---
---
 

Casarão de Setúbal

Por Karin S.

No final dos anos 80, meu tio, um bem-sucedido engenheiro, comprou um grande terreno na então desolada área de Setúbal, bem perto do Aeroporto dos Guararapes, no Recife. Pai de cinco filhos, e dando abrigo a três parentes idosos, ele sonhava em ter uma grande casa. Junto com seus arquitetos, fez um maravilhoso projeto: uma linda mansão com quatro pavimentos, dez quartos, piscina, etc.


As fundações começaram quase imediatamente. Mas, quando os operários chegaram a uma profundidade de dois metros, surpresa: acharam o pedestal de uma antiga "cruz das almas". Chamado o instituto histórico para verificar o valor da peça, foi constatado que era uma construção bem comum do século XVIII. A peça foi removida e a construção continuou.


Alguns dos rapazes que moravam na obra começaram a ter estranhas experiências: vultos que passavam correndo, ferramentas que desapareciam e reapareciam sem que ninguém as houvesse tocado, pesadelos, etc. Meu tio achava tudo bobagem e disse que era resultado das cervejas das sextas-feiras. Depois de quase dez anos de obra, a mansão ficou pronta. Linda! Magnífica! A família estava mais que feliz em se mudar pra lá. Mas então a história começou.


Em nossa família, são vários os que têm capacidade para "ver" o sobrenatural. Eu tenho a felicidade de ter sido poupada desse "dom", mas minha mãe e irmã não tiveram a mesma sorte. O mesmo com três tias e um monte de meus primos. Mas quem começou a encontrar os velhos habitantes do local foi uma humilde secretária doméstica. Maria contou-me que, num belo domingo de sol, quando todos os seres vivos da morada se encontravam à beira da piscina, ela subiu ao quarto do casal para trocar a roupa de cama.

Ao chegar lá, viu essa bela loira (mais uma!), vestida em um belíssimo vestido longo violeta, com detalhes na saia-balão em forma de folhas. Maria pensou, a princípio, que era a minha tia, também loira, bela e alta. Eis que a moça se vira, e não era a minha tia, e desaparecer como fumaça na frente da pobre! Essa moça de violeta apareceu também para minha irmã, que a seguiu por uns bons metros pensando que era a minha mãe (outra loira). Mais um sumiço!


Minha mãe, dormindo na casa, sonhou com a misteriosa figura feminina perguntando: "Onde estão meus brincos? Deixe-me ver os seus pra ver que não são os meus." E minha mãe acordou sem os brincos, que estavam na mesa de cabeceira. Mais impressionante foi um dia, em que uma das minhas tias, particularmente sensível a estes fenômenos, começou a falar "com o ar" em uma reunião de família. Todo mundo ficou calado. Minha tia tirou os brincos, mostrou pra "alguém" na frente dela e disse: "Pode ver que não são seus, vá em paz.". Foi nesta hora que as peças do quebra-cabeça se juntaram, e todos então começaram a contar suas experiências.

Veio à tona então que muitos dos residentes e visitantes haviam visto mulheres com roupas de época, crianças na colmeeira da casa, imagens em espelhos, vultos em corredores, etc. A quantidade de relatos era enorme! A figura mais popular, claro, era a dama em violeta, mas um garoto também era bem popular, assim como duas senhoras muito conversadeiras, em longos vestidos e colarinhos de renda.


Depois de uma assustadora experiência com um espelho do banheiro, onde um rosto se formou em sua frente, meu primo foi aos arquivos históricos da cidade para tentar descobrir o que havia no local entre os séculos XVI e XVIII. Depois de vários meses de pesquisa infrutífera, ele achou os registros da época da Restauração Pernambucana (quando os portugueses conseguiram finalmente expulsar os flamengos da região).

Eis que o local, incluindo o terreno do meu tio e vários quarteirões ao redor, era uma fazenda dos flamengos. Quando da Batalha dos Guararapes, mulheres e crianças flamengas (os últimos ocupantes da região, pois muitos já haviam corrido para o sertão, voltado à Europa ou ido fundar a colônia norte-americana de Nova Amsterdã - hoje Nova Iorque) foram levadas a esta fazenda para se proteger dos ataques pernambucanos.


Mas eis que os flamengos perderam a última batalha. Centenas de homens deixaram centenas de viúvas e crianças, isoladas e desprotegidas, na fazenda. Os pernambucanos tomados de ira e excitados com a vitória partiram em um surto de xenofobia, destruíram pontes e palácios, expulsaram judeus, perseguiram estrangeiros e, finalmente, foram à fazenda e terminaram o serviço começado no Monte dos Guararapes.Não sobrou viv'alma... Anos depois, a população decidiu colocar uma cruz das almas no local, pois muitos viam luzes e ouviam gemidos por lá.


A mansão do meu tio continuou assombrada por mais dois ou três anos, mas foi diminuindo de intensidade e freqüência, e hoje em dia pouco ou nada se vê por lá. A família acabou se acostumando com os eventuais episódios, e parece que a falta de interesse e a escassez do medo fizeram com que as coisas se acalmassem.


Dizem alguns especialistas que a construção da mansão perturbou os espíritos que estavam lá há tanto tempo. Quando eles perceberam que havia moradores então no local, decidiram mover-se para outras partes da "fazenda". Outros dizem que a estrutura da casa, de pedra, tijolo e concreto, serve como o cabeçote de um vídeo, "tocando" imagens antigas que estavam "registradas" no solo do local. Quem sabe?