Cemitério de Carros

Por André de Sena

Foi num dia de maio, contra um céu azul e diáfano, que conheci Karla, em meio aos folguedos da festa do Divino, no povoado de Alcântara, MA. Desde o primeiro momento, me trouxe à memória velhas imagens de deidades hindus, cheia de adornos coloridos, vestindo roupas, lenços e penduricalhos extravagantes, dançando como uma mênade entre as caixeiras do divino, as solenes anciãs de tez escura que na festa popular cantavam ladainhas ao passado e loas ao presente, e percutiam ritmos hipnóticos em seus tambores forrados com peles de animais.

Fiquei imediatamente à mercê de sua presença. Mesmo com toda aquela profusão de cores, danças e sons exóticos, Karla conseguia se destacar da multidão aglomerada na praça Matriz, que tentava se adequar ao ritmo das percussões e bamboleava, meio sonolenta, imitando a coreografia dos dançarinos (já estes, se agitavam num ir e vir contínuo, cadenciado, semelhante ao movimento das ondas, às vezes esbarrando-se propositalmente entre si). Parecia que os milhares de crisântemos vermelhos que adornavam os tapetes florais espalhados pela Praça Matriz haviam sido arremessados para ela e todos lhe rendiam homenagens. A multidão era mais que uma simples audiência: na verdade, lhe estimulava o panorama perfeito para sua terpsicórica atividade – era uma Durga maranhense, com uma profusão maior de braços e de mãos –, que intercalava movimentos rápidos aos lentos num concerto exótico, febril, sensual. Ouvi uma das senhoras que participavam do batuque referir-se a ela e gritar seu nome, alardeado mais como o de uma entidade que o de uma Mordoma-mor, posto que ocupava na cerimônia, de grau duplamente inferior ao principal, o de Imperatriz. Mas, como disse, era ela que parecia roubar a atenção de todos pela maneira como se movimentava e, especialmente, lançava olhares extáticos ao seu redor.

Como descrever esses olhares, compostos da mesma matéria dos gritos? Feixes, correntes elétricas? Todos – foi o que imaginei –, homens, mulheres, crianças, ficavam tocados, quase mesmerizados, ao perceberem que haviam trocado olhares com ela. Digo isso porque no momento em que fui escolhido pareceu-me que operou-se uma fenda no espaço-tempo circundante: a impressão é a de que eu estaria levitando ou vagando pelo fundo do mar, estranho à realidade, intruso em mim mesmo. Um segundo que se dilatou em infinito – não haveria imagem melhor para descrever essa primeira troca de olhares. (Um velho alcantarense depois me diria que seriam efeitos operados pelas entidades invocadas na sincrética cerimônia do Divino, onde tradições católicas se misturam pacificamente às de antigos cultos afros).

Havia também uma coisa supreendente e assustadora no olhar de Karla: suas íris pareciam diminuídas e, por vezes, sumiam conjuntamente às pupilas, quando adquiria a aparência de uma antiga Koré de mármore grego, de órbitas protuberantes, mas vazias. Contudo, uma certa elegância magnificente dos movimentos exóticos, que lhe davam um ar de hierofanta, o sorriso extático que saía dos lábios por vezes sensualmente entreabertos, mas sem afetação, e a singeleza quase pueril com que realizava suas danças, acabavam nos conduzindo a um espaço acolhedor em nossas próprias mentes e atenuavam o efeito aterrorizante de seus olhos.

Acompanhei o colorido préstito da praça Matriz até o salão nobre do Palácio de Alcântara, onde iria ser coroada a Imperatriz e a festividade chegaria ao clímax. Não conseguia desviar os olhos de Karla, que simplesmente não parava de dançar, apesar de já estar nessa atividade há muitas horas, desde que a vi, talvez ainda mais. Houve um momento em que o fluxo do cortejo a fez se aproximar de mim e tive a impressão de que nossos braços se tocaram. Por pouco não cometi uma pequena loucura, pegando sua mão para beijar ou me ajoelhando diante daquele ídolo na frente de todos…

Depois da coroação, quando o cerimonial se aproximou do fim e todos se organizavam para o retorno aos lares e pousadas, pensei em segui-la até onde estivesse hospedada ou vivesse. A música havia acabado mas ela continuou a dançar em meio ao salão, juntamente a duas amigas que estavam vestidas da mesma forma e com iguais adereços, porém sem a natural exuberância de Karla. Enquanto dançavam, pareciam arriscar algumas piruetas e prestar uma contínua reverência às caixeiras do divino, pois iam sempre na direção delas e se movimentavam ao seu redor como satélites. Por outro lado as anciãs, já um tanto fatigadas, não davam atenção aos excessos de alegria juvenil, e curvadas pelo peso dos anos e dos instrumentos, caminhavam silenciosamente em direção à praça Matriz.

