Aparição Nua

Lá pelo fim década de 80, enquanto eu estaria com meus nove ou dez anos, não saberia lhes informar com precisão, contava-me uma tia querida sobre uma aparição da qual ela foi testemunha e que toda vez que repetia a história arrepiavam-lhe os pelos e subia-lhe um calafrio pela espinha.

Tia Zefinha, como carinhosamente a chamávamos, era costureira de mão cheia e sempre nos dias que antecipavam as festas mais tradicionais de Vertentes, cidadezinha bucólica nas encostas da Serra de Taquaritinga, ela ficava cheia de trabalho. Era camisa, vestido, saia, calça,bermuda, tudo em uma quantidade imensa, mas que lhe enchia de orgulho saber que uma boa parte da cidade lhe confiava a fazenda das roupas que seriam desfiladas e exibidas no meio da gente toda, nas procissões ou nas missas solenes. O fato em si aconteceu em uma noite,madrugada da sexta para o sábado, que antecedeu a procissão de São Sebastião.

A minha cansada tia estava por finalizar as últimas peças do dia, debruçada em sua máquina de costura desde as primeiras horas daquela sexta-feira, enquanto cantarolava as músicas costumeiras que lhes faziam driblar o cansaço da lida. Ao fim da labuta, já altas horas da madrugada, como também de costume, foi preparar a água para se banhar antes de deitar. Enquanto aquecia a água em uma panela de ferro sobre fogão, deu uma espiada no longo quintal, onde também ficava o banheiro da casa como era tradição nas casas das cidades do interior de Pernambuco. Como o breu tomava conta do quintal, resolveu se banhar ali mesmo na cozinha, deixando a parte de cima da porta de duas folhas aberta para espionar o movimento no fundo do terreiro.

Ao começar o banho pelos pés e pernas tinha a cabeça baixa e os olhos voltados para o chão, concentradíssima no esfregar a pele e retirar o sabão. De repente teve a impressão de que alguém a observava e, elevando a cabeça e direcionando sua vista à porta dos fundos,arregalou os olhos e estremeceu-se da cabeça aos pés. Uma bela mulher desnuda, de pele tão alva que se fazia visível na escuridão sem fim do quintal e de cabelos enormes e loiros que lhe cobriam os olhos e a face, estava parada como se a observasse. Com as pernas bambas e o coração batendo aceleradamente, tia Zefinha ficou estática por alguns instantes, mas logo soltou um berro apavorado e gritou à aparição: “Quem está aí?Tá querendo o que?”

A assombração imediatamente virou-se de costas e saiu a caminhar em direção ao vão entre o banheiro e um carregado pé de romã que existia no quintal. Dava para ver a extrema beleza da entidade nua, de costas, caminhando lenta e elegantemente ao seu destino. Em um instante de coragem e recitando a oração do Credo inúmeras vezes, tia Zefinha seguiu em sua direção pelo quintal tentando alcançar a estranha mulher que foi se escondendo no canto do muro entre a árvore e a parede do banheiro, se agachando em posição fetal, até que a escuridão a engolisse por completo e dali sumisse, desaparecesse.

Minha pobre tia, então, entendendo do que se tratava aquela visão, mais uma vez sentiu um calafrio medonho e um vento frio, que chacoalhava as plantas do terreiro, a fez correr de volta para dentro de casa, onde trancou todas as portas. Ajoelhando-se na cabeceira da cama e agarrando-se ao terço de estimação, debulhou-se em oração até que lhe fosse concebido dormir tranquilamente, sem a imagem da mulher em sua mente.

Daquele dia em diante, as costuras de tia Zefinha não passavam da última hora do ângelus, e o seu encontro com sua cama era bem mais cedo e religiosamente atendido todos os dias.

Relato de Saulo Silva

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