O Frade e a Defunta

Esta história remonta ao século XIX. Conta-se que um frade costumava deixar um convento no Recife à noite e, disfarçado, passeava pela cidade para paquerar as moças. Num desses passeios encontrou uma moça linda e passou a segui-la. Caminhou um pouco e viu a jovem subir as escadas de um velho sobrado. Ele foi atrás e notou que ela estava sentada numa sala escura.

O religioso, que se achava muito esperto, sentou-se ao lado da moça querendo puxar conversa. Naquele momento, o cômodo se iluminou e a moça sumiu. No meio da sala apareceu um caixão de defunto, e nele estava o corpo da misteriosa mulher. O frade ficou apavorado. Mesmo assim, antes de sair correndo, tirou do pescoço um relicário e o pendurou num prego que havia na parede, bem em frente ao ataúde – provavelmente para abençoar a morta. Quando chegou à rua, ainda olhou para cima e percebeu que a sala do sobrado estava novamente às escuras.

De volta ao convento, contou tudo aos outros frades. Pela manhã, voltou ao casarão com alguns desses colegas. O que encontraram foi uma sala vazia. E na parede estava o relicário deixado na noite anterior. Depois do estranho episódio, a rua no Centro do Recife onde existia esse prédio de dois andares passou a ser chamada de “Rua do Encantamento” – antes se chamava “Rua Bispo Sardinha”.

No século XX, o Rua do Encantamento desapareceu do mapa da capital pernambucana: foi desfeita, assim como outras da mesma área, por causa das obras de alargamento da Avenida Marquês de Olinda. Será que foi algum tipo de maldição? E quem era aquela moça vista no caixão pelo frade libertino? Isso ninguém nunca soube responder…

Contado por Roberto Beltrão