Perseguida pela Perna

Meu nome? Shirley, ao seu dispor! Pois é: demorei a ter coragem de contar essa história. Mas agora vai… E é tudo verdade, viu? Isso aconteceu no ano de 1976.

Vi um bocado de gente na frente da casa da minha vizinha, dona Socorrinho. Ele falava alto, feito que faz discurso.Quando ouvi a conversa, fiquei pensando: minha gente, como uma senhora de idade se passa para contar uma lorota dessas? Pois enquanto o filho dela enchia uma Kombi alugada com cadeiras, mesa, fogão e geladeira, dona Socorrinho dizia aos vizinhos que estava deixando a casa no Vasco da Gama por causa de um malassombro!

Dona Socorrinho era viúva e morava com Wallace, o filho caçula, na casinha de porta e janela. Há três anos, ele viera fazer faculdade na capital, e a mãe mudou-se também, “pois já tinha uma filha professora, um filho tenente do Exército e ia fazer de tudo para fazer o mais novo virar doutor”. E enquanto Wallace estudava, ela arranjava serviço de costura para complementar a pensão deixada pelo marido.

Numa tarde de sábado, precisou sair do Vasco da Gama – aqui na Zona Norte, não sabe? – e ir ao Centro do Recife para comprar tecidos. Lá demorou a encontrar que o queria nas lojas, e ainda esperou muito tempo pelo ônibus de volta. Só conseguiu retornar ao terminal à noite, com as ruas do bairro desertas. Veio afobada para chegar logo em casa. Ainda mais porque ia ficar sozinha – Wallace fora passar o fim de semana estudando com uns colegas.

No caminho escuro, só escutava batida das sandálias no calçamento. Mas dona Socorrinho começou a achar que estava sendo seguida: “Era uma réstia, que só se enxergava pelo canto de olho”. Quando rodou a chave na fechadura, assoprou de alívio. Trancou-se, pensou que estava segura. Aí escutou umas batidas na porta. Ela perguntou quem era, e não teve resposta. E as pancadas foram ficando mais fortes.

Primeiro achou melhor somente rezar. E tome mais batida na madeira. Era bandido? Se fosse, ameaçava logo. Então não era coisa de gente, era coisa de outro mundo! Aí ela tomou coragem, pegou o crucifixo que estava pendurado na parede da sala, abriu a janela e gritou:

– Sai daqui, enviado do Cão, que essa casa é de Deus!

Mas ficou sem fala ao ver uma perna sozinha que chutava e pulava! Que doidice era aquela?

– Era uma perna da coxa grossa e bem cabeluda. Perna de homem. Não deu pra ver o pé, mas acho que parecia um casco de bode, feito um pé de diabo! Como mostrei a cruz, ela correu ligeira na escuridão. E se resolver voltar? Fico aqui mais nada!

Dona Socorrinho mudou-se com medo, e Wallace foi viver na Casa do Estudante, onde os universitários do interior se hospedavam até se formar. Achei ruim aquela situação: a costureira nem desconfiava que o filho era meu paquera. Dizia: “Menino, muito chamego distrai quem estuda – com o diploma na mão, você casa com moça de família boa”. Para ela não aperrear, a gente se encontrava escondido, debaixo de uma árvore grande na praça do bairro.

Com Wallace morando longe, ficou difícil de namorar. Nos domingos, a gente ia aos cinemas Veneza ou São Luiz, lá na Boa Vista, e depois cada um tomava o ônibus de volta para seus cantos. Mas teve uma vez que ele resolveu me deixar em casa… para passarmos mais um tempinho juntos, sabe como é, né? Paramos na praça, onde naquela hora não tinha mais um pé de pessoa. A luz amarela do poste fraquinha, e a gente de mãos dadas junto da árvore. Wallace falava baixo, alisando meu rosto, mas de repente ficou olho arregalado:

– Ave Maria! O que é aquilo? Vem pra cima de nós! Corre, Shirley!

Juro que vi uma perna bem cabeluda, e andando sozinha! Ela veio não sei de onde, apareceu do nada. Tinha um pé grosso, com umas unhas nojentas e pontudas. Credo! Parecia sonho ruim! O susto foi grande, fiquei paralisada, me tremendo toda. Meu namorado já tinha fugido, e a perna foi atrás dele. Na esquina, levou um chute daquela coisa dos infernos, caiu e tentou escapulir por uma rua estreita.

Aí fugi para minha residência, que ficava do outro lado. Caí na cama, suando frio e chorando. O que tinha acontecido com o coitado? Não recebi notícia no outro dia. Alguém me disse que ele tinha dado uma entrevista na rádio, pois fora atendido no Hospital da Restauração de madrugada. Estava bem machucado e contou ao repórter que não sabia quem o atacou, só vira uma perna cabeluda chutando.

Pensa que Wallace me ligou mais? Também não atendia quando eu telefonava para a Casa do Estudante. Ainda teve a cara de pau de mandar um telegrama, duas semanas depois, pedindo desculpa, pois não gostava mais de mim, o problema era com ele, e não comigo, que eu fosse feliz, e que agora só pensava em se formar. Será que foi praga de dona Socorrinho?

Saiba mais sobre a Perna Cabeluda!

Texto de Roberto Beltrão

Ilustração de Stuart Marcelo: ilustrador, designer e um fã irremediável de literatura de terror, horror e ficção científica, que são uma das principais fontes de inspiração pra suas ilustrações. Seu traço carrega muitas influências, principalmente no que tange a cultura regional do nordeste mítico e fantástico. Trabalha desde 2007 no CESAR (Centros de Estudos e Sistemas Avançados do Recife), onde já atuou em projetos como mídia e jogos para mobile, animação e character design de jogos para TV Digital, interface de aplicativos (TV e Mobile) para Motorola e Samsung,e projetos gráficos diversos.

Você pode conhecer mais dos trabalhos de Stuart em:
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