Σειρῆνας

Σειρῆνας

A noite foi passando assim, entre risos e doses de aguardente. Quando se constatou que a meia-noite estava chegando, despediram-se com abraços fortes e fizeram um último brinde em homenagem aos anfitriões, os pescadores mais velhos do casebre. Todos tomaram logo o rumo de casa – a meu ver, supersticiosamente – com a desculpa de que iriam pescar cedo.

Notei o fato e aproveitei para fazer pilhéria, dizendo para tomarem cuidado com os lobisomens e as sereias, que costumam aparecer com a proximidade da lua cheia. Fiquei aguardando novos risos, mas, estranhamente, não vieram. Já bêbados, os pescadores não conseguiram disfarçar a tensão e julguei que mais de um pareceu acometido por calafrios. Atribuí a reação aos poderosos efeitos da cachaça e ao vento frio que saía do mar e se arrastava entre nós como uma serpente malfazeja. Não pude me conter e, também anestesiado pela bebida, dei uma sonora gargalhada daqueles medrosos, que ecoou pelos confins do serrote.

Já se passaram duas semanas de férias em Jericoacoara e apenas um fato recente, ocorrido na noite de ontem, me deixou curioso e fugiu um pouco da normalidade. O jovem pescador silencioso e distante, que passou boa parte da festa ouvindo um pequeno rádio de pilhas, ao final, aproximou-se de mim e me disse coisas bem estranhas que, no início, julguei oriundas dos efeitos da bebida, mas acabaram despertando minha curiosidade. Ele sentou-se ao meu lado, disse se chamar Manoel e ter dezenove anos. Alguns dias antes da festa, durante uma pescaria que realizava sozinho, num pequeno povoado conhecido como Mangue Seco, localizado a oeste da vila e no meio das dunas, teria visto “peixes encantados” que emitiam ruídos horríveis, semelhantes aos guinchos dos porcos. Ele também catava caranguejos em uma pequena faixa de mangue, ligada ao mar, quando encontrou os tais peixes. Falou-me que sua atenção foi desviada da pescaria por sons estranhos que vinham de uma pequena furna natural onde só se pode entrar agachado, em meio aos galhos do mangue. Uma vez no interior, disse ter visto a coisa mais assustadora dentre todas já presenciadas em sua vida de pescarias: os peixes, que chafurdavam na lama, em sua parte superior lembravam mulheres do tamanho de espigas de milho, com cabelos escorridos e pretos, segundo sua descrição. Os peixes tinham “entendimento” e guinchavam como porcos. Ou ele estaria me pregando uma peça após meus constantes pedidos por lendas do mar aos pescadores, ou então, não passa de um lunático. Como algumas lágrimas penderam de seus olhos, julguei que estivesse completamente embriagado.

O jovem pescador me disse haver contado ao pai e a outros pescadores mais velhos sobre o ocorrido, mas foi obrigado a silenciar, sob pena de castigos corporais. Um deles teria lhe dito que aqueles peixes eram “filhos do diabo” e há muito não apareciam naquela região, mas quase todos os pescadores de Jericoacoara já os tinham visto alguma vez. Ele descobriu depois que, sempre que um desses peixes é fisgado ou preso por engano numa rede de pesca, os homens do mar o matam sem piedade e depois atiram seu corpo fora, para servir de alimento aos outros peixes. Disse-me ainda temer que toda a praia esteja sob um feitiço maléfico e que aquele peixe que eu vi sendo morto a bordoadas no dia da pescaria, o qual realmente me lembrou uma boneca, era na verdade um desses filhos do diabo. O pescador esfolou o peixe com as próprias mãos, ainda me recordo, numa atitude injustificada, após esmagá-lo de encontro ao barco e esfregar a substância viscosa que escorria dele na vela, afirmando que a tornaria seca (a viscosidade isolaria a vela da água, ajudando o barco a se mover mais rapidamente).

Após o desnorteante diálogo, Manoel foi embora, mas disse antes que se eu quisesse conferir pessoalmente a existência desses seres, ele poderia me levar ao local onde os viu pela primeira vez. Combinamos um encontro no coqueiral central da vila hoje, mas acabei faltando, após refletir melhor sobre ir a um local deserto com um desconhecido aparentemente transtornado. Ao término do jantar (as maravilhosas ostras, o vinho branco…), chamei L. e F., o casal português, para contar-lhes o estranho ocorrido em segredo. Eles me aconselharam a não embarcar na aventura com Manoel, pois pode tratar-se de uma tentativa de extorsão.

