A Mulher da Sombrinha

Catende, na Zona da Mata Sul de Pernambuco, é um município que cresceu em volta de uma usina de cana-de-açúcar. Grande parte da população foi formada pelas famílias dos operários da usina. E esta era a lenda mais comentada pelos moradores que, em noites de lua cheia, se reuniam para conversar nas calçadas das ruas estreitas. Dizia-se que uma aparição ao mesmo tempo bela e assustadora atormentava os funcionários que trabalhavam até mais tarde – os que saíam da fábrica à meia-noite, a chamada hora-morta, quando o sobrenatural governa a razão dos homens.

Ao andarem pelas vias desertas, mergulhados em seus pensamentos, os trabalhadores eram surpreendidos por uma mulher alta, de porte esguio, cabelos cor de mel, com um vestido  colado ao corpo, usando sapatos altos.  Os homens ficavam logo atraídos por essa figura sedutora, embora estranhassem que aquela senhorita passeasse à noite escondendo o rosto com uma sobrinha aberta.

Pois a misteriosa jovem convidava os desavisados para dar uma volta no cemitério da cidade. Embora o convite parecesse macabro, perturbador, muitos marmanjos o consideravam irresistível. Aceitavam o desafio e entravam sem vacilar no campo santo, acompanhavam a linda moça nesse passeio medonho, envoltos pelo silêncio da madrugada.

De acordo com os relatos, quem conseguiu voltar desse encontro ficou seriamente transtornado, sem conseguir tirar da lembrança a estranha mulher. Contavam que ela costumava mostrar aos seus pretendentes o túmulo onde estaria enterrada. E aos que ainda sim tentassem alguma ousadia, pensando de se tratar de uma brincadeira, a aparição reservava uma castigo severo: o perfume de jasmim que exalava se convertia em cheiro podre de defunto; em frente à testemunha se transformava em caveira de órbitas negras e mandíbula escancarada! Dezenas de vezes os catendenses ouviram berros cortando a tranquilidade noturna, gritos desesperados de homens a correr depois do encontro com a visagem.

Mas como em Pernambuco muita coisa acaba em festa, a Mulher da Sobrinha acabou ganhando a simpatia da população e virou boneca gigante, uma prima dos bonecos altos que brincam nas ladeiras de Olinda. Todos os anos ela anima o mais conhecido bloco de carnaval de Catende. O desfile da agremiação, claro, parte do tal cemitério.

Contado por Roberto Beltrão