Botijas: o Tesouro das Almas Penadas

Reza a lenda que a “botija” é um tesouro que pode ser em dinheiro (notas ou moedas),  ou ainda formado por joias com ouro, prata e brilhantes.  Esse tesouro foi escondido numa residência por alguém que queria preservar sua fortuna dos ladrões, talvez apenas dos curiosos, mas morreu antes desfrutar da riqueza. A dinheirama pode estar disfarçada nas paredes, no assoalho, no forro, no quintal da propriedade, próximo a uma árvore, embaixo de uma pedra antiga. Parece coisa de filme de piratas…. e para achar uma botija é necessário ter coragem de enfrentar forças sobrenaturais.

Segundo a tradição, as elas são uma das razões da existência de casas assombradas. Alguns espíritos permaneceriam ligados ao dinheiro escondido, não podendo descansar até que ele venha a ser encontrado. Quando alguém descobre a botija,  a alma está livre de seu fardo. Os que enfrentaram esses fantasmas ficaram ricos. A localização da botija tem que ser comunicada de forma mediúnica a quem terá a sorte de encontrá-la. Pode até existir suspeita ou registro de onde estaria o tesouro, mas um espírito deve manifestar o desejo de que uma determinada pessoa ache a riqueza escondida.

A mensagem é transmitida em forma de aparição espectral, ou por meio de um sonho em que o morto passa as coordenadas e pede que sejam rezadas missas para ele poder entrar no Céu, pois padece no Purgatório para espiar seus pecados. Se não for assim, será impossível determinar o paradeiro da botija – ela permanecerá encantada para sempre.

Casos de Botijas

Num o sítio na bela localidade de Serra Negra – município de Bezerros, no Agreste de Pernambuco – agricultores viveram uma terrível experiência envolvendo o tal tesouro das almas. Na propriedade havia duas pedras enormes que se juntavam formando uma gruta. Certa noite, o marido recebeu em sonhou a orientação que fosse sozinho até a gruta para lá achar uma botija. Acordou agoniado e comentou com a mulher que, descrente, falou apenas para ele rezar por aquela alma e esquecer o pesadelo.

Mas, noite após noite, o sonho se repetiu e homem contou um amigo, que se dispôs a ir com ele até o local indicado. E assim o fizeram na noite seguinte. Ao chegar à gruta, começaram a cavar usando pás. Quando os dois estavam bem entretidos na ânsia de encontrar a dinheirama, do nada veio forte uma ventania. E ao vento se seguiu o barulho de trote de cavalo. O amigo soltou a pá e começou a correr. O homem que havia sonhado com a botija permaneceu cavando e, de repente, um manto negro caiu sobre ele o fez perder os sentidos.

De manhã, foi encontrado caído dentro do buraco que havia cavado. Estava em cima de potes cheios de algumas pedras negras como carvão. Levaram-no ainda desacordado para casa. Ao recobrar os sentidos, contou que ouviu gritos quando a escuridão se abateu sobre ele. À tarde, ao deitar-se na rede de casa, sentiu uma tapa no rosto – e ficaram as marcas de cinco dedos. A partir desse dia, não teve mais sossego.

Ouvia vozes que diziam:

– Por que não foste sozinho? Por que não me ouviste?

Situação bem diferente aconteceu com uma costureira do município do Cabo de Santo Agostinho. Ela sonhou com um holandês que teria lhe falado de uma botija cheia de ouro localizada “no chão da casa de uma professora”. Ao ouvir isso, o namorado da filha dela revelou para a sogra que também havia sonhado com um estrangeiro vestido de branco, que falava de um tesouro escondido, mas sem contar o paradeiro do tesouro.

O rapaz era pedreiro e fazia uma reforma na residência de uma professora, no bairro de Prazeres, em Jaboatão dos Guararapes. Logo sogra e genro deduzirem qual a localização da tal botija. Combinaram, então, de desenterrar a tal fortuna, operação seria feita sem conhecimento da dona da casa. Mas no local indicado pela alma penada só foram encontrado um vaso de barro quebrado e cheio de pedras.

A costureira não se conformou e levou o caso à polícia. Acusou o genro de visitar antes o ponto indicado pelo espírito sofredor para pegar o tesouro e vender. A queixa foi registrada e a polícia chegou a iniciar as investigações que, é claro, não deram em nada. A disputa gananciosa pelo suposto tesouro só provocou rompimento do namoro entre o pedreiro e a filha da costureira.

Contado por Roberto Beltrão

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