A Mão

 

Autor: Lucas Fernando Amorim

Sempre que olhava para as fotos em preto e branco penduradas na parede da casa, uma agulha perfurava suas emoções e dava vazão a tristeza e lágrimas. Na época, tinha deixado a filha em casa, ainda pré-adolescente, para poder ir à feira. Na volta, o vazio imperava. Abriu a porta, caminhou para dentro de casa e foi abatida pelo silêncio. Colocou as chaves no centro da sala. “Amanda?”, disse olhando os quartos. Nada. Do quarto de sua filha veio um cheiro que lembra o clima de cemitério, fazendo os pelos do braço se levantarem. Caminhou apressadamente até o quarto da garota, as mãos suavam frio e as pernas tremiam. A única coisa que encontrou foi o quarto vazio. Nos pés, algo líquido e pegajoso, estava descalça. Aquela estranha sujeira no quarto era marrom e fedia como uma lama de esgoto ou “um cadáver em forma liquida”, nas palavras de Evinha.

Na época, não conseguiu encontrar a filha. Quando a polícia chegou na casa, vasculhou todo o quarto e não achou carta de despedida ou nenhuma outra evidência de que poderia ter fugido, nem mesmo sinal de briga ou resistência a um sequestro. O estranho líquido que dona Evinha afirmou ter visto e sentido no quarto também havia desaparecido. O forte cheiro já não pairava na casa. Os outros filhos, Marcos e Ana, que na época do desaparecimento estavam no colégio, se mudaram, pois estavam com medo, para a casa do pai e alguns anos depois casaram e tiveram filhos. Ela, porém, continuou morando na casa até os dias de hoje. Tornou-se uma mulher muito mais religiosa, impaciente e amarga. A angústia a dominou ao ponto de não ter vontade de sair de casa. Nunca mais foi à feira.

***

O único neto ainda criança, Davi, tinha ido passar férias com ela naquele verão de Janeiro. Ele adorava ir pra lá, era perto da praia e fazia uma brisa boa, diferente de seu apartamento calorento em Boa Viagem. Lá, na casa de sua vó, ele tinha espaço para todo tipo de brincadeira: correr pela casa lutando contra ninjas, capturar moscas com tupperwares, chutar a bola na parede com numa cobrança de pênalti numa final de copa do mundo A casa de dona Evinha era uma das três últimas que ainda sobreviviam aos arranha-céus na beira-mar de Olinda. A avó também gostava do fato dele passar as férias lá, porque movimentava a casa, sempre silenciosa e quieta, que era sempre silenciosa e quieta…

Davi só podia brincar durante o dia. A avó não gostava de barulho durante seu programa religioso favorito, que começava pontualmente às 19h, e ainda obrigava o neto a assisti-lo. Ele odiava ver aqueles homens de terno e gravata gritando coisas sobre o demônio amar o que as pessoas fazem no mundo e Deus odiar. Um dia, porém, ficou tão entediado que decidiu ir para seu quarto ler seu quadrinho preferido: Sandman, do Neil Gaiman.

— Vó, tô com sono. Posso ir dormir? — mentiu para poder se livrar daquele programa chato.
— Mas já, menino? — disse, surpresa. — Tomou banho e escovou os dentes?
— Sim e sim! Posso dormir?
— Vá. Cadê a benção?
— Boa noite, vó. Bença.
— Deus te abençoe, meu filho. Durma com ele.

O garoto achou que com treze anos já podia mentir. Ainda mais por uma boa causa. A casa de sua vó era grande. Tinha cinco quartos e três banheiros, mais uma área destinada a guardar três carros. Do cômodo da vó para o dele, havia um caminho que passava por dois quartos, destinados a visita e guardar entulhos. Às 19h em ponto ela apagava todas as luzes da casa para não pagar caro no fim do mês. Fazer esse percurso, sozinho, foi algo novo, pois sempre ia com ela, no termino do programa.

Desta vez teria que ir só.

A escuridão na sua frente era um mistério. De dia, o lugar era um. De noite, era outro. Os móveis desapareciam na escuridão. Sua audição ficava mais aguçada porque não estava enxergando nada. O interruptor ficava do outro lado, no final do corredor. Nunca percebeu o quão amedrontador era aquele corredor. Ficou parado olhando para o abismo. Não queria pedir a vó porque sabia que ela iria lhe dar um puxão de orelha por atrapalhar seu programa. Nos primeiros passos, sentiu um calafrio na barriga. Não olhava para trás nem para os lados. As pernas pareciam não querer obedecer, como se quisessem dar meia volta para o quarto de dona Evinha. A vontade de seguir em frente era maior.

