Contos completos de H. P. Lovecraft

Conheça a publicação que pode ser considerada o maior lançamento editorial da literatura fantástica no Brasil em 2017!

Por André de Sena
(Escritor e professor do Departamento de Letras da UFPE)

Quero me deter um pouco naquele que considero o maior lançamento editorial brasileiro em 2017: os Contos reunidos do mestre do horror cósmico H. P. Lovecraft, vindo a lume pela editora paulistana Ex Machina, com boa tradução de Francisco Innocêncio.  Dentro do modo fantástico e do gênero horror, não acredito que nenhum outro livro de tal envergadura e importância possa ainda surgir neste ano.

Afirmo isso levando em consideração dois pontos básicos: em primeiro lugar a própria qualidade estética da obra do escritor norte-americano H. P. Lovecraft (1890-1937), que levou o horror e o fantástico de base setecentista/oitocentista a novos píncaros em inícios do século XX, tornando-se praticamente insuperável até o momento. Em segundo lugar, pelo empreendimento editorial da Ex Machina, que reuniu pela primeira vez em língua portuguesa o cerne da produção lovecraftiana, ou seja, os 61 contos que enformam sua narrativa curta completa, para isso reunindo um time de profissionais de primeira categoria.

O livro tem um recorte bem específico: reunir todos os contos excetuando-se as novelas, romances, histórias de autoria compartilhada e os escritos em que Lovecraft atuou como ghostwriter. Essa marca editorial é coesa, corroborada pelos quatro blocos temáticos em que estão agrupados os 61 contos (“Ciclo de Cthulhu”, “Ciclo dos Sonhos”, “Miscelânea” e “Juvenília”). O livro também traz bons apêndices, com ensaio biográfico, ensaios críticos, iconografia, filmografia, bestiário, cronologia e bibliografia elaborados por estudiosos brasileiros da obra lovecraftiana, todos acadêmicos. E – uma das coisas principais – teve não apenas sua introdução escrita por S.T. Joshi, mas este estudioso ainda assina a supervisão editorial dos Contos reunidos. Para quem não o conhece, Joshi é considerado o autor da melhor biografia de Lovecraft escrita até o momento, além de livros teóricos de referência no universo da literatura fantástica e de horror, a exemplo de The Weird Tale (1990), The Modern Weird Tale (2001), Unutterable Horror: A History of Supernatural Fiction (2014), entre outros. Ou seja, os Contos completos da editora Ex Machina tornaram-se uma obra/tradução de referência mundial em língua portuguesa, graças também ao trabalho do já citado Francisco Innocêncio, que além de tradutor competente é um conhecedor da literatura oitocentista, com uma tese de doutorado sobre a obra do romântico brasileiro Álvares de Azevedo.

Outros dois nomes envolvidos no projeto também não poderiam passar despercebidos, já que são hoje referências no mercado editorial brasileiro quando o assunto é literatura imaginativa: o editor Bruno Costa e o escritor Bráulio Tavares. Bruno Costa, além de editor, é também tradutor e estudioso de Literatura fantástica, e foi o responsável pelas primeiras traduções profissionais da obra de Lovecraft recentemente (além de outros importantes autores de ficção gótica setecentista e oitocentista), em volumes impressos pela editora Hedra, as quais lhe deram o know how necessário para o livro que agora também capitaneia.

Por sua vez, Bráulio Tavares, que faz parte do Corpo editorial da Ex Machina, dispensa maiores apresentações, sendo um escritor premiado de ficção científica e antologizador de diversas coletâneas recentes de contos fantásticos que têm aberto às portas a milhares de pessoas em relação a esses gêneros/modos no Brasil.

Na realidade, os Contos reunidos da Ex Machina é mais uma prova de que há uma importante demanda atual por livros de contos fantásticos e de horror no país e profissionais preparados para lançamentos dignos do nome. Lembrando que houve uma mobilização nacional para sua publicação: o livro foi impresso graças ao sistema Crowdfunding (financiamento coletivo), ou seja, centenas de leitores de Lovecraft se uniram para financiar essa primorosa edição com mais de 600 páginas, capa dura e ilustrações de Túlio Caetano. Como se lê no site da Ex Machina, “este livro é resultado de mais de quatro anos de um árduo esforço em pesquisas, traduções, organização e edição”.

