Ataques de Lobisomem

Conheça alguns dos relatos mais medonhos sobre investidas do monstro em Pernambuco.

Ilustração: Fábio Rafael

Ilustração: Fábio Rafael

Em dezembro de 2002, um rumor tomou conta de uma comunidade do bairro da Torre, no Recife. Os moradores da Vila de Santa Luzia testemunharam: estavam sendo aterrorizados por um monstro que surgia no local quando a lua cheia aparecia no céu. Classificaram-no de lobisomem. Os que viram o bicho disseram que ele era peludo e tinha orelhas pontudas. Além disso, falava com uma voz cavernosa e se espojava nas encruzilhadas do lugar. O monstrengo só atacava mulheres – mocinhas, na maioria dos casos – e crianças.

Chegou até a tentar arrancar uma grade, para invadir uma casa onde morava uma senhora muito conhecida entre os vizinhos. A residência quase invadida foi a de dona Lina, na época merendeira da creche da comunidade. Ela contou que, por volta da meia-noite, estava com dois netos em casa, quando o pequeno cachorro vira-lata, criado pela família, começou a latir desesperadamente. O animalzinho denunciou a “visita” de uma horripilante criatura peluda, “que parecia um homem, mas tinha cara de bicho”. Ainda de acordo com dona Lina, “ele tinha dentes e unhas grandes e era coberto de pelos marrons”. Ela conta que o lobisomem tentou arrombar a grade que protege o terraço da pequena casa, mas não conseguiu. Irritado, fugiu rosnando pela rua escura. Naquele momento, o bicho foi visto por dois dos filhos de dona Lina, que estavam voltando do trabalho.

Pistas dos ataques do lobisomem foram deixadas nas ruas sem calçamento da vila. Pegadas inexplicáveis que não poderiam ter sido feitas por um homem e nem por um animal doméstico. O som característico do monstro também foi ouvido por alguns moradores. Segundo eles, o bicho falava com uma voz “embolada”.  Os vizinhos chegaram a articular uma defesa contra a criatura, usando facas e foices. Alguns acreditavam que, na sua forma humana, o lobisomem morava na própria Vila de Santa Luzia. O medo dos moradores também foi motivado pelo “cheiro de enxofre” que o lobisomem exalava, segundo as testemunhas que o encontraram. Na visão dos que acreditavam numa legítima manifestação sobrenatural, o odor indicaria a origem demoníaca da criatura. Mas apesar de todas as evidências registradas, os boatos sobre o lobisomem da Vila de Santa Luzia sumiram tão rápido quanto apareceram. De repente, a comunidade se calou a respeito do assunto.

Não há dúvida que tal monstro – com sua bocarra cheia de dentes pontiagudos, sua face animalesca e sua pelagem escura – mora no inconsciente coletivo dos brasileiros. A crença na existência de homens que viram bicho é uma herança europeia que marcou profundamente nosso imaginário. Talvez porque represente o lado obscuro da própria alma humana. O lobisomem é a perfeita manifestação do “lobo na pele de cordeiro”. Caminha entre nós silenciosamente, fazendo o possível para não deixar que saibamos da  sua maldição. O que o diferencia dos outros seres humanos é que o seu instinto animal vem à tona em determinadas situações, tornando-o uma fera fora de controle. Procura satisfazer às suas necessidades e desejos sem se importar com o que possam sofrer as outras pessoas, já que essas não são mais seus semelhantes.

Revendo antigos e recentes relatos sobre as supostas investidas de lobisomens contra habitantes do Recife e cidades vizinhas, a gente nota como essas histórias são frequentes. Por exemplo: em agosto de 1978, uma dessas criaturas apavorou os moradores do bairro de Peixinhos, em Olinda. As testemunhas descreveram um ser peludo e  feroz, com todas as características de um verdadeiro licantropo. As autoridades policiais se apressaram em dizer que não passava de um maníaco sexual disfarçado. O caso, que nunca foi esclarecido, foi registrado em uma reportagem do Diário de Pernambuco:

“Uma figura estranha, querendo imitar um lobisomem, há vários dias vem inquietando as famílias residentes em Peixinhos, notadamente na localidade conhecida como Cabo Gato (formada há mais ou menos 60 anos). A polícia do distrito está mobilizada para pegar o ‘bicho’ e várias investidas já foram feitas, sem nenhum resultado positivo. A informação foi do agente José Alves, do 13° distrito, que disse ter sido cientificado que o lobisomem só aparece quando vê mulheres, razão pela qual os agentes estão se preparando para colocar mulheres como isca ou usar disfarces com roupas femininas, a fim de atraírem o ser misterioso”.