São 21 horas e, enquanto escrevo, uma inquietação invade minha mente: acho que estou arrependido de não ter ido ao mangue com o jovem pescador. Não posso fugir de minha própria curiosidade e talvez o procure amanhã. Ao final, o caso poderá render uma boa história. Ele é jovem, pacífico, não oferece perigo e, mesmo que possa contar com eventuais comparsas, o casal português já conhece toda a história e não ficariam impunes. Sei lá… amanhã verei isso.

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Após algumas buscas por Jeri, só consegui encontrar Manoel hoje pela manhã. Soube que estava pescando com o pai, no vilarejo conhecido como Tatajuba, ou melhor, Nova Tatajuba, já que o anterior foi encoberto pelas dunas e uma nova comunidade só pôde ser reconstruída na outra margem de um rio, chamado Guriú. Para chegar lá, precisei alugar um jipe, que cruzou o rio numa balsa.

Manoel estava ao lado do pai e de outros pescadores, voltando do mar com as redes não muito cheias, apenas peixes de tamanho médio e muito sargaço. Ele ficou surpreso com a minha presença e, na falta de um motivo mais sério, afirmei estar ali tirando algumas fotos, mesmo que visivelmente sem máquina alguma. Num momento de distração do pai, disse a Manoel que queria ver de perto as estranhas criaturas, além de pedir desculpas por não ter ido ao encontro anterior. Ele consentiu e, em poucas palavras, marcamos um novo encontro para amanhã, logo cedo. Estou louco para ver no que isso vai dar. Em todo caso, meu diário de viagem servirá como testemunho e prova de toda a aventura.

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Na hora marcada, encontrei Manoel me esperando, sentado sob um coqueiro. Ele trazia um cesto, na intenção de capturar um dos “peixes falantes”, talvez para levá-lo à cidade, e uma faca para “matá-los, se necessário”. Confesso que a visão da arma não me foi agradável mas, sem muitas delongas, iniciamos a caminhada em direção ao mangue de Jericoacoara.

Busquei sempre andar ao lado do pescador, sem perdê-lo de vista, pensando em me defender, se necessário. Por acaso e sorte, a caminhada foi toda realizada em espaços abertos de praia – não havia como alguém se esconder sem que eu não percebesse com boa antecedência. Assim que vimos o mangue, notei que Manoel respirou fundo, como a se preparar para uma luta. Sua meta agora é revelar ao mundo o estranho caso que acontece há várias gerações em Jericoacoara. Eu ria, interiormente, de toda a situação, mas mantendo uma postura vigilante em relação ao rapaz. No fundo, por sua ingenuidade, esperava encontrar alguma espécie exótica de peixe e realmente desejava isso. Um celacanto de Jeri…

Chegando ao mangue, logo experimentei aquela estranha sensação que deve ser semelhante ao afundar na areia movediça dos desenhos animados. Caminhei com dificuldade mangue adentro, com lama na altura dos joelhos e, às vezes, pela cintura, temendo cair num buraco ou vala mais profundos. Vez ou outra, sentindo picadas nas pernas que atribuía aos siris, via élficos insetos flutuando sobre a superfície do lamaçal e tinha inveja. Mais à frente, a lama ficou menos profunda, batendo nos calcanhares, mas o problema passou a ser o contorcionismo necessário para driblar os galhos e penetrar no coração da região pantanosa. Em mais de uma ocasião, temi ser esfaqueado por Manoel de forma traiçoeira, mas logo este pensamento se dissipou por completo, pois compreendi finalmente que ele não passa de um adolescente lunático, porém incapaz de cometer qualquer agressão.

Por fim, chegamos à furna que havia dito, num rincão deserto que ligava o mangue ao mar. As ondas salgadas batiam nos galhos do mangue e, caso não tivesse tomado cuidado, poderia ter ficado preso neles e até me afogado. Para conforto de minha consciência, o casal de turistas portugueses sabia que eu estava ali, naquele momento. Manoel entrou primeiro na loca guardada pelos galhos, que exalava um forte cheiro de peixe em decomposição e, em seguida, me deu a mão, puxando-me para dentro. A furna era apertada e tinha uma saída que dava para o mar. Assim que entrei, vi que vários peixes, semelhantes ao que havíamos pescado naquela madrugada, estavam ali reunidos e acabaram se dispersando no mar com a nossa chegada, emitindo ruídos semelhantes aos dos golfinhos. Fiquei petrificado. Manoel esgueirou-se pela lama tentando capturar um deles, mas não conseguiu. Os peixes eram rápidos e nadavam de forma esquisita, agitando as barbatanas como se fossem braços. Até agora não sei se eram realmente peixes ou alguma espécie de roedores.