Em relação aos contos propriamente ditos, como afirmado, eles estão dispostos entre quatro ciclos. As narrativas reunidas no “Ciclo de Cthulhu” se relacionam a um dos grandes arquétipos ou divindades alienígenas dentro do panteão mitológico criado por Lovecraft, assim como as histórias relacionadas a outros mitos lovecraftianos. No “Ciclo dos Sonhos”, vemos os contos inspirados na obra de Lord Dunsany e na produção de prosa poética de Edgar Allan Poe, rementendo a terras, personagens e fenômenos oníricos, habitadas por criaturas inefáveis e situadas em outras dimensões, acessíveis apenas por meio da atividade onírica. Na chamada “Miscelânea”, temos os contos fantásticos, góticos, de horror, ficção científica, por vezes híbridos, que não se enquadrariam diretamente em nenhum dos dois ciclos anteriores, constituindo artefatos ficcionais independentes. E, por fim, na “Juvenília” – uma das raridades que a obra nos oferece – vemos os primeiros contos escritos por Lovecraft ainda em sua infância, entre os anos de 1898 e 1902, nos quais já se detectam os temas que futuramente elevariam a experienciação estética do medo literário a um de seus píncaros.

Ao tempo que é possível detectar todas as influências de autores setecentistas e oitocentistas nos contos lovecraftianos – toda uma tradição imaginativa romântica e pré-romântica anterior –, atesta-se nestes uma vertiginosa e inovadora autoconsciência de gênero, um gosto esteticista e quase maneirista pelo horror, que o tornam, nas palavras de outro escritor norte-americano de referência no gênero nos dias atuais, Stephen King, “insuperado como o maior expoente do horror clássico no século XX”. Verdadeiras obras-primas como “Os sonhos na casa da Bruxa”, que consegue mesclar a física einsteniana (à época, praticamente em seu nascedouro) ao ocultismo renascentista; “A tumba”, em que observa-se o personagem Jervas Dudley em sua paixão pelo velho mausoléu de uma casa em ruínas – um dos maiores personagens góticos da história da Literatura; ou então a belíssima prosa poética de contos como “O navio branco” e “Celephaïs”, entre muitas outras preciosidades, estão agora à disposição do público brasileiro em nova e, também, inédita tradução.

E em minha opinião essa é a coisa mais importante que um livro assim nos possibilita. Ainda hoje se tem uma visão um tanto limitada e até pejorativa do que foi o movimento romântico no Brasil, por conta da falta de traduções de literatura fantástica e outros gêneros/modos imaginativos à época e, também, hoje em dia. Romantismo ainda se é associado a sentimentalismo, a uma estética meio piegas ou de exagero lacrimoso, quando, na realidade, é graças a esse movimento ou série artístico-literária que hoje podemos fruir séries de tv que trabalham elementos imaginativos (como Strange things, tão adorada pelo público contemporâneo de todas as idades) ou filmes de horror de primeiro quilate. Aplaudamos de pé o empreendimento da Ex Machina, e que venham outros semelhantes ligados a autores ainda não traduzidos! Traduções como essa ajudam a saldar uma dívida histórica que os brasileiros têm com os ramos imaginativos oriundos do Romantismo e que constituem o grande repertório criativo desta série artístico-literária.

Haveria muito ainda a dizer sobre as qualidades estéticas das narrativas lovecraftianas presentes nos Contos reunidos do mestre do horror cósmico, mas farei isso num estudo de maior fôlego que já estou desenvolvendo. Neste momento, que fique o registro da importância da obra e o informe de que tivemos a honra de lançá-la em Pernambuco durante o 7º Congresso de Literatura Fantástica de Pernambuco (7º CLIF-PE), que teve como tema “Casas mal-assombradas: elas são as personagens”, ocorrido no Departamento de Letras da UFPE nos dias 05, 06 e 07 de dezembro últimos. O artigo que estou escrevendo tratará justamente sobre a presença dos espaços fantasmáticos e das casas mal-assombradas nos Contos reunidos da Ex Machina.