A Medonha Perna Cabeluda

Tudo o que você queria saber sobre a lenda urbana mais cabulosa do Brasil e tinha medo de perguntar…

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Ela espreita a próxima vítima escondida pelas trevas intensas da rua deserta.  Mistura-se às sombras dos muros altos ou fica por trás das árvores de troncos retorcidos. Tem, como cúmplice de seus ataques, o silêncio das noites mornas da capital pernambucana. Quando o passante desavisado vem pela calçada, a criatura se movimenta ligeira para alcança-lo. O encontro infame provoca o grito descontrolado, faz o arrepio de morte percorrer todo o corpo, leva o coração descompassado à boca.

– Que desgraça é essa, meu Deus? Isso não pode ser verdade!

A fuga desesperada começa, mas é inútil. Num abrir e fechar de olhos, vem a rasteira que leva o sujeito ao chão e depois os fortes chutes. O massacre termina com ele quase desmaiado, estirado rente ao meio-fio, entre gemidos e choramingos. Levado por populares à emergência do Hospital da Restauração, o coitado quase nada consegue dizer às enfermeiras que chegam junto à maca.

– Foi ela, foi ela que deu em mim… coisa medonha demais… pior que o cão dos infernos…. fiquei todo quebrado… quero ver esse troço mais nunca, cruz credo, ave Maria.

Você pode até achar a história engraçada, caro leitor, mas acredite: no Recife, são muitas as testemunhas dos feitos pavorosos do ser abominável ao qual me refiro. E se exagero nos adjetivos  é porque talvez não existam substantivos capazes de descrever como é topar com a Perna Cabeluda. Afirmavam terem visto o pé grosseiro de unhas podres e longas. Na maioria das vezes, falavam que canela, joelho e coxa eram cobertos de pelos ensebados e negros.  Mas as descrições sobre a famigerada assombração variavam – cada pessoa que a encontrava (ou a imaginava) acrescentava outros detalhes macabros. O artista plástico Fábio Rafael, que produziu as ilustrações vistas aqui, acredita, por exemplo, que a assombração tinha um pé de bode, tais com as pernas do próprio demônio.

Pernas

Ainda que seja uma vilã incompleta – membro sozinho, sem cabeça e muito menos tronco – não deixa de ser inteira no quesito “perversidade”: além do pânico, também causa hematomas, escoriações, às vezes quebra ossos de quem lhe cruzar o caminho, seja homem ou mulher, jovem ou velho.  Não se conhece o motivo de tanto ódio.  A certeza é que o boato foi espalhado no Recife em meados da década de 1970. Na época, a Perna Cabeluda foi assunto de inúmeras reportagens em rádios e jornais, teve muito destaque no noticiário policial.

Era o tempo da censura imposta aos meios de comunicação pela ditadura militar. Se estava proibido se falar em perseguição política, tortura e injustiça social, podia sobrar espaço para matérias com temas bizarros ou escandalosos. Então a personagem, que parecia ter saído de um conto obscuro da idade média, ganhou notoriedade na metrópole do século XX – quando muitos lares tinham telefone, quase todos assistiam à televisão na sala de casa e as viagens ao espaço feitas por russos e americanos se tornavam corriqueiras.

O escritor e jornalista Raimundo Carrero garante que foi o criador do estranho ser, talvez o mais popular de todos os seus personagens. E tudo começou com uma confissão que ele ouviu de um colega repórter na redação do Diário de Pernambuco:

– Quando eu entrei em casa de madrugada, cara, vi uma perna cabeluda debaixo da minha cama…

Claro que o resto do sujeito dono da perna também estava lá. O descuidado amante da mulher do jornalista tentava se livrar de ser flagrado pelo marido traído. Piada ou não, o comentário inspirou o escritor. E no dia primeiro de fevereiro de 1976, um domingo, o malassombro fez sua estreia pública. Foi a protagonista de uma crônica com lampejos surreais publicada por Carrero nas páginas do DP. Veja só:

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Leia aqui o texto da crônica.

Entretanto, o famoso radialista e apresentador de TV Jota Ferreira também garante ter sido o “pai” da Perna Cabeluda. E isso teria sido no tempo em que trabalhava como repórter policial no programa de Geraldo Freire, outro conhecido radialista do Recife. Jota Conta que  certa vez estava de plantão no Hospital da Restauração (a maior emergência pública de Pernambuco) numa madrugada em que não havia nenhuma notícia. Mas o chefe disse que ele inventasse qualquer manchete para preencher o noticiário. E o flash saiu deste jeito:

–  Vítima de agressão física acaba de dar entrada no HR! O agressor, Geraldo, foi a Perna Cabeluda!

O caso inexplicável criou um rebuliço entre os ouvintes e logo outros relatos sobre a tal perna  surgiram. Foi como uma onda de violência sobrenatural  aterrorizando a população do Recife e de cidades vizinhas como Olinda, Paulista, Jaboatão e Camaragibe.

Um documentário produzido na década de 1990 lembrou essas versões do surgimento do boato sobre a Perna Cabeluda (ou “Cabiluda”, como preferem alguns) e também a música de Chico Science que coloca a assombração na entre os vilões que tocavam o terror na capital pernambucana na década de 1970: os bandidos “Galeguinho do Coque” e “Biu do Olho Verde”.

O fato é que a Perna Cabeluda virou assunto de tantas e tantas conversas, mesmo entre aqueles que torciam o nariz para tamanho absurdo. A maioria, no entanto, passou a tomar mais cuidado ao sair à noite. Nada de cruzar becos escuros ou ficar sozinho nas paradas de ônibus. Falou-se inclusive que moças frequentadoras de lugares de “dança” (como o Clube das Pás, no bairro de Campo Grande) eram as mais ameaçadas – aparentemente, a moral conservadora tentava pegar carona na onda de pavor vista como mais um sinal do fim do mundo.

Para as crianças, medo redobrado. No repertório dos sonhos ruins da infância, a Perna veio se juntar à Loira do Banheiro (chamada de “Mulher do Algodão” em Pernambuco) e certamente superou o temor provocando por antigos mitos como o Papa-figo ou a Cabra-cabriola. Meninos e meninas vestindo pijamas olhavam atrás da porta do armário antes dormir e faziam birra para deixar a luz do quarto acesa até de manhã. Bastava dar o alerta para acabar com o jogo de bola noturno na rua de subúrbio:

– Corre, pessoal, que lá vem a Perna Cabeluda!

A Perna ainda virou um dos personagens preferido dos poetas populares. Como Lampião e Padre Cícero, ela era um tema recorrente nos folhetos de cordel. A imaginação do povo criou até uma explicação sobre a origem de tamanha aberração. Segundo contam, a Perna Cabeluda seria o que sobrou do cadáver amaldiçoado de um filho matricida: o sujeito teria assassinado mãe a chutes. A alma do criminoso, claro, padece no fogo inferno; a perna, usada como arma mortal, vaga sozinha sobre a Terra, à espreita dos desavisados, no silêncio das noites recifenses.

Contado por Roberto Beltrão / Ilustrações: Fábio Rafael

 

 

  • Josiel de Assis

    Na época, eu morava na Guabiraba, o “papa figo” de lá, era um tal de “Maria Ú”. Saudoso mendigo do bairro.