Nessa altura eu já ocupara uma mesa posta na calçada de uma taverna em frente a praça Matriz, e buscava alento num rústico vinho servido em copo de barro. Observava Karla à distância, em alegres conversas com as duas amigas e sempre em meio a renovados movimentos de dança. Em duas ocasiões ela olhou diretamente para mim e senti um arrepio percorrer-me o córtex e a medula. Seus olhos haviam adquirido a brancura estranha de antes, além de estarem mais volumosos. Não eram vazios nem sugeriam expressões vagas como as de uma Koré, como eu havia imaginado; eles me assustaram justamente por serem expressivos em sua aparente ausência; foi um choque vê-la dançar descontraidamente poucos segundos antes, e depois voltar-se duas vezes para mim com aquela expressão horrenda.

Pensei no forte vinho e no cansaço que o dia acumulara, atribuindo-lhes o delírio passageiro, que quase me fez desistir de meu propósito. O fato é que, minutos depois, no exato momento em que senti que havia retomado o prumo e decidira novamente perseguir Karla, ela se despediu de suas amigas e fez tenção de seguir caminho. Chamei atabalhoadamente o garçom para pedir a conta e foi com uma mistura de terror e fascínio que a vi vir em minha direção. Fiquei petrificado, como se uma verdadeira musa, ou uma górgona, estivesse se aproximando de mim, provavelmente vinda do passado, em todo o seu estranho encanto, impossível de definir, que atraía e inspirava medo.

Sem timidez alguma se apresentou e perguntou se eu não iria lhe oferecer vinho. Respondi que sim, e ofertei-lhe de imediato o que havia em meu copo. Sentou-se, então, com um belo sorriso e se pôs a falar da festa do Divino, da veneração que tinha pelas caixeiras, da atração pela música e as libações ao invisível, das cores e sabores que a faziam vir de longe todos os anos para participar intensamente do cerimonial.

Mesmo sendo tarde, Karla não dava mostras de cansaço e me levou para passear pelas ruas de Alcântara, contando várias histórias tristes mas também outras engraçadas, ligadas a elas. Sabia extrair segredos de cada encruzilhada com que nos deparávamos, parecia conhecer todas as casas e as ruínas, os seus habitantes passados e atuais, e relatou-me muitas lendas do folclore local. Era quase uma nativa, mas quando lhe disse isso, afirmou ter aprendido todas aquelas coisas ouvindo às conversas das caixeiras durante os longos ensaios para a festa. Sob a luz da lua, percorremos as estradinhas de terra entrecortadas por ruínas de igrejas, casarões senhoriais e senzalas, observando como a pátina do tempo era semelhante para todos. Na rua da Amargura – cujo nome evocava o sofrimento dos escravos que iam ao pelourinho – eu tentei beijá-la, mas uma força estranha que vinha dela, uma energia de autoridade, me impediu a aproximação e continuamos nossa caminhada até por volta da meia-noite. Depois nos despedimos e eu retornei, como em estado de transe, à minha pousada.

Já no outro dia eu teria de voltar ao Recife e Karla veio se despedir de mim, defronte a balsa que me levaria a São Luís. Pareceu-me que seus olhos faiscaram quando lhe disse onde morava.

– Eu sempre quis ver o Recife – ela me falou, com uma expressão realmente indefinível, meio infantil, meio sarcástica, como esperando, mas também comandando, os fios sutis de um convite inevitável.

– Ora, então venha me visitar – respondi-lhe, e só depois me dei conta de que a frase saiu um pouco à minha revelia. Nunca convidara antes um estranho para pernoitar em minha casa dessa forma.

