O Paciente

Por Sérgio Paulo de Mello Feitosa

Sinto um alivio por ser manhã agora. A chuva levou um pouco meus medos e minhas angústias e espero que o que me aguarda amanhã, seja não a minha última agonia e sim, meu alívio. Se tiverem paciência, poderei contar detalhadamente o que me aconteceu e quem sabe dividir comigo, mesmo que distantes. Talvez essa luz de sol que um pouco desbotado entra por minha janela, reflita calor… salvação.

Sou profissional da área de saúde numa cidade do interior. Vim a convite por um contrato de um curto período, que se completa a cada mês de fevereiro. A experiência foi bem positiva e em poucos meses de  estada, o trabalho rendeu excelentes resultados. Mais e mais pacientes começaram a chegar, até que em meados deste ano, resolvi praticamente dobrar meus horários de atendimento em regime de plantão.

Há exatos três meses,  aconteceu-me algo que desenrola-se aqui, repetindo-se de uma forma impressionante em minha memória e como diz o personagem William de Baskerville, de Umberto Eco, “que minhas mãos não tremam ao começar o meu relato”.

O dia foi açoitado por um vento cortante que não respeitava portas e janelas do Centro de Saúde e durante à tarde e o inicio da noite, havia a sensação de um período de sonolência, de expectativa daquele dia terminar.

Estava em minha sala, exatamente onde estou agora e minha ala, encontrava-se absolutamente deserta. Podia ouvir o barulho de minha caneta sobre o papel, mas algo naquele pesado silêncio me sobressaltou.

Em direção à minha porta aberta, comecei a ouvir pesados passos e claramente sons de uma respiração em grande dificuldade. Os sons que de início eram um tanto vagos, foram tomando corpo, até que denotaram que alguém estava
passando por grandes dificuldades.

Levantei-me rapidamente e me deparei com um paciente em estado deplorável, mas não apenas isso. Era desesperador o que vi. Vindo em minha direção um homem de cerca de 50 anos, com o rosto e braços completamente ensanguentados. Manchava a parede onde se apoiava e respingos de sangue desciam por uma calça suja e rasgada.

Corri até ele, mas com uma voz desesperada e contida, me disse:

– Não toque! Quero me sentar em alguma cadeira de sua sala, doutor.

Pude ver então de perto que um grande hematoma havia se formado na região da testa. A camisa aberta deixava perceber um enorme edema ou pancada no peito e na perna esquerda da calça, rasgada, identificou o ferimento que
o fazia sangrar. Perguntei: o que houve?

–  Um nelore de três anos de minha criação me atacou.

Pensando rapidamente deixei-o onde estava e corri ao telefone de uma sala vizinha para pedir ajuda. A rapidez seria a salvação daquele homem e tenso ao ser atendido pelo plantão, contei rapidamente o que estava acontecendo. A enfermeira, percebi, silenciou do outro lado da linha e gaguejando me pediu que não saísse que uma equipe iria sem demora. Mas não consegui ficar. Precisava fazer algo por aquele homem e retornei à sala.

Ao dar os primeiros passos, percebi que os gemidos haviam cessado e algo me fez arrepiar: não haviam mais marcas de sangue. Nem nas paredes, nem pelo chão. Entrei devagar na sala. Estava quase intacta, com a exceção da cadeira quase virada que modifiquei para que o homem pudesse sentar-se.

O coração flutuava e ao sair meio tonto da sala, deparei-me com a equipe plantonista. O que dizer? Não estava louco. Eu vi ele rastejar-se pelos corredores. A enfermeira fez sinal para que os outros voltassem e sentando-se comigo em meu consultório me disse:

– Doutor, não se espante. Sei quem o senhor viu, mesmo não estando aqui. Esse paciente chama-se Rodrigo Marques e tinha 52 anos. Foi morto há mais de dez anos por um novilho em sua fazenda. Foi trazido para cá, mas nada pode ser feito, pois já chegou em óbito. Exatamente para esta sala, que antes da última reforma no Posto era um pequeno necrotério…

Depois de uma pausa para respirar fundo, ela prosseguiu:

– Mas há algo que preciso lhe dizer: é uma aparição que traz azar. Três pessoas o viram nestes anos. Os três morreram ao completar exatos três meses da visão. Cuide-se!

Hoje, às nove da noite, completa-se o prazo que não me saiu da cabeça. Estive ontem numa igreja e encomendei uma missa para amanhã, às sete. Espero que  possa elevar minhas preces a este ser infeliz e também poder dizer a todos que conheceram a minha história a notícia que continuo vivo.

Dedicado à Ilma Schmitz