João Perdido

Do livro “O Cara de Fogo” (1969) do jornalista, folclorista e escritor Jayme Griz (1900 – 1981)

Era uma sexta-feira de verão, no Mearim. Mané Bento largou o serviço cedo, nesse dia. Ao meio-dia estava no caminho de casa. Tomou banho numa levada que ficava num canavial, ali perto, por trás do engenho. Depois do banho, já em casa, almoçou e deitou numa rede até o sol descambar para o outro lado da casa. Depois levantou-se. Mudou de roupa. Calçou suas alpercatas. Pendurou um facão de mato na cintura. Pegou uma bolsa de palha, de viagem, botou farinha, carne de charque assada, rapadura, banana anã, uma quicé de cortar fumo. Fósforo. Uma cabacinha de pólvora e outra com chumbo de caça. Encheu uma moringa d’água, amarrou pela boca com embira de caroá e pendurou-a em um dos ombros. Amarrou um candeeiro de gás, de folhas de flandres, no cinturão. Tirou da parede sua espingarda de espoleta, de caça, carregou-a com a primeira carga do dia, bem socada, botou a espoleta do primeiro tiro, deu um grito pelo cachorro Tubarão que àquela hora dormia lá fora, no terreiro da casa, e em seguida tocou p’ro mato. Ia à caça. E ia dormir na mata, naquele dia, para na madrugada seguinte atirar nuns papa-méis que chegavam toda manhãzinha para debaixo de um visgueiro já seu conhecido. Depois dos papa-méis, ia encovar umas pacas na Chã-do-João, perto do visgueiro, ali mesmo nas matas do Mearim.

Apesar de ser um dia ruim de caça, sexta-feira, dia de caipora andar solta na mata, de dar surra em cachorro e atrapalhar caçador com seus assobios e estrepolias e até fazer malassombrado e botar muito cabra mole para correr, mesmo assim Mané Bento foi p’ro mato.

Era manhoso e teimoso como todo caçador. E dizia que um dia desencantava a caipora. E lá se foi ele para a mata, seguido do seu cachorro Tubarão. Às seis da tarde daquele dia, estava fazendo um fogo numa clareira da mata, perto do visgueiro dos papa-méis. A uns duzentos metros, na sua frente, ficava o visgueiro. O seu copado estava à mostra, à distância, por entre os copados das demais árvores da floresta. Perto do visgueiro, num pau alto e esgalhado, Bento havia dias antes armado um jirau de espera para atirar dali nos papa-méis. Depois que Bento terminou sua merenda ali na mata, e o fogo se apagou, escureceu. Bento acendeu seu candeeiro e, devagarinho, ia seguindo, acompanhado de Tubarão, no rumo do jirau. Quando lá chegasse, subiria no pau e, lá de cima, aguardaria o amanhecer e a chegada da caça.

Depois dos papa-méis seguiria para a Chão-do-João, para a caça às pacas. De candeeiro aceso à mão, seguido do seu cachorro, caminhava Bento no rumo do seu jirau. De repente, saltou sobre o seu candeeiro qualquer coisa que ele não pode perceber de logo o que era e o apagou, arrebatando-lhe ao mesmo tempo, das mãos, a candeia. Seu susto foi enorme, sobretudo quando percebeu que aquilo fora um bote de surucucu pico-de-fogo. Que, segundo dizem, come fogo. Atira-se sobre qualquer fogo e em qualquer lugar, à noite. E se em mãos de alguém, terá este que agir rápido, afastando-se do lugar do assalto, antes que seja picado pela cobra. Correu Bento, deixando seu candeeiro, na direção do jirau, acompanhado de Tubarão. Ao dar alguns passos no escuro, percebeu novo movimento da cobra e, logo após, o grito do cachorro. Fora este mordido pela surucucu. Estava perdido. Bento, temeroso de um ataque da cobra, apressou o passo e seguindo por uma picada antes feita por ele, na mata, atingiu com brevidade o lugar da espera, subiu pau acima para o seu jirau. Na pressa com que agira, deixou no chão tudo o que trazia consigo. E de lá de cima ficou a ouvir o movimento da cobra, que o acompanhara, lá embaixo nas folhas secas das árvores que forravam o chão da mata. E o que mais o constrangia: ficou a ouvir os grunhidos do seu cachorro, sem poder dar jeito àquela situação, até que o pobre cão silenciou. Estava morto Tubarão. Seus apetrechos de caça tinham ficado lá embaixo.