Sua caminhada estava em câmera lenta, mas depois acelerou os passos, em silêncio.
Chegou ao quarto. Uma segurança e um alívio brotaram na alma. O calafrio na barriga passou. As pernas voltaram ao seu domínio totalmente. A respiração ficou mais lenta. Parecia que tinha andado quilômetros e quilômetros sozinho. Ou até se perdido num lugar desconhecido. Lembrou quando se perdeu da mãe no supermercado. Desta vez era pior. As trevas daquele corredor que pareciam gritar contra ele o deixaram em pavor, acendeu a luz e trancou a porta. Seguro, estava mais relaxado, deitou-se na cama com sua edição de Sandman.

Alguns minutos depois, começou a adormecer devagar, fechava e abria os olhos numa luta intensa contra o sono, tentava terminar aquele capítulo. Mas ao ver que estava perdendo a batalha, levantou-se e apagou a luz.
Já dormindo profundamente, sentiu um peso no corpo. Dormia de lado, com as duas mãos embaixo do rosto e virado para a porta, coberto pelo lençol que a vó tinha lavado no mesmo dia. O peso se intensificava, incomodando-o. Acordou, abriu primeiramente um olho para ver se era algum brinquedo ou o próprio quadrinho do Sandman caído nele. Nada disso. Pôde sentir os dedos tateando seu ombro.

A respiração ofegante e o coração acelerado não o impediu de tentar sair da cama, mas a coisa apertou o ombro com força, tentando segurá-lo. Pegou o celular que sempre dormia com ele embaixo do travesseiro e com a luz do aparelho pôde ver o que o segurava: Uma mão decrepita, peluda, com unhas sujas e fedorentas. Estava bastante enrugada. Aquilo o fez dar um grito de susto, pulou da cama e derrubou o celular no chão e tudo ficou escuro.
Correu para acender a luz.

Silêncio.

Havia nada no quarto. Apenas o celular espatifado no chão, o lençol caído pela metade, o travesseiro sujo de algo que parecia um liquido denso e pegajoso… Com muito medo foi contar para sua vó, felizmente, a luz do corredor ainda estava acesa. Chegando ao quarto de dona Evinha, percebeu que tudo estava silencioso, a TV desligada e ela já dormindo. Sempre deixava a porta aberta quando ia tirar seu sono sagrado. Entrou em silencio para não acordá-la com o susto. Acendeu a luz e chamou. Ela apenas abriu o olho e disse para ele voltar para a cama. Davi insistiu e a avó acordou, resmungando.

— Que foi, menino?!
— Vó! Meu deus… uma mão, no meu ombro… no quarto… eu… celular caiu… fedorenta… mão… assustador.
— É o quê, menino?! Fala devagar e respira! É um ladrão? Vou ligar agora pra seu Manoel, vizinho aqui do lado que sempre me ajuda. Quer dizer, vou ligar pra polícia logo.
— Não, vó! Não! — gritou Davi.
— Olha o tom de voz, menino.

Ele respirou e viu que não adiantaria contar nervoso o que tinha acontecido. Se acalmou e contou devagar…
Ouvindo aquilo, a senhora Evinha disse que aquilo tudo foi um sonho causado pelo quadrinho demoníaco que Davi estava lendo. Sem dar ouvidos ao garoto, ela foi com o neto até o quarto dele para averiguar o travesseiro cheio de lama. Durante o percurso, olhou para as fotos de Amanda penduradas na parede em porta-retratos velhos e empoeirados. O sorriso da menina, as broncas que dava nela, o primeiro dia de aula, a primeira bicicleta que ganhou. Fragmentos de um tempo passado embaçados e sujos por uma lama fedorenta.

Tudo estava limpo. Não havia lama em canto nenhum. A cama estava desforrada, com o lençol semicaído no chão.
— Vá dormir e pare de me aperrear, viu? — falou chateada caminhando para fora do quarto. Sua voz foi diminuindo, como se tivesse sido engolida pelo escuro corredor da casa.

Será que isso aconteceu? Talvez tenha sido um pesadelo mesmo.

