O Estranho Homem-Peixe

Passaram-se anos até que eu viesse a ter coragem de relembrar. Coisa sem sentido mesmo, feito pesadelo. Mas sim, aconteceu. Agora não me importa se me chamarem de doido. Até porque Ademir e Clarissa também viram o que sucedeu com o professor Bianor. Anota aí: sou o Pedro Henrique. Biólogo, 54 anos.

Foi em meados da década de 1980. Estávamos felizes com o convite para participar do estudo de campo. Uma expedição científica pelo rio São Francisco como assistentes de um pesquisador renomado da universidade que trabalhava no campus do Recife. Que estudante não quer essa chance? As nossas boas notas nos qualificavam para o projeto. Seguimos então para Petrolina, no Sertão de Pernambuco, de onde partiríamos.

Seria um estudo pioneiro: mestre e três alunos no pequeno barco alternando motor e remos para percorrer trechos do rio durante algumas horas por dia. Capturávamos peixes usando redes e anzóis com o objetivo de catalogar e analisar os espécimes para saber como a poluição afetava os animais. Trabalho duro, sob a vigilância do calor tirano, na vastidão quieta da água escura e profunda. Nada fora do comum nos dois primeiros dias. Bastava pescar e armazenar no isopor com gelo os peixes a serem dissecados em laboratório na semana seguinte.

O professor, de chapéu com abas largas a proteger a calva, nos espiava com olhos duros ao menor cochicho. O rigor no silêncio era parte do procedimento, nós sabíamos. Mas que tédio! Ademir, feito estátua ao lado do orientar, nem cogitava responder aos nossos risinhos. Já eu e Clarissa brincávamos quando eles não reparavam. Ela mergulhava os dedos na água e sacodia gotas frias no meu rosto. Eu logo correspondia a esses ataques. E estávamos distraídos assim, no começo da tarde do terceiro dia, quando nosso colega gaguejou:

– Do-doutor, o senhor tá-tá ven-vendo aquilo!

De boca aberta, o professor Bianor tirou o chapéu e limpou os óculos na ponta a camisa. Não havia o que duvidar: à nossa frente estava a criatura. Corpo de homem com pouco mais de dois metros, pele escura e escamosa, braços longos, cabeça pelada, orelhas pontudas. Deitada de barriga pra cima sobre uma pedra grande numa das margens, parecia se aquecer ao sol, tal como fazem os jacarés.

Ficamos mudos por segundos infinitos. Aquilo não constava nos tratados científicos. Seria uma miragem ou uma incrível descoberta? Com um gesto, o professor ordenou que usássemos os remos de forma lenta e cuidadosa na tentativa de aproximação. Estávamos a poucos metros quando o ser percebeu nossa presença. Levantou-se com agilidade e nos mirou com olhos cinzentos e amendoados antes de mergulhar e nadar para longe. Ainda tentamos persegui-lo, mas ele logo submergiu e não tornou.

Voltamos então ao hotel no qual nos hospedávamos. À mesa, na hora do jantar, eu, Clarissa e Ademir não parávamos de debater. Era animal ou ser humano? Uma espécie de híbrido homem-peixe talvez? Como nunca havia sido revelado? Poderia ser dotado de inteligência? Quem sabe um tipo de alienígena? O professor interrompeu a conversa com voz firme:

– Só o exame dessa criatura pode nos dar a resposta, pessoal! Será uma grande descoberta, de fato. Mas agora devemos manter o sigilo e dormir cedo. Amanhã retomamos as buscas naquele mesmo ponto.

Mantivemos a vigilância nos dois dias seguintes no local da aparição, mas nem sinal do ser misterioso em horas que arrastaram. No meio da tarde do terceiro dia, eu e Clarissa bocejávamos e comentávamos baixinho que a tocaia parecia inútil, enquanto Ademir cochilava sentado. O professor segurava uma máquina fotográfica contra peito e apertava os lábios sem tirar a vista do horizonte. Tivemos um sobressalto quando ele gritou:

– Ali, ali! Ele colocou a cabeça para fora no meio do rio. Liga o motor, Ademir!

Nosso colega deu um pulo e acionou a hélice. O solavanco fez o professor deixar cair a máquina na água. Ele chamou um palavrão e ligeiro pegou uma rede de pesca no chão do barco. Ao chegarmos perto do local do suposto avistamento, o mestre mandou desligar o motor e, com as mãos trêmulas, atirou a rede. Com testas franzidas, nos entreolhamos. Mas que bobagem! Claro que o monstro, ou fosse lá o que fosse, não ia ser apanhado feito um peixe comum.

Mas aí veio um forte puxão na rede, como se alguém estivesse disputando um cabo-de-guerra. Antes que pudéssemos ajudar, nosso orientador não aguentou o tranco e voou para fora do barco. Veio à tona se debatendo e berrando. Eu e Ademir seguramos os braços dele, mas algo o puxava pelas pernas! Não iriamos resistir por muito tempo. Que desespero, meu Deus!

Só Clarissa teve a frieza necessária naquele momento. Ela ligou o motor de popa e com o movimento brusco pudemos libertar o professor da ameaça. Já fora d´água, ele soluçava feito criança. Havia perdido um dos sapatos e tinha as pontas das calças rasgadas em tiras. Só se acalmou na volta ao hotel. Recusou a nossa sugestão de que fosse a um hospital para um exame e determinou o retorno imediato da equipe ao Recife.

O doutor Bianor nos pediu para esquecer e não dizer nada, pois aquilo poderia colocar nossas carreiras em risco. Soubemos que nenhum relatório foi produzido sobre a expedição e que o professor dera entrada com um pedido de aposentadoria algumas semanas depois.

Até hoje sinto vontade de voltar ao São Francisco. Tenho certeza que o homem-peixe ainda vive por lá…

Saiba mais sobre o Nêgo d´Dágua

Outro conto sobre o Nêgo d´Dágua: Maluvida (e o Monstro do Rio)

Texto de Roberto Beltrão

Ilustração de Stuart Marcelo: ilustrador, designer e um fã irremediável de literatura de terror, horror e ficção científica, que são uma das principais fontes de inspiração pra suas ilustrações. Seu traço carrega muitas influências, principalmente no que tange a cultura regional do nordeste mítico e fantástico. Trabalha desde 2007 no CESAR (Centros de Estudos e Sistemas Avançados do Recife), onde já atuou em projetos como mídia e jogos para mobile, animação e character design de jogos para TV Digital, interface de aplicativos (TV e Mobile) para Motorola e Samsung,e projetos gráficos diversos.

Você pode conhecer mais dos trabalhos de Stuart em:
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