Não pudera conduzir nada, com a pressa da fuga, para a espera, no seu jirau, lá em cima, no alto copado da árvore de onde, ao amanhecer do dia seguinte, pretendia atirar nos papa-méis, como sempre fazia, em dias outros. Era o diabo, aquilo. Perdera o seu cachorro de caça, de estimação. Quase fora mordido pela surucucu. Não atiraria mais nos papa-méis. Nem encovaria mais as pacas, na Chã-do-João, no outro dia. E não podia nem devia descer dali, senão no dia seguinte, tudo já claro e limpo, que a surucucu estava lá embaixo, se remexendo e se espojando nas folhas, esperando por ele. Bento estava triste e acabrunhado com o que acabava de lhe acontecer, ali, na mata, nessa noite. E pensava: Será mesmo isso arte das caiporas? O diabo era que estava agora sem sua espingarda, sem mantimentos, sem nada ali em cima, e tinha que passar toda a noite naquele ermo, com fome, com sede, e sem futuro nenhum para o dia seguinte. Estava assim Bento no seu jirau, lá no alto da árvore, maginando, e as horas corriam. Por cima do copado do pau em que se encontrava, bem alto, lá nos infinitos céus de Deus desenhava-se o “Setestrelo”, boiando em meio daquela poeira láctea das nebulosas.

O “Setestrelo” serve às vezes de roteiro das horas aos caminhantes e caçadores noturnos. Quanto mais densa é a branca atmosfera em que ele sobrenada, isso indica que mais alta se vai tornando a noite. A certa altura dessa noite o céu longínquo estava ondulante e pontilhado de estrelas. E o “Setestrelo” boiava como que num tremulante lago de leite. Ia assim alta a noite. Era certamente de uma para duas da madrugada. Silêncio no céu. Silêncio das horas. Silêncio na mata. Naquele momento um mistério insondável envolvia o mundo e as criaturas de Deus. A mata era àquela hora um mundo misterioso, sombrio e inescrutável, onde seres de sonho, de fábula e de lenda se movimentavam embuçados nas trevas havia milênios!

Bem defronte da árvore em, que se encontrava o jirau de Bento, havia um grotão largo e escuro, onde, diziam os caçadores, havia uma fonte perene. Uma bebida de bichos. Ali andavam cobras e outros bichos maiores, àquela hora. Tão escuro era esse grotão, co¬berto de árvores altas e ramalhudas, que, mesmo de dia, diziam, era uma temeridade andar ali. Dia e noite es¬talavam lagartixas da mata. Até gato maracajá e onça pintada andavam lá dentro.
Houve um momento, dentro daquela noite sem fim para Bento, que parecia ao caçador que o mundo se transformara num caos medonho, com bichos informes de eras remotas, andando por ali, acima e abaixo.

Bento não dormia. Nem tirava o pensamento de tudo o que era estranho e que a mata, para ele, àquela hora continha e o envolvia. E pensava na cobra. Pens¬ava no seu cachorro morto, ali embaixo. Pensava nas caiporas. Pensava nas abusões da floresta. Enquanto isso as lagartixas da mata estalavam lá embaixo, no gro¬tão. Bento estava ali, só, dentro daquele ermo de mist¬ério e escuridão, já agora cheio de susto, de espanto e de medo, coisa que antes nunca lhe sucedera.

De momento, Bento ouve, longe, àquela hora alta da noite sem fim, vindo do lado de lá do grotão, ali na sua frente, de dentro daquele caos de silêncio e trevas em que estava envolvido, um enorme e estranho grito:

– Ôôôô João!!!

