A Menina no Meio da Mata

Cumade Fulôzinha por Stuart Marcelo

Ilustração: Stuart Marcelo

Meu nome é Rafael, tenho 28 anos e sou engenheiro de software.Também sou apaixonado por natureza. Gosto de caminhada em praia deserta ou perto de cachoeira dentro da mata, ar limpo, banho de água clara, ouvir os passarinhos. Mas teve um passeio desses no qual aconteceu uma situação muito bizarra. Para dizer a verdade, uma coisa bem assustadora mesmo… Posso contar?

Olavo é meu colega de escritório. Sempre saímos junto com a turma, depois do expediente. A figura chama atenção: barriga esticando a estampa da camiseta, barba fechada e escura, óculos de lente grossa e aro preto. E uma careca brilhosa, apesar dos trinta e poucos anos. Olavão fala alto, coloca apelido, conta piada e solta uma risada cheia de dentes. Mas quando está irritado, vira ogro, bate na mesa, xinga sem medir palavra e abana dedo na cara de qualquer um. Diz que não foi pênalti o único gol da partida na final do campeonato pra você ver! E a confusão se o garçom do bar trouxer o troco errado pra menos?

Numa quinta, Olavo chamou o pessoal para um fim de semana no sítio dos tios, lá pras bandas de Vitória de Santo Antão. Sábado cedinho, partimos em dois carros. Que sítio bacana! Casa grande com terraço, vários quartos, piscina, campinho pra jogar bola e, em volta, uma mata fechada. Os donos já estavam preparando uma feijoada para nós. Depois do almoço, a maioria se espichou nas redes do terraço. Só eu fiquei instigando Olavo:

– Meu irmão, o que tem depois daquela mata?

– Tem riozinho e morro baixo. Dá uns vinte minutos a pé. Vale pra tirar umas fotos. Amanhã cedo, a gente chama o pessoal pra ir.

– Por que amanhã? Vamos agora, não estamos fazendo nada. Calça o tênis aí, velho!

Ele fez uma careta de preguiça, mas acho que não quis me contrariar. Ninguém mais topou o passeio. A tia do meu amigo nos viu sair e falou com voz séria:

– Vai entrar na mata essa hora, meu filho? Cuidado, que já já vem o sereno. Fique atento, pois “ela” mora por lá. Desde de você menino que conto essa história, lembra?

Não entendi a advertência, nem Olavo explicou. Seguimos floresta adentro. As árvores altas quase não deixavam entrar o resto da luz da tarde. Era aquele silêncio verde – aqui e ali, um piado, um balançado de folhas. Andávamos calados, prestando atenção no caminho estreito. Depois de uns dez minutos, veio um assovio agudo e forte, assovio de gente, e não de bicho. Meu amigo parou e ficou espiando ao redor, de boca aberta.

– Rafa, é melhor voltar, que o negócio tá ficando esquisito.

– Mas só deve faltar umas passadas, né não? Daqui tô vendo a clareira…

E apontei para onde a floresta dava mais espaço ao sol, agora já bem amarelado e morno. Foi aí que reparei, lá longe, uma pessoa no meio da mata. Parecia uma menina. Teria uns dez anos? Olhos aboticados que nos vigiavam. Cabelo muito escuro e escorrido, passando da cintura. Na mão, uma vara fininha. Ou era uma miragem feita pela mistura de luz e sombra?

– Quem é aquela, Olavão?

– Tô vendo ninguém não, rapaz. Vamos cair fora, vai por mim… Oxe, e de onde foi que a gente veio?

Ele tirou os óculos, limpou as lentes na camisa e colocou a armação de volta no rosto. Depois coçou a careca e ficou com aquela expressão de quem está perdido. Prestei atenção na agonia dele e esqueci por um instante da menina-miragem. Quando tentei vê-la de novo, não estava mais em canto nenhum. Meu amigo soltou um palavrão e me puxou pelo braço.

– Cara, vem ligeiro que tá esquisito aqui. Não acho o caminho, mas ficar parado é pior.

O que poderia acontecer com a gente? Vendo o suor escorrer da testa comprida de Olavo, entendi que devia me preocupar. Do nada, voltaram os assovios. Agora eram mais longos e vinham de longe, do meio das brenhas. E a saída não aparecia: nem sinal do atalho que nos trouxe. Dava a impressão de que as folhas largas iam se fechado na nossa frente enquanto tentávamos passar. Olavo parou de repente, mais brabo que siri na lata. Falou palavrões ainda mais cabeludos, chutou os montinhos de terra, deu murro nos galhos baixos.

– Calma, meu velho! Ficar nervoso resolve o quê?

E adiantou falar? Aí foi que berrou de raiva. Mas a gritaria parou quando alguma coisa o atingiu nas costas. Só ouvi o “zap” e o “ai”. Uma chicotada? Depois veio outra, e mais outra, e mais outa. Não dava pra enxergar o chicote – só via Olavão se encolhendo e rodando que nem pião. Era mais certo correr ou tentar ajudar? Antes que eu tomasse qualquer atitude, meu amigo caiu de joelhos e levantou as mãos.

– Para, pelo amor de Deus, para! Me desculpe, “cumade”. Juro que não queria faltar com o respeito. Me perdoe, que a gente vai embora!

Os “zaps” e os assovios pararam. Escapulimos às carreiras. Tive a impressão de que os galhos se curvavam apontando a rota de saída. Retornamos ao sítio já à noite. Cansados, sujos, arranhados. Olavo apenas rosnou para avisar aos tios que a turma iria voltar para o Recife naquela hora mesmo. Quem era doido de questionar? Na despedida, a tia torceu o nariz, como quem fala “eu te disse”. Achei melhor não perguntar nada e preservar uma amizade. Na segunda-feira, os colegas me chamaram num canto. Desconversei.

– O que aconteceu? A gente se perdeu na trilha, pessoal. Aí Olavo ficou nervoso, só isso. Sabe como ele é, né?

Esta é uma narrativa de ficção baseada em depoimentos reais.

Saiba qual é a assombração desta história.

Texto de Roberto Beltrão

Ilustração de Stuart Marcelo: ilustrador, designer e um fã irremediável de literatura de terror, horror e ficção científica, que são uma das principais fontes de inspiração pra suas ilustrações. Seu traço carrega muitas influências, principalmente no que tange a cultura regional do nordeste mítico e fantástico. Trabalha desde 2007 no CESAR (Centros de Estudos e Sistemas Avançados do Recife), onde já atuou em projetos como mídia e jogos para mobile, animação e character design de jogos para TV Digital, interface de aplicativos (TV e Mobile) para Motorola e Samsung,e projetos gráficos diversos.

Você pode conhecer mais dos trabalhos de Stuart em:
https://www.behance.net/olastuart
https://www.facebook.com/digaolastuart/