Charlie

Charlie

Autor: Marcello Trigo. Ilustrador: Celso Vinícius Sales.

Ele subiu na bancada da pia e miou tão alto que dona Fany não teve outra alternativa senão dar uma risada.
─ Seu safado!
Quando Charlie dera o ar de sua graça pela primeira vez naquela casa, a pele era como um couro esticado para tamborim. Costelas à mostra, olhos famintos. Mas um ano depois já tinha a robustez de um ser bem tratado, caseiro, até onde podia ser considerado um gato de casa, já que vivia na rua a maior parte do tempo.
A viúva aposentada abriu a terceira porta do armário, à esquerda, aquela com o rangido, e pegou o pacote com a foto de um gato persa. Sacudiu o delicioso ruído de pedrinhas que pôs o bichano em estado de furor. Charlie não era persa, mas um vira-lata de primeira linha, sem vergonha que só ele, esfregando-se nela com o motorzinho de peito ligado. Fany pegou o danado pelo cangote e o afastou, quando Charlie quis enfiar a cara no pacote de ração.
─ Brrruoww?
─ Seja educado!
─ Trrrrrr… Trrrrrr…
Quando preenchia as fichas do veterinário, ela nunca acertava (Xarli Brau, Charle Breu, Xarles Brou). Ela não gostava, mas era o único apelido que pegara de verdade, e o nome que ela havia pensado antes já fora esquecido havia muito tempo.
O pratinho de plástico rosa surgiu não se sabe de que portal mágico, e foi preenchido pelos apetitosos pedacinhos. Depois, ela o desceu ao pé da mesa da cozinha. Charlie se comportava como um soldado que não via comida há semanas. E este soldado andara aprontando.
─ Você andou no lixão outra vez, seu coisinha!
Ela agachou com o costumeiro crec! dos joelhos, e viu que a cor de neve da patinha de trás estava misturada a um pó azul-claro, como sabão em pó. Charlie retirou a cabeça do prato, lambendo os bigodes. Em seguida, começou a lamber uma das patas dianteiras, mas Fany rapidamente o pegou no colo. Essa pata estava suja também do mesmo pó azul.
Aquilo não era sabão em pó, nem aqui e nem na China, e tinha um leve odor de zinco. Onde quer que Charlie tivesse passado, deixara mais dessa coisa, inclusive na barriga e na ponta do rabo. Ao perceber isto Fany soltou um palavrão e saiu da cozinha levando o meliante.
Na apertada área de serviço, aproximou-se do varal e afastou duas toalhas e o tapete de banheiro roubados do hotel em Gramado, liberando o pequeno tanque. É realmente difícil acreditar que ela nunca tocou na substância azul, como afirmaria aos repórteres mais tarde, só que é a pura verdade.
Inclinada sobre o tanque, ela pôs-se a falar naquela voz que criara para fazer de conta que era o gato:
─ Eu tinha que passar no lixão, mainha! Sou muito curioso! Curioso demais!
E o pó descendo pelo ralo, em círculos, como tinta lavada de um pincel.

