Bolada

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Texto: André Balaio. Ilustração: Celso Vinícius Sales

Uma mulher varria as folhas da castanheira no corredor principal quando a sineta anunciou o estrondo. Ela parou e afastou-se com rapidez para não ser atropelada. O pelotão avançou em direção ao pátio e dividiu-se em grupos; alguns subiam e desciam as gangorras, outros voavam nos balanços. Cecília desviou de uma bola em torvelinho e sentou-se no degrau ao lado de Maria, arregalou os olhos e bateu palmas ao perceber o álbum colorido e os pequenos pacotes brilhantes que a amiga segurava. Logo estariam soltando gritos alegres ao descobrirem figurinhas raras e fazendo muxoxo com as repetidas. A menina da outra sala aproximou-se e ficou ali em pé esperando ser notada. Em vão.

– Ei! Alguém topa completar o time de queimado? Uma garota da minha turma faltou. Por favor!

As duas se entreolharam. Maria balançou a cabeça e apontou a quadra com a mão espalmada. Vá. Cecília levantou-se e caminhou devagar, o suor escorrendo pelas costas.

A bola batida no chão de argila fazia o vapor subir. Em segundos, foi atingida na cabeça; nariz triscado, nódoa de barro e sangue no uniforme branco. Risadagem geral, garota lerda, coitada, tão burra. Foi cercada por dedos em riste, banheiro, banheiro, cantavam e dançavam em volta, ela engolindo o choro e escondendo os olhos vermelhos, banheiro, banheiro. Maria largou as figurinhas e veio correndo.

– Pois ela vai ao banheiro, sim. É corajosa, diferente de vocês – e virando-se para a amiga – Você não tem medo, tem?

– Não – o fiapo quase não se ouviu.

Caminharam juntas pelo corredor seguidas por um grupo barulhento e curioso. Na porta, Cecília falou baixinho:

– Você entra comigo?

– Não. Vou esperar aqui.

O rosto comprimiu-se e as lágrimas margearam pequenos montes de sangue e areia; o que era murmúrio virou vaia. Respirou fundo e entrou. Neste instante a campainha soou e todos voltaram menos Maria. Ela ficou na porta com a cara na fresta, observando Cecília aproximar o rosto do balcão de granito e abrir a torneira. Bastou tocar a água para que recuasse. Sumiu.

Maria coçou a cabeça e estalou os dedos. Que demora, vou entrar. No primeiro passo, uma porta de alumínio bateu; colocou as mãos no peito. O trovão metálico explodiu de novo; precisou apoiar-se na parede. No terceiro estrondo, nervo e coração vergaram as pernas trêmulas.

Um grito curto, fino, pasmo. Em seguida, o barulho seco de um baque surdo. Maria tomou coragem e entrou. Cecília?

O corpo no chão de azulejo frio contorcia-se e girava de um lado para o outro em solavancos, as pálpebras retraídas, os olhos virados para o teto. Maria avançou com os dois braços à frente. Levanta, amiga, levanta. Foi quando viu no espelho uma mulher loura, magra, de cabelos escorridos e pele amarelenta cheia de pústulas com chumaços de algodão sujos de sangue nas narinas para os quais apontava implorando tire, tire.

Maria fugiu pelo corredor. Na secretaria, andou em círculos com as mãos no rosto berrando palavras soltas entre soluços, soltando fagulhas pelos olhos, contraindo-se em violentos espasmos. Finalmente soltou a notícia como um afogado cospe água suja. O silêncio cobriu o lugar. As aulas foram suspensas; os alunos, liberados. Poucos voltariam à tarde para o velório na capela.

***


André Balaio é escritor, roteirista de quadrinhos e editor d’ O Recife Assombrado. Possui contos e textos publicados nos livros “Histórias Medonhas d’O Recife Assombrado” (onde assina como André Felipe de Andrade), “Malassombramentos” e “Viva Carrero” (Edições Bagaço). É autor da HQ “A Rasteira da Perna Cabeluda” e coautor e editor de “Histórias em Quadrinhos d’O Recife Assombrado”.

Celso Vinícius Sales é arquiteto formado pela UFPE em 2006. Obteve diversos prêmios nacionais em concursos de projeto de arquitetura. Em 2009, teve breve envolvimento com cinema, realizando o curta-metragem “16° Andar”, o qual foi exibido em alguns festivais do Estado. Como ilustrador, merece destaque seu trabalho para o projeto ”Um Cartaz Para São Paulo”, em 2012, e as ilustrações da série “Cidades Reais e Imaginárias”, publicadas semanalmente no site de arquitetura “Vitruvius”.

Ilustrações e textos cedidos para a publicação no site O Recife Assombrado são de propriedade de seus respectivos autores. Está terminantemente proibida a reprodução total ou parcial dos referidos trabalhos sem a devida autorização