Lobisomem?

No Nordeste,  os amaldiçoados se transformam num bicho meio lobo, meio porco.

Ilustração: Fábio Rafael

Ilustração: Fábio Rafael

“Noite de sexta feira. Noite escura e chuvosa. Noite de correr lobisomem e mula de padre. Mas Zé Valente e Chico Magro lá se foram para Pau Pombo. Aquilo já eram um vício. Iam e vinham por um atalho, estrada velha e abandonada, tomada pelo mato. Contavam-se coisas enormes dessa estrada que, por isso, foi abandonada.

Ninguém por ali passava mais. A coisa, como diziam, aparecia numa porteira velha que dava acesso ao engenho junto a uma gameleira secular.

Era um bicho que ninguém sabia bem que forma tinha. Parecia um porco. Parecia um cachorro grande. Parecia um bezerro. Roncava. Gania. Berrava. Às vezes gemia como gente.

João Roberto viu esse bicho uma noite, e amanheceu lesando no engenho. Ficou maluco. Joaquim Menino também viu, perdeu a fala para toda a vida. Zé de Ana topou com ele e, de medo, ficou cego. Misericórdia, nem é bom contar o resto.”

O texto acima é um trecho do conto “O Lobisomem da Porteira”, do escritor pernambucano Jayme Griz, e foi publicado num livro com mesmo título em 1957. É a história de moradores de um engenho na Zona da Mata do estado que são atormentados por um horrendo monstro. A criatura atacava as pessoas que passavam por uma estrada deserta nas chamadas “horas mortas”. Nenhuma testemunha conseguia dizer com certeza como era o bicho, apesar de todas garantirem: tratava-se de um lobisomem, sem dúvida.

E esse é um exemplo muito revelador de como a lenda vinda da Europa passou a ser contada no Nordeste brasileiro. Numa terra onde não existem grandes lobos (aqui, a espécie mais comum é o lobo-guará, que não chega a um metro quando apoiado nas quatro patas), o lobisomem ganhou características de outros animais. Como escreveu Griz: “Parecia um porco. Parecia um cachorro grande. Parecia um bezerro. Roncava. Gania. Berrava”.

Luís da Câmara Cascudo, o mais respeitado folclorista do país, também registrou essa particularidade do “nosso” lobisomem. No livro “Geografia dos Mitos Brasileiros” (publicado pela primeira vez em 1947), ele conta que os “candidatos à licantropia” podem se transformar em “lobos ou porcos, cães ou animais misteriosos e de nome infixável”. Ou seja, os lobisomens vistos por aqui, em fazendas, sítios, cidades do interior, ou mesmo nas periferias das capitais, pouco se parecem com os monstrengos criados com maquiagem e efeitos de computador pelo cinema americano.

E nem por isso são menos assustadores. Segundo Câmara Cascudo, os amaldiçoados, quando transmutados em bestas, “correm horas da noite atacando homens, mulheres, crianças, todos animais recém-nascidos ou novos, como cachorros, ovelhas, cabritas, leitões, etc.” O folclorista ainda descreve como a criatura medonha age: “Derribada a vítima, o Lobisomem despedaça-lhe a carótida com uma dentada e suga-lhe o sangue.”

Mas espera aí, é lobisomem ou vampiro? A explicação é a seguinte: na crença popular nordestina, o sujeito que vira lobisomem é alguém que sofre de uma maldição que o deixa fraco e com aparência estranha. No livro “Assombrações do Recife Velho”, Gilberto Freyre fala de um lobisomem que assombrava os moradores dos bairros de Apipucos e Monteiro no fim do séculos XIX. E o suspeito de virar monstro era “um bacharelzinho pálido (…) de um amarelo de cadáver velho”. Já o historiador Pereira da Costa, conta no livro “Folk-lore Pernambucano” (publicado pela primeira vez em 1908), que o lobisomem “é um homem extremamente pálido, magro e de feia catadura”. Beber sangue poderia ser, portanto, uma forma de aliviar essa anemia sobrenatural.

Ilustração original do conto "O Lobisomem da Porteira Velha"

Ilustração original do conto “O Lobisomem da Porteira Velha”

E por que, afinal, alguém ganha a sina (ou o fado, como se dizia antigamente) de virar lobisomem? Em nosso país, acredita-se que a praga recai sobre o filho caçula nascido depois de seis irmãs. O sétimo rebento homem da família virará lobisomem quando completar quatorze anos. Meninos nascidos de relações incestuosas também podem acabar  virando monstro.

Reza a lenda que, em noites de sexta-feira, quando a lua desponta no céu, por instinto esses homens marcados vão procurar uma encruzilhada onde passam muitos animais, tira a roupa, dá nós na calça e na camisa, e se espoja no chão até virar bicho. Parte em disparada e, até o sol raiar correrá sete cidades, sete cemitérios, sete átrios de igreja, atacando quem estiver pela frente. Só volta ao normal quando o galo cantar.

Ainda segundo Pereira da Costa: “Ente infeliz, condenado pela sua desventura a divagações noturnas, até quebra-se o seu encantamento, cumpre o seu fadário em certos dias, saindo de noite, e ao encontrar um lugar onde um cavalo ou um jumento se espojou, espoja-se também, toma a sua forma, e começa vertiginosa carreira”.

Isso faz a gente pensar, não é? Para o lobisomem do século XXI, deve ser uma dificuldade encontrar um lugar onde se espojou um cavalo ou um jumento, animais cada vez menos usados para o transporte em ruas cheias de carros, caminhões e motos das cidades feitas de asfalto e concreto…

Mas não se enganem: boatos dão conta de que os lobisomens ainda tocam o terror nos dias de hoje. No próximo artigo sobre esse assunto, vamos lembrar casos antigos e recentes. Por enquanto, fiquem de olho se conhecem alguém com algumas dessas características: orelhas de abano, pele amarelada, sobrancelhas grossa que se unem entre os olhos, gengivas avermelhadas, unhas compridas e pontudas, feridas nos cotovelos e joelhos que não se curam. De acordo com a tradição, podem ser sinais que denunciam o elemento que sofre a terrível metamorfose em lua cheia.

Contado por Roberto Beltrão

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