Aparições da Cumade Fulôzinha

Esta assombração pode estar muito mais perto do que você imagina!

Quando criança, nas férias, eu ia sempre visitar meus avós maternos que moravam no povoado em torno da Usina Pedrosa, próximo ao município de Cortês, na Zona da Mata Sul de Pernambuco. Meu avô era químico da fábrica de açúcar e de álcool. Minha avó, dona de casa. Viviam cercados de vizinhos amigáveis, um pouco de mata atlântica e muitos hectares plantados com cana. Numa dessas visitas, eu, menino besta da cidade, acostumado à tecnologia da televisão colorida e ao sabor artificial do iogurte de morango, pude presenciar um caso bem curioso ligado à tal Cumade Fulôzinha. Foi no fim da década de 1970.

Os moradores do lugar me contaram sobre uma menina de uns dez anos que tinha sido vítima da assombração. A pirralha era pra lá de malcriada e havia escapulido de casa para brincar “nos matos”. Os pais, desesperados, foram procurá-la com a ajuda dos amigos. Depois de muitas buscas, ela foi encontrada chorando perto de um rio. Estava toda suja, com as roupas rasgadas e os cabelos assanhados. Disse à mãe que tinha levando uma surra da Cumade. Fiquei bem impressionado com a história. Um ano depois, numa nova visita aos meus avós, cheguei a conhecer a menina. Ela me confirmou tudo!

Você, que mora na Região Metropolitana do Recife, pode estar achando que está livre dos castigos da Cumade Fulôzinha. Afinal a assombração habita as matas dos municípios do interior… Mas não é bem assim. A menina encantada das brenhas de Pernambuco também aparece no que restou da mata  dentro dos limites da capital.

Quer um exemplo disso? “Malassombrado” é um adjetivo que não vem logo à nossa mente quando alguém fala de um dos recantos de lazer mais populares da cidade. O Parque Dois Irmãos abarca 387 hectares de vegetação densa em torno dos alojamentos de centenas de animais de várias espécies no tradicional zoológico que funciona lá. Nos fins de semana, milhares de visitantes vão ver os bichos e passear nas trilhas abertas na floresta preservada. Isso durante o dia. À noite, quando tudo fica silencioso e sombrio, o lugar é tomado por fenômenos inexplicáveis e aparições misteriosas, segundo os funcionários da instituição.

Nessa hora reina a Cumade Fulôzinha, que se diverte assustando as pessoas. Quem trabalha no parque garante que os animais percebem quando ela está nas proximidades. Antigamente,  cavalos que eram criados no Dois Irmãos ficavam correndo de um lado para o outro dentro dos cercados, depois do cair do sol. Não é para menos: os tratadores explicam que “alguém” fazia tranças nas crinas e nas caudas  – e essa é uma artimanha típica da Cumade. Outras vezes a trela era abrir as porteiras para deixar os cavalos correrem soltos. E até hoje os grandes felinos do zoológico – que, segundo dizem, são bichos mais sensíveis às manifestações sobrenaturais – soltam urros aterradores como se alguma coisa os ameaçasse durante a noite.

A Fulôzinha, contudo, vai além dos truques infantis e se comporta com uma assombração da pesada quando questionam a sua existência. O melhor retrato desse aspecto medonho do comportamento da assombração é o episódio vivido por biólogos que guiam visitas monitoradas ao Parque Dois Irmãos. Comenta-se que, num fim de tarde, eles faziam  descontraído passeio nas trilhas junto com estagiários, quando um dos aprendizes falou em voz alta que não temia a menina das matas e ainda a desafiou a aparecer para mostrar que era verdadeira.

Ela não apareceu, mas fez valer seus poderes. O grupo, que estava acostumado a caminhar por aquele trecho da floresta, se perdeu. Sumiram as marcas que eles haviam deixado nos arbustos para facilitar o caminho de volta. Houve choro e desespero. Não puderam achar a saída por quase duas horas. Era como se as plantas, comparsas numa estratégia maléfica, se movessem para confundir os seres humanos. A turma só conseguiu sair à noite, depois que o estagiário cético pediu desculpas em voz alta pelas grosserias que tinha dito à Cumade Fulôzinha.

Contado por Roberto Beltrão