Duas semanas depois eu recebia uma ligação de Karla, solicitando coordenadas para chegar ao meu endereço. E ela veio, deslumbrante como sempre. Antes de entrar, presenteou-me com uma pequena pedra que havia pego no Cemitério São Benedito, um lugar sagrado de Alcântara que costumava visitar, onde por sinal estavam enterradas muitas caixeiras do Divino, como me informou. E fez questão de colocá-la bem no meio da mesinha de centro, para isso afastando uma pequena escultura que ficava no lugar.

Nos dias que se passaram nos entregamos a todos os delíquios amorosos e consagramos-nos com os juramentos que buscam sedimentar os amores impossíveis. Fiz-lhe todas as vontades, ao mesmo tempo esperando e temendo a troca de um determinado olhar, mas ele não veio…

Apesar da aura luzente que sabia despertar e repercurtir a partir de si própria, Karla tinha predileção pelos lugares sombrios. Falava animadamente sobre um vasto repertório de lendas e assombrações ligado à história do Recife e se encantara com os velhos sobrados do Centro da cidade, com os antigos solares de Apipucos, as pontes desertas durante as madrugadas soturnas. Era impressionante como se relacionava com esses lugares: parecia já os ter visitado e – de forma semelhante ao que havíamos vivenciado em Alcântara – buscava neles inspiração para enredos fantasiosos. Diante do prédio da Fundaj, por exemplo, contou-me uma história que falava de um hospício e fantasmas de médicos persecutórios; ao passarmos pela Faculdade de Direito, dissertou sobre um crime horrendo que teria sido cometido na escadaria do relógio; no Horto de Dois Irmãos, falou sobre espíritos animais que obsediavam os humanos, transtornando-lhes os juízos e influindo em crimes e catástrofes diários (segundo Karla, os espíritos dos animais são siameses e seu grau de destruição está relacionado com o ódio que uma cabeça animal desenvolve pela outra). Eu ouvia suas fantasias esquisitas e me deixava influenciar. Certa feita, no teatro Santa Isabel, enquanto assistíamos à comédia de uma trupe local, ela me influenciou a ponto de gerar um pequeno delírio: supus ver uma cruz invertida atrás do palco, donde pendiam duas mulheres cadavéricas que eu parecia conhecer de algum lugar. Por instantes, observei perfeitamente a cena macabra e quase gritei por socorro.

Durante os nossos passeios de fins de tarde ou semana, ela me falava a respeito do Cemitério de carros, um dos lugares mais assustadores do Recife, que eu próprio até então jamais tivera coragem de visitar. Mesmo em meio aos jogos amorosos, de uma ou outra forma conseguia chegar ao assunto, “me leva ao Cemitério de carros”, era o que sempre pedia, em palavras balbuciadas que soavam como sortilégios. Na realidade, quase todos conhecem esse lugar, já ouviram falar dele ou o visitaram alguma vez, mas continua discreto o número dos que se aproximam com assiduidade para contemplar a paisagem algo sinistra que se descortina de súbito, nas proximidades do cais.

