Tenha Medo da Cumade Fulôzinha

Dizem que ela é uma caboclinha ágil, com olhos escuros e vivos, de longa cabeleira negra. Quando quer, sabe ser muito malvada!

cumade

A Cumade Fulôzinha habita as florestas da Zona da Mata de Pernambuco, das quais é atenta guardiã. Ai de quem maltratar os animais! Coitado do caçador que matar só por diversão! Ela aplica diversos castigos: pode deixar o sujeito perdido, sem achar o caminho de volta, e pode dar-lhe uma surra, usando os cipós como chicote. A entidade também atormenta fazendeiros e agricultores. A principal diversão dela é fazer tranças difíceis de desemaranhar em crinas e caudas de cavalos. Outras vezes, a trela é abrir as porteiras para deixar vacas ou cabras correrem soltas.

Há quem garanta que a Fulôzinha emite um assobio agudo quando está prestes a aparecer. Se o assobio parece estar perto é porque ela está longe; quando o som parece estar longe, é porque a encantada está por perto. Se é respeitada, a Cumade pode até ajudar as pessoas, principalmente as que estão perdidas na mata. Basta pedir humildemente o auxílio dela.

Vez por outra, a menina presenteia alguém com caça ou frutos, na condição de que a pessoa não compartilhe o agrado com ninguém. Também não é difícil agradá-la: fumo de rolo é o presente que mais aprecia. E se alguém quer conquistar a simpatia dela, deve deixar um prato de mingau (ou de papa) na entrada da mata. Mas nem pense em colocar pimenta na mistura a ser oferecida! Quem fez isso levou uma surra daquelas.

Outro conselho importante: não é nada bom de invocá-la clamando por “Comadre Florzinha” – aparentemente ela não gosta dessas formalidades. E evite a todo custo chamá-la de “caipora”, pois ela parece ficar bastante irritada quando confundida com outra assombração da floresta. A Cumade detesta criança malcriada, cheia de manha e pantim e pode fazer todo tipo de presepada com os jovens que não respeitam os mais velhos.

Existem relatos de que ela castiga meninos e meninas teimosos e maluvidos que vagam pelas matas, fazendo no cabelo deles as mesmas tranças que faz nos pelos dos animais domésticos. E não é só isso: conta-se que Fulôzinha já puniu uma garota que xingou a mãe colocando-a em cima do telhado da casa da família, de onde a danada só conseguiu descer depois de muito choro e pedidos de desculpa.

E de onde veio a Cumade Fulôzinha? Em alguns lugares do interior de Pernambuco, pessoas acreditam que ela já foi uma menina de carne e osso. De acordo com essa versão, muito nova, Fulôzinha ficou órfã de mãe e passou a sofrer com os maus tratos do pai. Ele bebia muito e a espancava sempre sem motivo.

Certa vez, ao chegar em casa com fome e embriagado, não encontrou a filha e nem a comida pronta. A menina havia ido passear pelo mato, como fazia todos os dias. Adorava sentar na campina e passar horas fazendo e desfazendo tranças nos seus enormes cabelos. Admirava a beleza dos animais e por eles sentia grande amor e carinho. Não gostava de imaginar que existissem pessoas capazes de fazer mal a tão inocentes criaturas. Ao retornar para casa, encontrou o pai que a aguardava. Percebeu de ódio nos olhos dele e tentou fugir, mas não conseguiu.

Ele bateu até ela desfalecer e a enterrou viva no meio do mato. Depois dessa morte violenta, o espírito da menina não teve mais sossego, e muito fez para perturbar o pai com várias manifestações fantasmagóricas. Tanto que ele acabou se matando. Mesmo assim, o fantasma jamais conseguiu a paz desejada, pois sabia que havia se deixado tomar pelo mesmo ódio que a levou à morte. Então, como uma forma de se redimir pelo seu erro, jurou proteger os animais da mata de qualquer caçador que só quisesse se divertir à custa dos bichos.

Se foi assim que aconteceu mesmo, jamais saberemos. Mas não duvide: as matas pernambucanas são de fato assombradas pela geniosa Cumade Fulôzinha. Num próximo artigo, aqui n´O Recife Assombrado, vamos contar vários causos sobre essa assombração. Mas, enquanto isso, leia a HQ “Assovios na Mata”, de André Balaio e Téo Pinheiro – a história de um usineiro que não acreditava na Cumade…

Contado por Roberto Beltrão / Ilustração: Fábio Rafael