E após esse grito, houve como que um silêncio ain¬da maior, na mata. Era como se tudo tivesse ficado à escuta daquele grito. Decorridos alguns instantes, ou¬tro grito ecoou, longe, dentro daquele ermo, mas agora do lado oposto ao de onde tinha partido o primeiro, do lado da outra encosta do grotão, por trás de Bento:

– Inhôôôôô!!!

Bento agora, lá em cima, na árvore, no seu jirau de varas, estava voltado para o lado de onde surgira a¬quele segundo grito, cheio de susto e de dúvidas. E pensava: será isso arte das caiporas, naquela noite de sexta-feira? E lamentava: “… Meu fumo ficou lá em¬baixo, na bolsa. Aqui não tenho nada pra abrandar a ira das caiporas”. E estava ainda Bento nessas conjeturas, quando outro grito ecoou do lado oposto ao segundo, do lado de lá do grotão, agora mais próximo e mais forte que o primeiro.

– Ôôôôô Joaaaão!!!

Que diabo seria aquilo, santo Deus! Gente perdida, por ali, àquela hora da noite? Não era possível. Seria uma abusão da mata? Seria a abusão de João Perdido? Pensava Bento. E agora, os gritos de um lado e do outro, dentro da noite, se sucediam com maior frequência, e cada vez mais próximos. Bento, a esta altura, estava cheio de susto e de medo, diante daquela situação sem precedente na sua vida de homem do mato e de antigo caçador. No seu espanto, naquele ermo, sozinho, sem socorro possível em face do que lhe pudesse acontecer ali, tomou-se de receios e fraquezas que nunca experimentara antes nas suas rondas noturnas, no mato. Os gritos cessaram por alguns instantes, de um lado e do outro da floresta. Lá em cima, no seu jirau, na densa escuridão daquela noite tormentosa, Bento procurava reagir aos seus sustos, àquele seu estado de pânico. Mas eis que, de súbito, bem perto, no cimo do barranco do grotão, outro grito, alto, forte, assustador, se fez ouvir na floresta:

– Ôôôôô Joooooão!!!

E em seguida, do outro lado, e agora bem perto, nas costas de Bento, outro alucinante grito ecoou:

– Inhôóôôô!!!

E logo após esses dois gritos que repercutiram e ecoaram longe, nos ermos da floresta escura e impenetrável, percebeu Bento que a mata, do lado de lá do gro¬tão, se agitava como que sacudida por um vendaval. E aos seus ouvidos chegava o estralejar de mato quebrado, indicando que alguma coisa, gente ou bicho, descia encosta abaixo, enquanto do lado oposto da mata idêntico movimento se registrava. Isto indicava que aqueles que, aos gritos, se procuravam mutuamente, dentro da floresta, àquela hora, se aproximavam para um encontro final. E o que vinha ali, galgava e subia agora a outra encosta do grotão, na direção da árvore em que se encontrava Bento. Subiu finalmente a encosta do grotão. Atingiu a borda do barranco e continuou andando, dentro das trevas, no rumo do caçador, que estava lá em cima de sua árvore, atento ao movimento do bicho, do fantasma, ou o que fosse, que lá embaixo se encontrava. Cessaram os passos do fantasma. Agora estava parado dentro da noite, ali perto de Bento. Nesse instante uma forte e rude ventania começou a agitar toda a floresta. Um vento frio e tempestuoso sacudia toda a mata e zunia por cima do copado das árvores. Bento, assombrado, segurava-se com unhas e dentes ao seu jirau, temendo cair Iá de cima da árvore que lhe servia de pouso.