Mais por influxo de sua força transcendente que pela insistência dos rogos, tomei coragem e decidi ir com Karla até o local. Não há policiamento ou placas informativas ao longo do caminho; deve-se ter em conta que o lugar é sagrado, neutro, como são todos os cemitérios. Para se ir ao Cemitério de carros é necessário andar cerca de dois ou três quilômetros após a Torre Malakoff, em sentido norte, pelo cais, até o trecho em que o rio Capibaribe deságua no oceano, um pouco depois do farol do Recife – essas eram as informações de que dispunha. Chegamos à Torre Malakoff por volta das 15h, estacionamos o carro e seguimos a pé. Aos poucos observamos os espaços de urbanidade rarearem: restaurantes, bares, escritórios de empresas, conjuntos governamentais iam dando espaço a armazéns abandonados, galpões repletos de pichações, prédios em ruínas… Vimos uma construção arrendondada que lembrava um grande silo e depois seguimos pela Avenida Militar até enveredarmos nos esconsos do cais e divisarmos à pouca distância o farol. Sentia a euforia de Karla crescer ao saber que nos aproximávamos do lugar, pois apertava minha mão com força e tinha os dedos crispados. Após uma curva, observamos inúmeros pontinhos coloridos, agitados para lá e para cá pela correnteza. Fomos nos aproximando e aos poucos o quadro se definia. Já nas proximidades da desembocadura do rio Capibaribe, no exato ponto em que se une ao oceano e a avenida termina, tive realmente o impacto: centenas de carros flutuavam sobre as ondas, entrechocando-se entre si e em meio aos arrecifes, num vai e vem contínuo e percussivo, talvez nauseante para alguns. Em seus interiores dormiam eternamente os cadáveres insepultos dos que morreram após acidentes de trânsito que terminaram fatidicamente no mar. Homens, mulheres e crianças balançavam numa monotonia constante, em carros de todas as marcas, épocas e cores, alguns com leves amassados, outros postos ao avesso, entregues ao sono plácido de um conto de fadas, embalados pelas ladainhas das ondas. Jamais haviam sido resgatados, jamais se pensou em modificar qualquer coisa naquele lugar. Apenas os montões de flores ao longo das calçadas surgiam como mudas homenagens, não só aos parentes, amigos e amantes mortos, mas à própria inexorabilidade do destino. Muitos daqueles carros caíram em rios, foram arrastados pela correnteza em meio aos canais, ou então se desgovernaram e seguiram direto ao fundo do oceano, no momento em que cruzavam pontes ou acostamentos litorâneos. Alguns foram arremessados propositalmente pelos próprios donos que se cansaram da vida ou por outrem, em crimes hediondos. Havia mães que dormiam abraçadas aos filhos, estes, ainda em uniformes escolares; pessoas idosas ao lado de seus animais de estimação; rapazes e moças com roupas que refletiam modas, em carros que já foram modernos e vistosos; condutores e veículos de empresas cujos logotipos iam sendo aos poucos apagados pela maresia; ônibus repletos de almas, de todos os talhes e idades… cada veículo era um testemunho único de vida e morte.

Passamos mais de uma hora a contemplar o Cemitério de carros e ele estava lá justamente para isso. Karla se emocionou inúmeras vezes e segurava minha mão não mais com a excitação inicial, mas ternura. No momento em que nos preparávamos para voltar, observei que havia um carro azul ocupado por um homem de meia idade que tinha os olhos fixos em mim. Aquilo me desconcertou de tal forma, me fez tremer tanto, que quase cheguei a desfalecer. Eu não sabia se ele estava ou não morto, mas era a única pessoa, no meio das centenas que vínhamos observando, que tinha consciência de nossa presença. Ele nos olhava inamistosamente, como se fôssemos intrusos, e os solavancos das ondas não o impediam de nos encarar, pois revirava a cabeça continuamente. Lembrei-me do olhar de Karla, quando ainda estávamos em Alcântara, mas aquilo era muito pior. Não se deve encarar os mortos, o fluxo de negatividade que se estabelece está além de toda medida e compreensão. Experienciei por alguns segundos todos os horrores que podem existir na morte por meio daquele olhar fixado sobre mim, que era contrário ao sono pacífico dos outros cadáveres. Desviei os olhos com muito esforço, instintivamente buscando a mão de Karla para sairmos dali, mas ao me voltar para ela o chão outra vez sumiu de sob os pés: seu rosto estava como que eclipsado por uma expressão cadavérica e, sentada displicentemente no asfalto, me encarava com o mesmo olhar maligno do homem no carro.

Também caí por terra durante minha debandada louca. Em meio à poeira da estrada, vi Karla se erguer e sair correndo em direção ao mar até jogar-se do pequeno promontório onde estávamos a contemplar o Cemitério de carros. Foi então que compreendi tudo. Tentei retornar a mim, juntei forças e fugi, com a sensação real de que Karla me perseguia. Mas quando olhei para trás – a última vez, naquele lugar – vi que ambos estavam no mesmo carro, balançando sobre as ondas, ainda a me encarar com a mesma expressão que só os mortos podem ter.

André de Sena é poeta, escritor e músico. Professor do Departamento de Letras da Universidade Federal de Pernambuco, e líder do Belvidera – Núcleo de Estudos Oitocentistas, grupo de estudos especializado em obras, gêneros e modalidades imaginativas do século XIX. É autor de livros autorais de poesia, contos e teoria literária, e organizador de obras teóricas especificamente relacionadas à literatura fantástica, a exemplo de “Literatura fantástica & afins” (Edufpe, 2012), “Literatura fantástica e orientalismo” (Edufpe, 2013) e “Literatura fantástica em Pernambuco & Histórias de fantasmas” (Edufpe, 2015).