Um mês depois, Fany depositou uma torta de camarão para esfriar na janela da sala. Eram sete horas da noite, e o cheiro devia ir longe, como ela esperava. Quem sabe atraísse Charlie de volta do exílio. Hoje fazia uma semana que estava sumido. Nada que a motivasse a espalhar cartazes pelo bairro, claro que não, pois não era a primeira vez. E a julgar pelos berros noturnos que haviam acordado a vizinhança durante esse tempo, devia era estar pelas redondezas garantindo a paternidade das ninhadas que viriam.
Fany estava pensando nisso ao apertar o botão da cafeteira e encher uma caneca até quase a metade, quando a deixou cair na pia e espatifar-se. Olhou para o braço, os pelos estavam arrepiados. Não entendia por quê, mas o corpo todo estremecia, e foi com espanto que aproximou a mão da boca e a lambeu. Tinha gosto de… camarão. Ela fechou os olhos, em transe, sentindo na língua a textura da pele, as ondulações dos ossos, então parou. Afastou o pulso na direção da pia, abriu a torneira, lavando a própria saliva. Mas que diabo era isso? Estava perdendo o juízo?
Foi aí que escutou o grito vindo lá de fora. Quem seria? Talvez a gorda que morava no puxadinho da casa ao lado, tendo algum susto com o filho. Fosse como fosse, era um grito, e não podia ser ignorado. No entanto, Fany não se alarmou. Apanhou o papel toalha, ainda trêmula, para secar a mão, e caminhou devagar na direção do quintal. Sentia um zumbido leve nos ouvidos, como ficam os tímpanos depois de aguentarem muitas horas de barulho: o que não podia ser, já que passara o fim da tarde ouvindo o rádio num volume bem ameno.
O grito era da garotinha que morava do outro lado da rua, neta de Valbério, delegado aposentado. Os dois estavam parados na calçada, a menina escondida atrás das pernas do avô. Tinham os olhos vidrados na direção do quintal de Fany. Os demais vizinhos também se aproximaram para ver, por cima do portão.
A travessa de metal, que antes havia contido a torta de camarão, estava limpa e emborcada no gramado. Charlie lambia as patas da frente, agachado diante da travessa, uma cabeça de camarão presa na ponta do bigode. Era ele, sem dúvida, sob a luz da garagem, mas o tamanho era de um elefante adulto. O motor de peito vibrava todo o terreno, como um trator.
Trrrrrrrrrrrrrrrrr
As unhas de Fany entraram nas palmas, os lábios uma linha fina sugada para dentro. O imenso animal pousou a pata sobre a grama. Uma garra que era grande o bastante para que um homem se sentasse nela. Ele olhou para a dona. As pupilas, fendas negras e precisas, riscando-se de alto abaixo no centro de olhos que tinham agora o mesmo diâmetro de pratos.
─ Brrruoww?
Fany aproximou-se devagar e estendeu a mão em direção à cara cujos bigodes varriam uma parte do caminho de concreto para a garagem. A bocarra entreaberta deixava o vislumbre de dentes pontiagudos como punhais de marfim. Os vizinhos não podiam ver isto, pois estavam muito longe, mas os olhos de Fany haviam assumido uma coloração diversa. Estavam esverdeados, as pupilas haviam se tornado dois riscos, como os dele. Mesmerizada, ela se deixou balbuciar, o tom que jamais deveria ter sido dela. Palavras que não eram suas, geradas fora do seu corpo. O que emergia da garganta de Fany era uma mescla entre o humano de suas cordas vocais, e a vontade daquele que estava no controle.
─ Eu fui muito curioso, mainha… muito curioso… muito curioso…
Os olhos de Charlie estavam levemente acesos, num tom azul cobalto. Neste instante, enquanto o longo e felpudo rabo se agitava em S, os olhos dos demais humanos empoleirados no muro de Fany, ou agarrados no portão, também assumiram aquela forma estranha, pupilas como linhas pretas. Alguns lambiam os dorsos das mãos e as esfregavam na cabeça, como servos dóceis.
─ Muito curioso… Trrrrrrr… trrrrrrrr… e agora eu ordeno que…
Então houve um tiro. E mais um, e outro.
Fany parou, e assim como os demais humanos, foi arrancada do transe. E todos ouviram o som de um rugido que não era desse mundo, no instante em que Charlie, sangrando e com buracos no couro, saltou para fugir e enroscou-se nos fios da rede elétrica sobre a calçada. O vulto do gigante caiu agitado, o corpo escorado na fiação, soltando fagulhas por um tempo. O cheiro que subia era o de pelo queimado. Houve um grande estouro no transformador, deixando o bairro às escuras, e o gato parou de se contorcer. Seu peso fez um dos postes inclinar.
O ex-delegado baixou a espingarda, ainda fumegante. Ele havia torcido um dos tornozelos na pressa de ir em casa e buscar a arma. Isso o havia mantido longe do efeito que Charlie parecia ter criado nas mentes ao redor de si. As demais pessoas olharam para o terreno de Fany. A viúva ainda estava parada no mesmo lugar. Os olhos, agora normais, fitando o vazio.

Algumas horas depois, horrorizados, aqueles mesmos moradores, assim como um cerco de repórteres e todo o Brasil, assistiram ao espetáculo da enorme carcaça sendo retirada pelos bombeiros. Mas além destes, havia também o destacamento de homens engravatados controlando a operação, dos quais eu mesmo fazia parte. Homens que me aniquilariam, caso pusessem as mãos nesse diário. Se soubessem que pretendo mostrar estas notas ao mundo, para que todos saibam como teve início a era em que vivemos hoje. A era do pavor e da loucura.
Naquele dia, ninguém jamais poderia imaginar que, no lixão por onde o curioso Charlie fazia suas incursões noturnas, havia também um canteiro, meio escondido, onde regularmente nossos laboratórios descarregavam o lixo. Resíduos de materiais cujo pó azul brilhante pode ser visto na noite, como uma camada de poeira azul fosforescente. O dia em que mataram o gato em Olinda, foi apenas o começo. Fazem cinco anos agora, mas lembro perfeitamente do pânico e das pessoas correndo, quando olhamos para cima e avistamos o monstruoso urubu.


Este conto integra o livro “O dito pelo não dito – textos produzidos na oficina literária Paulo Caldas” (Edições Bagaço, 2016), cujo lançamento será no dia 20 de outubro, no Clube Alemão do Recife.

Marcello Trigo é ator e locutor. Sua carreira no teatro inclui 13 anos a frente da Cia de Teatro Vanguarda, em Florianópolis, SC, onde fez de tudo um pouco. Dirigiu, adaptou textos de autores brasileiros para o palco, atuou. Entre suas paixões, escrever o insólito, a ficção científica e a fantasia, seja para cinema, rádio, teatro ou literatura, onde vem dando seus primeiros passos como contista. O autor acredita no poder do conto fantástico, fã declarado de Neil Gaiman, H.P. Lovecraft, Ray Bradbury e Isaac Asimov. Seu livro “O Olho do Leviatã” foi publicado pelas Edições Bagaço em 2014. No momento prepara um romance sobre robôs que se passa na Recife do futuro. O conto “Charlie” foi escrito para a coletânea “Dito pelo não Dito” e se baseou num dos mais clássicos ditados populares sobre gatos.

Celso Vinícius Sales é arquiteto formado pela UFPE em 2006. Obteve diversos prêmios nacionais em concursos de projeto de arquitetura. Em 2009, teve breve envolvimento com cinema, realizando o curta-metragem “16° Andar”, o qual foi exibido em alguns festivais do Estado. Como ilustrador, merece destaque seu trabalho para o projeto ”Um Cartaz Para São Paulo”, em 2012, e as ilustrações da série “Cidades Reais e Imaginárias”, publicadas semanalmente no site de arquitetura “Vitruvius”.