O Bicho na Estrada

Ilustração: Stuart Marcelo

Ilustração: Stuart Marcelo

Meu nome é Cláudio, tenho 32 anos, e sou motorista de caminhão. Não vai faltar quem diga que esse caso que vou contar é lorota, conversa pra boi dormir. Mas acredito porque foi Jair quem me contou. Ele é sujeito sério, pai de família, vai à missa no domingo – não ia inventar uma história maluca dessa…

Somos empregados de uma transportadora. Revezamos o volante de um caminhãozinho-baú. Uma viagem é minha, a outra é dele. Jair me fez prometer que ia sempre deixar no painel do caminhão o boneco de cachorro cabeça de mola, o imã com siri dentro do plástico transparente e a imagem de São Cristóvão, padroeiro dos motoristas. “A gente tem que rodar alegre e protegido”, ele dizia. Nunca gostei desses enfeites na cabine. Mas por que chatear o colega?

Num fim de tarde, recebemos a missão de seguir do Recife para uma entrega na cidade de Bonito. Dá quase cento e cinquenta quilômetros. Era minha vez de dirigir, e ele foi bacana comigo:

– Camarada, hoje é sexta-feira, vai visitar tua noiva. Deixa o serviço, que eu faço. Não vou esperar a manhã do sábado. Sigo depois das dez e meia da noite, sem alvoroço, sem pegar congestionamento.

Aceitei na hora, claro. Na segunda, Jair não veio trabalhar. Contaram que ganhara licença de dez dias, pois estava sofrendo dos nervos. Assim, de uma hora pra outra? Fui à residência dele e o achei sentando numa cadeira de balanço na varanda. Estava de barba mal feita e olheiras. Falando baixo, me contou o havia acontecido.

A lua cheia reinava num céu sem nuvens. A claridade era tanta que não precisava da luz dos faróis do caminhão para ver os matos, as cercas e casas de fazenda à beira da BR-232. Tudo quieto, nenhum outro carro na rodovia. Ao passar à altura da cidade de Gravatá, pouco mais da metade do caminho, o relógio marcava meia-noite. E foi aí que ele avistou um animal no acostamento.

Pensou que fosse um jegue – bicho perigoso quando está solto, porque pode atravessar a pista de repente e provocar um desastre. Jair, cuidadoso que só, diminuiu logo a velocidade. Quando emparelhou com o animal, veio o espanto: que jumento nada! Era do tamanho de um bezerro, coberto com um pelo grosso e marrom, mas tinha cara de porco e latia feito cachorro. Que desgraça era aquela, meu Deus!

Jair fez o sinal da cruz e pisou fundo. Reparou pelo retrovisor que aquela coisa se danara a correr e estava quase alcançando o caminhão. Foi um piscar olho e ele chegou junto, sem nenhum esforço. E essa perseguição durou bem uns vinte minutos. Meu amigo se apavorou. Vinha a cem por hora, e o bicho nem parecia cansado!

Logo adiante, numa encruzilhada, era preciso sair da rodovia principal e pegar a estrada que leva a Bonito. Ele fez uma manobra ligeira para a esquerda e quase atropelou o animal dos infernos. Colocou a cara para fora da janela e reparou o monstrengo parado meio do asfalto. Balançava a cabeça e roncava, parecia desorientado.

Então foi pela PE-103, meio sem acreditar no que tinha acontecido. Queria chegar logo ao destino, pernoitar numa pousada qualquer e fazer a entrega cedo da manhã. Perto da entrada de Camocim de São Félix, o caminhão caiu num buraco e um dos pneus se rasgou. Xingou o quanto pode e teve que estacionar para fazer a troca. Do lado de fora da boleia estava frio pra danar, de um jeito que ele nunca tinha sentido ao viajar por aquelas bandas.

Ficou avexado para mudar o pneu e cair fora. Tanto que nem desligou o motor – vai que a bateria morre!! Jair apertava os últimos parafusos na roda quando sentiu uma catinga forte de enxofre e escutou a zoada do bicho chegando às carreiras por trás do caminhão. Meu colega não teve tempo nem de pensar em fugir. A coisa pulou em cima dele e abriu a boca grande, cheia de dentes pontudos, babando e rosnando. O coitado ficou deitado de costas, tentando segurar no pescoço do monstro, e começou a berrar:

– Valei-me, meu São Cristóvão. Meu santo, me acuda, me acuda!

E não é que o bicho parou de atacar? Soltou uma espécie de choro triste e ficou em pé nas patas traseiras. Jair pôde notar que a patas dianteiras pareciam mãos. É isso mesmo: mãos de gente! Cruz credo! Depois caiu de quatro novamente e escapou pelos matos em disparada. Jair pulou na boleia e meteu o pé na tábua.

Na pousada, nada de pegar no sono. Parecia que tinha espinho na cama. Bastou clarear para ele fazer a entrega e voltar ao Recife. Falou ao patrão que não topava mais viagens à noite, por dinheiro extra nenhum, e pediu uns dias de folga, pois andava muito nervoso, estressado com o trânsito, sabe como é.

Segurei a onda no trabalho por um mês. Antes dele voltar, pendurei uma miniatura de rede na cabine do caminhão e coloquei o adesivo “Guiado por Deus” no para-brisa – mais enfeite para animar Jair. E comprei pra mim uma medalhinha de São Cristóvão, mandei benzer e não tiro mais do pescoço nem pra tomar banho.

Saiba mais sobre o Lobisomem!

Texto de Roberto Beltrão

Ilustração de Stuart Marcelo: ilustrador, designer e um fã irremediável de literatura de terror, horror e ficção científica, que são uma das principais fontes de inspiração pra suas ilustrações. Seu traço carrega muitas influências, principalmente no que tange a cultura regional do nordeste mítico e fantástico. Trabalha desde 2007 no CESAR (Centros de Estudos e Sistemas Avançados do Recife), onde já atuou em projetos como mídia e jogos para mobile, animação e character design de jogos para TV Digital, interface de aplicativos (TV e Mobile) para Motorola e Samsung,e projetos gráficos diversos.

Você pode conhecer mais dos trabalhos de Stuart em:
https://www.behance.net/olastuart
https://www.facebook.com/digaolastuart/

 

  • Marília Maciel

    Eita que texto bom Roberto!!! Gostei demais!
    opapafigo.blogspot.com.br