Tudo aconteceu num átimo, mas deu para perceber, pela conduta de Manoel, que ele não estava para brincadeiras. Quando se jogou na lama e esforçou-se de todas as formas para capturá-los, bateu com a cabeça numa pedra e um filete de sangue brotou de sua testa. O riso debochado que naturalmente me aflorava durante a caminhada até o mangue tornou-se gélido como a lama onde minhas pernas chafurdavam. Sem refletir, saí da loca e corri em direção ao mar, tentando ver os peixes mais de perto. Mas para chegar até a saída da pequena gruta, por onde os peixes fugiram, havia um íngreme caminho de arrecifes, com ondas fortes que vinham de encontro, só acessível talvez quando a maré estivesse mais baixa. Manoel ficou desconsolado por não ter conseguido pegar o peixe “com entendimento”. Por outro lado, sorria ao ver minha expressão eufórica. Expliquei-lhe que pode haver em Jeri um peixe muito raro e antigo, com dentes fortes, que se alimenta de outros peixes, cujas nadadeiras são semelhantes a patas, por isso lembram outros animais e que, por fim, não seriam “filhos do diabo”, mas da natureza. Senti que, após minha explicação, Manoel tirou um grande peso das costas. Ele realmente teme que o peixe seja um monstro, como o senso comum dos pescadores mais velhos lhe sugere.

Após o fato, voltamos a Jeri para almoçar. À tarde, retornamos ao mangue, mas nenhum peixe foi encontrado até o cair da noite. Então decidimos deixar as buscas para amanhã. Estou escrevendo deitado em minha rede, sob a luz de um lampião, e não comentei a descoberta a pessoa alguma, nem mesmo ao casal português. Após um dia curioso, tento acalmar a mente, ainda eufórica, e dormir. Caso não consiga, me estenderei na areia da praia e olharei o noturno céu iluminado até me hipnotizar e as estrelas começarem a cair…

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Os últimos dias só podem ser comparados a um pesadelo em vida. De volta ao Rio de Janeiro, permaneço na casa de meus pais e faço estes apontamentos num estranho e incômodo estado de letargia devido aos remédios que me induzem a um sono artificial, falso como os sonhos, mas asséptico, sem as lembranças – piores que pesadelos – que me fulminam no estado de vigília.

Ainda não pude voltar ao escritório e continuo recebendo ligações dos amigos, incluindo L. e F., os quais não vi mais desde que dei por mim numa cama de hospital na capital cearense. Meu filho pequeno às vezes chora quando entra no quarto e percebe meu aspecto lívido, mas já sinto as forças retornarem. Os médicos disseram que eu tive um colapso nervoso e que passei alguns dias falando coisas irreais sobre sereias e monstros marinhos, sob o efeito dos tranquilizantes. Já meus pais tentam me consolar afirmando que fui encontrado e salvo, naquela tarde, em Jericoacoara, por dois pescadores, enquanto tinha um surto psicótico. Segundo a descrição dos pescadores, eu gritava de forma inconsciente pela praia, tinha cortes pelo corpo e hematomas na cabeça, acarretados provavelmente por uma queda. Eles contaram aos policiais que ajudaram em minha busca e resgate, que eu rasgava com fúria um monte de sargaços. Só com esforço, conseguiram me segurar e levar de volta ao vilarejo. Meu médico constatou que uma forte pancada na cabeça, bem como o longo período que passei exposto ao sol, sem ingestão de líquidos, podem ter sido os agentes causadores de meu distúrbio. Mesmo assim, eu quero relatar os fatos reais que presenciei naquela praia.

Lembro-me de ter ido encontrar Manoel no coqueiral central da vila, por volta das seis horas e o sol ainda estava fraco. Esperei cerca de quarenta minutos mas ele não apareceu. Decidi então ir até sua casa, mas, chegando lá, seu pai me disse que havia saído, porém não quis me informar seu paradeiro. Desconfiei que talvez Manoel lhe tivesse falado sobre nossas buscas. O velho pescador, por motivos que só agora compreendo, quis manter o filho longe daquele lugar maldito, onde o diabo dispôs algumas de suas crias, e preferiu mandá-lo para longe.

