Os Fantasmas do Teatro de Santa Isabel

Só no Recife poderia existir uma casa de espetáculos cheia de malassombros!

No coração da capital pernambucana, em frente à Praça da República, ao lado dos Palácios do Governo e da Justiça, fica o imponente prédio do Teatro de Santa Isabel, um primor da arquitetura neoclássica do século XIX. Foi construído pelo engenheiro francês Louis Lérger Vauthier entre 1841 e 1850 e, por dentro, tem espaço para quase novecentos espectadores. Além de ser palco de concertos e espetáculos grandiosos, no passado o teatro também foi cenário de debates cívicos, como os que marcaram a campanha abolicionista, e serviu de tribuna para a eloquência de personalidades do porte de Joaquim Nabuco, Castro Alves e Tobias Barreto.

Mas esta construção carregada de significados para a história de Pernambuco também esconde mistérios insondáveis. Nos camarins, na platéia, nos corredores, nas frisas e camarotes, desfilam visagens e são ouvidos sons arrepiantes que se confundem com as muitas lembranças guardadas no prédio. Em seu livro “Assombrações do Recife Velho”, o escritor e sociólogo Gilberto Freyre descreve alguns desses acontecimentos inexplicáveis:

“O que se murmura entre os empregados antigos e discretos do Santa Isabel é que em noites burocraticamente silenciosas se ouvem, no ilustre recinto, ruídos e aplausos, palmas, gritos de entusiasmo de uma multidão apenas psíquica. Mas sem que se possa precisar a que ou a quem são os seus aplausos de bocas e mãos que não aparecem”.

E acrescenta o Mestre de Apipucos:

“Há também quem afirme ter visto no interior do Santa Isabel, em noite de silêncio e rotina, a figura de austera senhora do Recife, há longos anos morta e sepultada em Santo Amaro”.

E as aparições na tradicional casa de espetáculos não deram trégua ao longo das décadas, embora tenham perdido muito do charme e da elegância. Na reportagem intitulada “…mas que eles existe, existem”, publicada no Diário de Pernambuco do dia primeiro de outubro de 1992, a jornalista Sandra Correia registrou o seguinte caso:

“…Lourdes Medeiros, faxineira do Teatro de Santa Isabel, reluta em falar no assunto. ‘Dizem que sou louca’. Numa determinada ocasião, Lourdes ficou presa no banheiro do teatro com uma mulher alta e loura, com algodão na boca e nas narinas. ‘Queria sair e ela estava na porta’. Nem mesmo gritar resolveria: ‘perdi a voz'”.

Os funcionários do teatro relatam ainda que às vezes à tarde é possível ouvir som do piano de cauda, tocado por mãos invisíveis. De longe escutam a suave melodia e, quando se aproximam do instrumento, a música cessa repentinamente.

E se uma assombração é somente ouvida, outras duas são frequentemente vistas no local. Ninguém sabe dizer quem é a bailarina que, vestida em trajes antigos, dança no tablado vazio sob uma luz azulada. É muito comum os empregados enxergarem a imagem dessa esguia figura refletida nos espelhos que existem nos corredores. Quando, assustados, eles olham para o palco, a moça desaparece como uma fumaça branca soprada pelo vento.

Outros ainda se depararam com a alma penada de uma poetisa que surge declamando versos sobre os segredos do Recife – cena arrepiante recriada aqui pelo fotógrafo Lucas Evaristo. Os servidores que trabalham no Santa Isabel já nem se espantam mais com tantos encontros sobrenaturais: eles costumam dizer que “teatro sem fantasmas não é teatro”.

Contado por Roberto Beltrão

Fotos: Lucas Evaristo (contatos: facebook.com/lucas.evari; Instagram: @l_evaristo; luc.albuq.evaristo@gmail.com)

Atriz: Wydi Silva

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Lobisomem

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Velhinha da Caxangá

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Perna Cabeluda