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O Baú da Velha

No começo do anos 80, um contador mudou-se com a família para uma casa antiga e confortável no bairro do Arruda, no Recife. A casa de três quatros pertencia a parentes dele e estava fechada há muito tempo. Nos primeiros dias na nova residência, a esposa e suas duas filhas não notaram nada de estranho no lugar. Mas logo coisas inesperadas começaram a acontecer.

Quando chegava a noite, os adultos ouviam ruídos esquisitos como batidas secas nas portas dos cômodos vazios, sussurros nos cantos escuros e, às vezes, baques estrondosos sem que nenhum objeto ou móvel pesado houvesse caído. O casal estava assustado, mas fingia que tudo estava normal para que as crianças não ficassem impressionadas. Mas não adiantou. As garotas passaram a perceber os fenômenos. A menor, de 8 anos, disse à mãe que havia uma "mulher de cabelo branco" morando no quarto dela.

A mais velha, de 11 anos, quase nada falava de tão amedrontada. E toda a noite chorava para dormir na cama dos pais. Sem saber o que fazer, o pai resolveu mandar a família passar uns dias na casa da sogra, mas teve que ficar. Não tinha um bom relacionamento com a mãe da esposa: segundo ele, "era melhor dormir com o fantasma que enfrentar a velha implicante". A sogra tinha feito de tudo para que "a filha e as netas dela não se mudassem para aquela casa velha e úmida".

Na primeira noite que passou sem companhia em casa, o cantodor pensou em mudar de idéia. Ele me disse que ouviu todo tipo de ruído inexplicável e, quando apagou as luzes, viu de relance vultos que passavam entre os cômodos. Para dormir, apelou para alguns copos de uísque. Só fechou os olhos quando já estava com a "caveira cheia".

Mas foi um sono desconfortável, angustiado. De madrugada, acordou suado, como se estivesse febril, e notou que a casa estava silenciosa. O silêncio só foi quebrado por um gemido abafado. Parecia vir da garagem que estava sendo usada como deposito de velhas tralhas. Ele foi até lá com uma lanterna e percebeu que o som lúgubre vinha de um baú esquecido num canto desde o tempo dos antigos moradores. Quando meu pobre amigo chegou mais perto, o baú abriu-se de repente e dentro surgiu um esqueleto coberto por roupas rasgadas.

Nosso herói deu um berro de horror e descobriu que aquela cena terrível fazia parte de um pesadelo. Na verdade, ele estava na cama e já era dia. Que alívio! Mesmo assim, foi até à garagem para investigar. Encontrou o baú e usou uma chave-de-fenda para quebrar o cadeado que lacrava o velho objeto. Dentro ele encontrou ossos humanos!

Passado o espanto inicial, o contador descobriu - dando alguns telefonemas - que, provavelmente, os restos mortais pertenciam a uma tia-avó solteirona. Ela morreu de velhice e foi sepultada numa das gavetas do cemitério da cidade. Como é de costume, depois de dois anos os ossos foram retirados da gaveta e deviam ser colocados num ossuário para toda a eternidade. Mas isso não foi feito pelos parentes, que acabaram esquecendo a velha senhora no baú.

O contador tratou de corrigir o erro e, no mesmo dia, levou-a para ser enterrada no cemitério de uma cidade do interior, onde tinha alguns conhecimentos políticos que lhe facilitaram o serviço. Na semana seguinte, mandou rezar uma missa em intenção da tia-avó.

As manifestações estranhas desapareceram, é claro. Mas ele resolveu deixar a casa e alugá-la a outra família, que nada percebeu de anormal. Já o baú, o sujeito guardou bem guardadinho. Mas tarde poderia servir para guardar alguma coisa.... como a sua sogra, por exemplo.