Carreira na Rua do Bom Jesus

Escrito por Francisco de Souza Neto

O trânsito do Recife Antigo nos obriga a por vezes estacionar longe de onde trabalhamos ou destino para resolver algo. Sou auditor privado e me contrataram para uma auditoria na Rua do Bom Jesus, no prédio da associação comercial. Estacionei meu carro em frente a Torre Malakoff, e fui andando. Meu trabalho consiste em analisar alguns documentos que somente estariam prontos no período da tarde. Cheguei por volta das quatorze horas.

A longa relação de documentos e a boa paga ao final do serviço me estimularam a continuar o trabalho sem parar. Analisei que terminaria por volta das vinte horas, ledo engano, já passava das duas da manhã quando encerrei a auditoria. Laudo feito, cansado e com sono, é hora de ir para casa. Desci as escadas, pois o elevador estava desligado, sem falar que era velho – tenho medo de elevadores velhos – escadas não quebram.

Segui pela calçada em direção a torre, observo o céu sem lua, na rua nenhum pé de pessoa – dia de segunda – todos se recolhem mais cedo. Caminho mais alguns passos, começo a escutar barulho de correntes, lembrei-me do livro “fogueira dos engenhos”, acelerei o passo, olho para trás e nada vejo, sigo em frente. O barulho não para, sinto cada vez mais perto. Olho mais uma vez para traz, na esquina lá perto do prédio da associação vejo alguém vindo em minha direção. Acelero em passo de caminhada matinal.

As correntes pareciam estar a poucos passos de mim, olho para trás, vejo um vulto sem cabeça, roupa escura, em cada mão uma corrente que tocava o chão. Eu em ato desesperado largo os papéis no chão e começo a correr. Já podia ver a torre, o carro estava próximo, tiro a chave do bolso e imediatamente já tento abrir a porta do carro mesmo longe para agilizar minha entrada dentro dele.

Já dentro do carro olho em direção da associação, estava a menos de três metros do carro, tinha uma mão estendida em minha direção com a palma voltada para cima. A outra continuava arrastando as correntes no chão. Arranquei em extrema velocidade o carro, quase subi no meio fio da frente. Observo no retrovisor e mais nada vejo, a rua estava deserta, sem ninguém. No outro dia recebi a ligação da secretária do grupo que me encomendara a auditoria, com voz suave e educada:

– Estamos muito satisfeitos com seu trabalho, presteza e agilidade. Observo que da próxima vez traga em papéis menos amassados e mais limpos. Desta vez vai passar por que temos pressa. Lembramos também que o dinheiro já está depositado na sua conta.

Inicialmente não entendi nada. Os papéis ficaram pelo caminho, jogados ao chão. A secretaria me pergunta se tenho disponibilidade para fazer outra auditoria em uma papelada que se encontra nos galpões do SINDAÇUCAR, vizinho a Cruz do Patrão, tudo estaria disponível as dezenove horas. Disse que aceitaria, com a condição de que a empresa pagasse o táxi. Ela concordou cordialmente.

Liguei para meu taxista de confiança e ele disse que não iria: – lá ele só pego corrida durante o dia claro. E me recomendou: “sei o que já passei”. Resolvi ir de carro mesmo, no final das contas o que poderia me acontecer em um galpão de açúcar!

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Francisco de Souza Neto é funcionário público e escritor. Seu livro tem o título de Fogueira dos Engenhos e está disponível gratuitamente no site: https://fogueiradosengenhos.wordpress.com/