Outro grito ecoou agora bem perto da árvore em que Bento se encontrava. E outro, em resposta, repercutiu, mas agora longe, bem longe, do outro lado da floresta, quase imperceptível. E Bento, a esta altura, estava quase louco de susto e de medo. E não tinha mais dúvida, aquilo era uma abusão. E tudo indicava que era a abusão de João Perdido. Segundo diziam, quem se encontrava com aquela abusão também se perdia. E Bento, sozinho, naquele ermo, relutava por escapar com vida diante daqueles fantasmas da mata. E que fazer agora para fugir dali, se aquela noite não tinha fim! E enquanto Bento lá em cima, na árvore, no meio das tre¬vas, se consumia no seu pavor, outro grito surgiu den¬tro da noite. Agora, quase debaixo da árvore em que se encontrava o caçador. Grito que repercutiu nas trevas e se perdeu longe, por cima da mata escura e agitada por um vento de tempestade. E esse grito não teve mais resposta do outro lado da floresta. Agora o fantasma estava debaixo da árvore do caçador. E passou em seguida a gritar para cima, para Bento:

– “João, ô João, eu estou aqui, João!” E continuou gritando: – “Desce daí, João! Desce, senão vou te buscar lá em cima!” E Mais alto: – “Desce, João! Desce, João!”

E Bento, diante de tal quadro, estava lívido de medo. Louco de pavor. E já agora, o fantasma, gritando por João, sacode com mãos de gigante a árvore em que se encontrava Bento.

E este, no seu medo, no seu pavor, na sua alucinação, via, ouvia e sentia um mundo de coisas estranhas ao seu derredor. Naquele instante, o fantasma subia, pau acima, na sua direção. Um vento de furacão desencadeia-se na floresta e sacode, agora, violentamente, a árvore em que se encontrava Bento, em tão desesperadora situação. A floresta agora se enche de assobios e gritos das caiporas, de zumbido dos ventos, de sombras espectrais. E naqueles instantes indescritíveis, Bento, no seu horror diante de tudo aquilo, no seu medo sem limite, no seu enorme desespero, vendo o fantasma aproximar-se pau acima, na sua direção, ouvindo os assobios e os gritos das caiporas, cercado de espectros, ouvindo o uivar do vento que agitava a floresta e sacudia e vergava a árvore em que ele se debatia na sua crescente alucinação, e já sem forças para suportar sozinho tal crise, tamanho drama, desprega-se lá de cima e rola no abismo que se abre aos seus pés, arrebentando-se no solo, por sobre es¬pinhos e velhos paus ali caídos. E inerte e imóvel fica no chão da mata.

Estava morto Mané Bento. E mais adiante, morto também estava Tubarão.
E assim nunca mais Mané Bento voltou daquela trágica caçada nas matas malassombradas do Mearim.

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(João-Perdido era caçador. Numa noite de sexta-feira, contra os conselhos de seu velho pai, foi caçar nas Inatas do Mearim. E dessa caçada João nunca mais voltou. Perdeu-se, segundo dizem, numa chã, que tomou seu nome: Chã-do-João. Seu velho pai, homem afeito ao mato, botou-se para a mata, à procura do filho. E por lá esteve dias, semanas, meses, anos, e de lá tam¬bém nunca mais voltou. Perdeu-se na procura do filho que nunca encontrou. E virou abusão. Diz a lenda que quem topa com esse fantasma, também se perde na mata. Não volta mais. E isso tem acontecido. Mané Bento foi mais uma vítima dessa abusão).


Ilustração de Stuart Marcelo: ilustrador, designer e um fã irremediável de literatura de terror, horror e ficção científica, que são uma das principais fontes de inspiração pra suas ilustrações. Seu traço carrega muitas influências, principalmente no que tange a cultura regional do nordeste mítico e fantástico. Trabalha desde 2007 no CESAR (Centros de Estudos e Sistemas Avançados do Recife), onde já atuou em projetos como mídia e jogos para mobile, animação e character design de jogos para TV Digital, interface de aplicativos (TV e Mobile) para Motorola e Samsung,e projetos gráficos diversos.

 

  • Marília Maciel

    Muito interessante esse conto do Jayme Griz. Aliás, a obra dele é um tesouro esquecido sobre a forma de vida das pessoas na zona da mata sul pernambucana nos idos do século passado… Pena que não consegui achar os outros livros (ex. lobisomem na porteira). opapafigo.blogspot.com.br