Abandonei o local e me pus a caminho do mangue, não sem antes realizar algumas rondas pelo vilarejo. Com alguma dificuldade, cheguei à furna visitada anteriormente, por volta do meio-dia, quando o céu principiou a escurecer. O sol forte que me acompanhou durante a maior parte do caminho foi encoberto por imensas nuvens escuras que se amontoaram no firmamento, compondo um cenário de tempestade. Logo, uma grossa chuva tomou conta da paisagem, mas me resolvi a não desistir da busca e, ao invés de seguir o caminho direto para a loca, por dentro da lama e em meio às raízes e galhos do mangue, optei em atravessar o paredão de arrecifes até chegar à saída que dava para o mar, o qual começara a se encrespar. O caminho era bem mais longo e perigoso, mas consegui dar cabo da empreitada; após muitos escorregões e pequenos cortes nos pés e nas pernas, entrei rápido na loca marinha e surpreendi vários daqueles peixes reunidos.

Encontrei aquelas coisas, que não eram peixes, nem nada já visto, e elas olharam para mim. Dei um grito quando notei que compreendiam a minha presença. Emitiam uma espécie de guincho, não natural, e pareciam indecisas se continuavam paradas ali ou fugiam pelo mar, passando por entre as minhas pernas. Senti que também estavam aflitas e o som que faziam, amplificado pelo eco do pequeno espaço onde nos comprimíamos, tornou-se insuportável como um concerto de cigarras gigantes. Algo de humano e feminino existia naquela natureza monstruosa: nos olhos, no formato do que supus lábios, nos cabelos e nos pequenos gomos que lembravam seios. Elas tinham diminutos olhos, negros e redondos, e cabelos escuros como sargaços, que iam até a cauda de peixe, muito pequenas, mas assustadoras. Até então eu não sabia o que era a presença do maligno, a existência do que não deveria ser. Pareciam abrigar-se da chuva, enquanto devoravam outros peixes. Fui tomado por uma raiva desconhecida que, de certa maneira, emanava delas. Aquelas coisas não mereciam viver. Tentei esmagá-las com as mãos e os pés, rasgá-las com os dentes e com a ponta da faca que havia levado, mas conseguiam fugir após se debaterem entre meus dedos, como verdadeiros peixes. Meus gritos me davam forças e serviam para afastar momentaneamente o temor das coisas inexplicáveis. Apenas alguns monstros conseguiram fugir, mas o restante foi destruído por minha fúria. Enquanto eram esfoladas, emitiam um som horrível, como o de uma pequena criança que arde em febre, contorce-se de dor, mas não tem o entendimento dela.

Nesse dia eu estive no inferno e acreditei em sua existência. Após destruir aqueles monstros, comecei a correr pelo terreno perigoso dos arrecifes em direção a areia da praia, sem sentir mais dor alguma. Caí várias vezes e me machuquei bastante, mas a chuva e as furiosas ondas lavavam-me as feridas. Tive a impressão de que, por onde eu passava, outras entidades me seguiam pelo mar, para me destruir, emitindo sons inexplicáveis. O oceano inteiro parecia estar contra mim e não sei se era o vento o responsável por aquelas notas. Já perto da praia, tive a impressão de ver, à distância, um local onde dezenas, talvez centenas daqueles peixes estivessem reunidos. Lembro-me que corri insanamente para cima deles, dei um salto e comecei a destruí-los, um a um.

Acho que desmaiei, esgotado pela luta. Só recuperei a consciência, segundo os médicos, um dia depois, já em um hospital de Fortaleza. Minha história é verdadeira, basta uma busca pelo mangue de Jericoacoara e as criaturas serão encontradas. Prometi nunca mais voltar àquele lugar, mas é preciso que outras pessoas refaçam a busca. Sozinho, não suportei a novidade, mas outros, mais fortes do que eu, poderão, quem sabe, compreender aquela existência. Diariamente eu falo isso para os médicos e aos meus familiares, mas eles não me acreditam e dão de ombros, pesarosos. Acham que eu ainda deliro, mas tenho plena certeza de que tudo o que passei foi real.


Autor: André de Sena. Ilustrador: Osman Frazão.

André de Sena é poeta, músico e escritor, com mestrado e doutorado em Literatura. É professor do Depto. de Letras da UFPE e também já lançou livros de crítica literária, a exemplo de Visões do Ultrarromantismo: melancolia literária e modo ultrarromântico (Ed. UFPE, 2011). É líder do grupo Belvidera – Núcleo de Estudos Oitocentistas da UFPE, que publica livros de teoria e ficção e organiza anualmente o Congresso de Literatura Fantástica de Pernambuco.

Osman Frazão (PL45T1C0) ilustrador, escultor, graffiti artist, fez parte do coletivo Subgraf na década de 90. Ele acredita que os fantasmas causam mais medo de longe que de perto.


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