tanta formosura,  Tião perdeu o medo. Tentou tocá-la nos seios, firmes e formosos, mas ela se esquivou maliciosa e correu em direção à água. Como um peixe,  rumou para o horizonte e, com acenos, chamou o pescador para um mergulho.

Ele, porém, não se moveu. Sentia o desejo arder em todo o seu corpo, mas a lembrança do que tinha acontecido com Mestre Amaro o fincava no chão. Como o seu amigo, pediu força à Nossa Senhora para resistir à tentação. Viu a Alamoa desistir dos apelos sedutores e nadar para longe até que sua luz amarelada sumir no meio do breu.

Quando se descobriu sozinho outra vez,  vacilou entre o alívio e frustração de não ceder ao desejo que lhe consumia a carne. Fosse ou não deste mundo, era a fêmea mais bonita que já tinha visto nua. Em nada se parecia com as namoradas que arranjava nas casas de raparigas. Também não era como Rosa, uma menina ainda, a quem faltavam muitos predicados para ser considerada uma mulher completa.

E nesse conflito passou a madrugada sem sair do lugar, até que o sol viesse lhe fustigar os olhos. A partir desse episódio, não foi mais o mesmo: nunca mais entrou no mar, nem para molhar os pés. Tão pouco conseguia ir muito longe da praia onde se criara. Vendeu a jangada para sobreviver. Esqueceu Rosa que, em desespero, foi trabalhar em casa de rapariga.Deixou a barba crescer e passou a andar com um pedinte. Aos turistas até hoje conta a sua história fantástica em troca de cachaça ou de restos de comida. Todas as noites fica vigiando o oceano na esperança de reencontrar a loira encantada.

Contado por Roberto Beltrão

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