A Lenda do Encanta-moça

A história mais melancolicamente romântica da tradição recifense deu origem ao  nome de uma antiga localidade na Zona Sul da cidade.

encanta

Este relato tem algo de conto de fadas, mas sem final feliz. Rezam as antigas crônicas que uma iaiá branca, moça rica e bela,  estava passeando à noite numa região pouco habitada do Recife do tempo dos grandes engenhos quando se viu perseguida pelo marido ciumento. Ele cismara que ela o traía com um escravo e poderia até matá-la. Na fuga desesperada contra o agressor, a jovem esposa teria desaparecido no ar: como que por mágica, teria se “encantado” nos mangues em torno Capibaribe, perto do lugar onde o rio de águas escuras se encontra com o Atlântico,  um trecho que hoje pertencente ao Bairro do Pina.

Ainda diz a lenda que a tal moça acabou voltando do Mundo do Além para perpetrar uma espécie de vingança contra os abusos permitidos pela sociedade machista da época. Conta-se que, em noites de lua cheia, ela aparece nua para atrair os marmanjos desavisados que ousam circular naquelas imediações. A vítima sente uma atração irresistível pela aparição desnuda, mas, quando se aproxima, vê o objeto de desejo sumir em meio à bruma fina da madrugada. Alguns ficam loucos e acabam morrendo atolados no mangue. A ameaça desse encontro sobrenatural era levada tão a sério que, por muitas décadas, todos evitavam passar nas horas mortas naquela área de praia e mangue. Até meados do século XX, o lugar ficou conhecido pela poética denominação de “Encanta-Moça”.

Gilberto Freyre registrou  o conto popular no livro “Assombrações do Recife Velho”:

“Nunca mais se viu a iaiá que devia ser mulher bonita, além de branca, para ser tão oprimida pelo senhor seu marido. Talvez tenha se tornado alamoa: e ruiva como uma alemãzinha apareça nas noites de lua a homens morenos e até pretos, assombrando-os e enfeitiçando-os com sua nudez de branca de neve. Mas desmanchando-se como sorvete quando alguém se afoita a chegar perto de seu nu de fantasma. Desmanchando-se como sorvete e deixando no ar um frio ou um gelo de morte. Frio ou gelo que é aliás característico de quase toda a assombração recifense em que um morto aparece a um vivo.”

Visto que quase toda narrativa lendária se origina de um fato concreto, há quem especule que a moça não encantou-se e sim foi morta pelo homem com qual se casara. Outros defendem uma teoria mais mística: ela virou encantada mesmo, mas não fora caçada pelo marido e sim por um demônio ou espírito malvado. Impossível chegar perto da verdade nesse caso, pois não se tem nem a certeza do século no qual tudo supostamente teria ocorrido.

No fundo, a iaiá espectral é uma versão recifense das sereias e outras entidades femininas ligadas às águas que usam a beleza para levar os homens à perdição. Também se assemelha à Alamoa (como menciona Freyre), loira macabra que assombra  visitantes da Ilha de Fernando de Noronha.

Mesmo nos tempo atuais, com todo tipo de casas e prédios ocupando aquela área (inclusive um grande shopping), dizem que os encontros com a iaiá encantada não deixaram de acontecer. Os moradores comentam que a bela moça fantasmagórica passou ser vista à noite na Praia do Pina – versão contemporânea do malassombro que inspirou o conto “Ano Novo, Medo Velho“, de André Balaio.

 Contado por Roberto Beltrão / Ilustração: Fábio Rafael