Dois dias depois, o mesmo jornal relatou outra investida do “lobisomem de Peixinhos”:

“Terça-feira à noite, quando retornavam de uma sessão espírita em Aguasinha (sic), as domésticas Creusa Maia da Conceição e Eunice Oliveira da Cruz, ao passarem por Cabo Gato, ouviram ‘um urro estrondoso saindo de um matagal’ e, em seguida, apareceu ‘uma figura horripilante’, que nos perseguiu por mais de cem metros, somente desaparecendo quando gritamos e fomos socorridas por vários rapazes que bebiam em uma barraca”.

Nas décadas seguintes, os lobisomens fizeram suas aparições em cidades do interior do Estado. Em agosto de 1994, o Jornal do Commercio trouxe uma reportagem sobre os ataques de um suposto monstro de “presas grandes” que, durante a noite, devorava reses, carneiros e pequenos animais em fazendas dos municípios de Chã Grande e Gravatá. O rosnar do bicho chegou a ser ouvido por criadores da região.

Os mais antigos acreditavam que se tratava mesmo de um lobisomem. Outros preferiram uma explicação mais científica, digamos assim, e defendiam a tese de que um porco-do-mato ou javali estava provocando as baixas nos rebanhos. O caso virou o assunto preferido nas conversas dos moradores da cidade de Gravatá. Muitos preferiram adotar uma postura cética diante de tais rumores sobre a existência de um monstro. Foi o caso do negociante conhecido como José de Dinda, ouvido pelo repórter do Jornal do Commercio: “Esse negócio de lobisomem parece mais história de corno do que de bicho que come bicho de madrugada”.

Em 25 de março de 2001, foi a vez do Diário de Pernambuco publicar uma reportagem sobre uma nova aparição de um lobisomem. Os moradores do município de Canhotinho, também no Agreste, estavam apavorados. Tudo começou depois que um carneiro foi encontrado morto no bairro da Cohab. O bicho tinha marcas estranhas no pescoço. Foi o suficiente para fazer surgir o falatório sobre uma ameaça peluda e sobrenatural. Urros começaram a ser ouvidos à noite. Um rapaz de 16 anos chegou a ser perseguido por “um cachorro preto, enorme e com garras grandes”. A apuração foi feita pelo repórter Jaílson da Paz revelou um local macabro que parecia ser o esconderijo da criatura. “O matadouro da cidade. É neste lugar acinzentado e de pouca vegetação que muitos acreditam ocorrer a transformação do homem que bate na mãe – e foi amaldiçoado por ela – em um lobo”.

Voltando à Região Metropolitana do Recife, o mais recente boato sobre lobisomem em Pernambuco foi ouvido no bairro de Cajueiro Seco, município de Jaboatão dos Guararapes. Foi em novembro de 2008. Os uivos que rompiam o silêncio depois da meia-noite eram o alerta de que um ser monstruoso rondava a vizinhança. Pessoas mais precavidas chegaram a colar, nos postes da comunidade, cartazes com a foto (tirada possivelmente da internet) de um homem peludo e com os seguintes dizeres:

“Atenção moradores de Cajueiro Seco! Foi confirmada a presença de um lobisomem nesta localidade. Sendo assim não é confiável que fiquem na rua após a 0h00. Caso avistarem alguma coisa anormal, procurem as autoridades. Porque pode ser perigoso, pois a pessoas foram atacadas mortalmente.”

É fato que essas supostas vítimas “atacada mortalmente” nunca vieram a público para contar o que viveram. Mas não pense que isso seja um indício de que os lobisomens estejam menos atuantes ou tenham se aposentado, ou mesmo esquecido a missão de apavorar os desavisados, em noites de lua cheia. Nestas ocasiões, é melhor não se arriscar. E evitar as encruzilhadas e os caminhos ermos por onde “corre o bicho”.

Contado por Roberto Beltrão

Entenda porque os lobisomens no Nordeste pode se parecer com porcos e outros animais!

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