Ela tinha parte com o Diabo?

Na cidade de Triunfo, no Sertão de Pernambuco, contam a lenda sobre uma mulher chamada Natália do Espírito Santo que, apesar do nome, supostamente havia firmado um pacto com o Demônio. E há quem garanta que o Príncipe das Trevas cobrou muito caro para cumprir  parte dele no acordo.

Tudo teria se passado no século XIX. Dizem que Natália era  jovem, quem sabe em seus trinta e poucos anos, esguia, de olhos muito escuros e rosto pálido.  Não era casada e não tinha outros parentes. Vinda não se sabe de onde, chegou a Triunfo antes da abolição e trouxe muitos escravos. Rica, comprou as terras lá mesmo em Triunfo e no município de Princesa, na Paraíba. Passou a morar numa casa ampla e logo se revelou uma pessoa cruel.

Dizem que andava com um molho de chaves na cintura e gostava de jogá-las numa ribanceira só para ver os escravos loucos, procurando pelos objetos. Mas quando os negros conseguiam encontrar alguma chave e se aproximavam para apanhá-las, elas se transformavam em bolas de fogo. E essa era apenas uma das coisas estranhas que aconteciam com Natália.

A lenda narra que ela demonstrava ter poderes paranormais dados pelo Tinhoso, com quem teria feito o acerto sinistro num ritual selado com sangue. Mas esse acordo maldito também trazia muitos transtornos para a misteriosa sinhazinha. Quando, por exemplo, às vezes Natália saía de casa, uma mão invisível a empurrava para que ela caísse. Em outras situações, quando caminhava na rua tinha que usar na cabeça uma “gamela” (espécie de bacia de madeira), pois começavam a chover pedras sobre ela!

Chegou uma época que se cansou de tantas ocorrências bizarras e resolveu fazer um novo trato com o Diabo: dar três pingos de sangue ao Capeta todos os dias – isso segundo foi revelado por uma escrava aos moradores das proximidades. A princípio, o sacrifício acalmou o Chifrudo. Todavia, Natália vivia triste e sozinha, pois todo mundo tinha medo dela. Para desfazer essa imagem ruim, resolveu oferecer um almoço à vizinhança na certeza de fazer alguma amizade.

Naquele dia, mandou colocar a melhor toalha rendada de mesa, a melhor louça e os melhores talheres para receber os convidados. O povo começou a chegar e todos ficaram reunidos na sala do casarão. Natália anunciou que fossem para a copa, pois o almoço seria servido. E de repente, diante da fartura de comida e do brilho dos talheres, começou a cair sobre a mesa uma chuva de bosta de galinha! Todos ficaram agitados e saíram constrangidos da festa. A anfitriã ficou com fama de azarada, maldita.

Os anos se passaram e Natália viveu afastada dos vizinhos. Certo dia, adoeceu. Sofreu com terríveis dores, febres, vômitos, delírios, morrendo em poucas semanas. Depois que alguém vira defunto não há mais intriga, nem desavença. Por isso muita gente foi ao velório. Chegou a hora do sepultamento e, numa rede branca, dois homens carregavam o corpo da senhora. O cemitério ficava longe e, à noite, pelo caminho eles encontraram dois outros homens desconhecidos que disseram se chamar Brás e Tomás. Os sujeitos pediram para carregar a rede com defunta e a gentileza foi aceita. Daí os dois falaram:

– Pegaste Brás?

– Peguei Tomás. De nós ninguém tomará!

Eles andavam tão ligeiros, mas tão ligeiros, que ninguém conseguia acompanhá-los. Despareceram nas trevas da noite sem lua e  jamais chegaram ao cemitério. Ficou a dúvida entre os moradores de Triunfo:  ninguém sabe onde o corpo de Natália do Espírito Santo foi parar. Dizem que ela foi finalmente entregue ao Diabo…

Contado por Roberto Beltrão