Deitou-se na cama de novo, pegou o lençol e se cobriu todo, sem deixar nenhum pedaço do corpo para fora. O lençol era sua armadura.

Após alguns minutos, dormiu.

Já era madrugada, perto do amanhecer, quando um cheiro forte entrou pelo nariz. Incomodado, acordou e percebeu que seus pés estavam sujos de lama. Mas não sujos aleatoriamente, estavam marcados com dedos e palma de uma mão adulta. A primeira coisa que fez foi tirar uma foto com seu celular, porque assim saberia se aquilo era um sonho ou não. Levantou-se da cama e foi lavar os pés no banheiro. Enquanto esfregava com força para tirar logo aquela lama, sentiu um puxão brutal para fora do box do chuveiro. No seu braço, a marca de uma mão feita com lama. Ficou desesperado. Saiu correndo do banheiro, entrou no quarto e fechou de chave. Ainda estava com aquele líquido nos pés, quando percebeu que também tinha o braço todo sujo. Pegou o próprio lençol e se limpou, não tinha encontrado nenhuma toalha e estava com medo de ir ao banheiro de novo.

Já limpo, verificou se a foto estava salva mesmo no celular. Ficou olhando para aquela marca nos pés, feita com uma lama estranha, mais densa do que ele tinha pisado quando jogava bola na rua da casa de sua vó. Era outro tipo de lama. Mais fedida, mais grossa, densa e difícil de limpar do que as lamas comuns. Sem respostas e já limpo, encolheu-se dentro do lençol, tremendo. Seus olhos mexiam-se em todas as direções, desconfiados de qualquer movimento externo. Achou que dentro do lençol estaria numa redoma segura. Após muito tentar, conseguiu fechar os olhos para o sono.

O sol já estava nascendo, em breve a vó acordaria para aguar as plantas. Assim que dormiu, algo alisava os pés, sabia que era a mão misteriosa e suja. Acordou mas fingiu que dormir para ver como ela agia. A mão começou a pressionar seus pés e puxando-o devagar como se quisesse levá-lo para o chão.

Começou a se debater, tentou espancar aquelas mãos enrugadas e sujas, mas nada adiantou, ainda estava preso por aquela que o puxava para debaixo da cama. Sua vó não ouvia os gritos de desespero. O celular não estava funcionando, não podia ligar para ninguém. Desistiu. Naquele instante, a última coisa que viu foi a porta do quarto fechada e seu quadrinho de Sandman o encarando. O corpo foi puxado para debaixo da cama, de modo que não havia mais saída. A força da mão não se comparava com a de nenhum adulto que Davi conhecia.

***

Dona Evinha foi acordar o neto para o café da manhã. Estranhou a porta estar trancada. Pegou a cópia da chave que tinha guardada. Entrou e viu a cama desforrada, os lençóis sujos e o celular sem funcionar. Onde estaria seu neto? Marcas de lama em forma de grandes tiras pairavam na cama. Chamou pelo nome. Mais uma vez, apenas o silêncio lhe respondeu. Não o achou pela casa em nenhum cômodo. Surgiu o peso da culpa em seu velho coração.

Novamente. Levou as mãos aos cabelos quando se atentou para o que estava acontecendo. Ajoelhou-se na beirada da cama chorando. Desidratou-se de tanto chorar. Era a mulher mais amaldiçoada do mundo.

Senhor dos homens, oh, Deus-todo-poderoso, por quê? Mais uma vez me castigastes.

A única companhia de dona Evinha foi o silêncio. O quarto, a casa, sua alma nunca mais voltariam a ser o que eram. Olhou ao redor, memórias da filha pousaram na mente, a cama desforrada, o liquido sujo e fedorento escorrendo da cama. A culpa, o silêncio. O último tchau que deu para Amanda antes de ir à feira. Tudo era lembrança.

Viu-se no espelho e não se reconhecia: era uma velha descabelada, de olhos inchados, as rugas ainda mais pronunciadas. Quando que me tornei essa mulher? Socou o vidro, cacos penetraram em sua mão, o sangue escorria devagar e gota por gota misturava-se a lama no chão. Desta vez não ligaria para polícia nem chamaria por ajuda. Resolveu orar.

Continuou sentada na lama, encolhida. Afundava naquele chão. O sangue ainda escorria da mão até que não se sabe mais o que era sangue e o que era lama.