Sete

Neste belíssimo conto de João Paulo Parisio, o sobrenatural e o medo andam lado a lado com a delicadeza e o amor.

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Fazia uma tarde ideal para explorações no Engenho. A norte, pois para mim tudo que se estendia de frente para o terraço era o norte, a planície desdobrava-se quente e ensolarada até esbarrar no horizonte, que era o morro, e no alto do morro ficava a Mata. De longe via-se apenas uma superfície verdescura e irregular formada pelas copas das árvores. Era para lá que meu pai rumava com sua espingarda, uma vinte-e-oito preta, e era de lá que trazia estranhos animais mortos. De casa escutávamos os tiros ecoarem nos dias de caçada. Mas eu não desejava ir tão longe. Mesmo assim, no início minha mãe se negou a aceitar meu súbito e eufórico desejo de sair sozinho, mas acabou cedendo ante minhas súplicas com voz embargada, meus olhinhos chorosos e o apoio de meu pai, contanto que eu vestisse calças e botas por causa das cobras. Ele disse que o menino tinha que se acostumar a andar pelas terras que um dia seriam dele, se Deus quisesse. Ela me lembrou de meus deveres de anfitrião para mais tarde.

Logo eu estava dando adeus aos dois, muito satisfeito. Fechei a porteira às minhas costas e comecei a caminhar, orgulhoso, excitado e apreensivo por a partir dali estar por conta própria. Senti os raios mornos do meio da tarde acariciarem meu rosto enquanto uma brisa indecisa ia e vinha, rolava ao meu redor, por dentro de minhas roupas e através do meu cabelo. Passei perto dos bois indiferentes, com o coração aos pulos, evitando aproximar-me dos bezerrinhos e suas mães bravias, e das moitas de malícia, cujas folhas quando tocadas se fecham de timidez, que na minha opinião era seu nome verdadeiro. Os fios dos postes de luz estavam coalhados de rolinhas gordas tomando banho de sol, algumas com as cabeças afundadas entre as penas. Outras, com olhos sonolentos, arrulhavam de preguiçoso prazer.

Atravessei a estrada que seguia para o leste e prossegui na que avançava com uma faixa de mato baixo no meio. Outro caminho possível seria seguir as trilhas que começavam em volta do Sombreiro, a oeste. Era uma árvore frondosa de galhos macios que se abriam quase horizontalmente, na qual às vezes eu subia. Ficava pensando e observando através da folhagem a minha casa adormecida ao sol, de onde às vezes minha mãe surgia como uma lagartixa de seu esconderijo. Sob a árvore o chão era úmido e o ar era fresco. As trilhas que partiam dali passavam pelas goiabeiras e pelas mulheres que lavavam roupa contra as pedras do rio caudaloso onde eu e meu pai às vezes passávamos o final da tarde, com a vara de bambu na mão e o anzol na água mas pouco importunados pelos peixes.

Continuei dando passadas firmes pela estrada do norte. À noite ela era muito escura e os bois costumavam se sentar imóveis à sua margem, com um brilho sobrenatural nos olhos. Colhi algumas goiabas ao acaso – eram muito pequenas, além de estarem verdes – e guardei-as no bolso como um aventureiro que pode precisar de provisões mais adiante. Atingi a Casa-Grande, que meu pai havia cedido aos seus desde que tinham vindo morar no Engenho. Vovô, um velho robusto e lúcido, apesar de inflexível, que comia miolos de bode no prato de seu crânio, estava sentado no terraço com uma das pernas por cima do braço da cadeira, absorto na observação de algo no pomar ou, o que é mais provável, na paisagem de suas lembranças, os olhos pequeninos por trás das espessas lentes dos óculos.

Ouvi vovó chamá-lo lá de dentro, onde era sombrio e friorento, a seu modo característico, com a voz fraca e angustiada, mas exigente. Ao contrário do consorte, sua saúde era frágil e mesmo sua mente começava a dar sinais de declínio. Vovô passou as mãos no cabelo grisalho, porém denso e macio, resmungou e levantou-se num solavanco para atender ao chamado. Acenou ao ver-me e perguntou se eu estava indo passear. Assenti com um sorriso lacunado, pois os dentes de leite andavam caindo, ao passo que ele mantinha suas presas de marfim, fortes e quadradas. Não é para menos. Seu pai, meu bisavô – ou seria seu avô? – tinha uma proverbial dentição de cavalo, com a qual descascava cocos sem ajuda de outra ferramenta, ou ao menos é o que reza a lenda familiar acalentada ainda hoje.

Deparei-me ainda com o boi triste que estava sempre afastado dos demais, manso de se botar criança pequena no lombo sem medo e que quando acariciado entre os chifres corriam-lhe lágrimas, como lembro de ter testemunhado. Era boi de carga, capado, naturalmente. Pouco à frente a estrada do norte minguava até desaparecer. A partir dali eu deixava meu reino doméstico e adentrava um território selvagem, por mais que escrituras às quais a natureza é alheia dissessem que eu era seu herdeiro. Isso foi o próprio mundo quem me segredou.

Meus passos agora amassavam de leve o tapete vivo que alimentava os bois e medrava durante a madrugada, sempre pronto a ressuscitar quando chovia após uma longa estiagem. Passei pelo Açude Pequeno, onde certa noite eu havia pescado uma traíra muito grande para a minha idade, pelo que me disse o meu pai. Vitórias-régias flutuavam lá no meio e nas partes rasas crescia um mato aquático, com as hastes pejadas de montículos róseos, colônias de ovos minúsculos e gelatinosos depositados, cria eu, pelas libélulas que voavam e pairavam logo acima da superfície da água, tocando-a de quando em quando com a extremidade de seu abdômen dolorosamente alongado. Observei que sem as suas grandes asas – e as patinhas diminutas – deveriam parecer minhocas, assim como as tanajuras não passavam de formigas desproporcionalmente bundudas.

Três ou quatro jaçanãs, em partes diferentes do açude, pescavam iguarias invisíveis. Erguiam muito suas longas pernas ao andar na água. Vez ou outra, a exemplo das garças, de quem devem ser primas interioranas, imobilizavam-se no meio de um passo e equilibravam-se numa perna só por alguns, às vezes vários segundos enquanto a outra mantinha-se suspensa, os dedos dobrados e gotejantes, até que com a velocidade de um raio, qual estátuas desencantadas, capturavam o que quer que fosse que constituía sua dieta. Depois avançavam mais alguns passos e tornavam a se interromper, suas vidas entrecortadas. Não obstante, uma das jaçanãs começou a correr com elegância, chapinhando no raso. Ergueu-se no ar molhando as pontas das asas, que rebrilharam, espargindo umas gotas douradas. Atravessou todo o açude num vôo rasante, esforçoso, e ganhou altura na margem oposta, distanciando-se, as asas translúcidas contra o céu azul, o peito avermelhado em contraste com a cabeça negrejante.

Os tetéus, cujo canto breve e enérgico como um sinal de alerta conferiu-lhes esse nome, haviam escavado a terra escura e molhada da margem ocidental, onde cresciam gramíneas ralas, e depositado ali seus ovos que se não me trai a memória são azuláceos. À noite eles costumavam passar em bando sobre minha casa. Parece que voavam alto e era difícil distingui-los contra o céu noturno, restando-me identificá-los pelas estrelas que se apagavam quando se interpunham a elas. Em todo caso eu sempre perdia a pista antes que seu alarde inconfundível se diluísse na distância. E bastou que eu me agachasse a fim de examinar melhor uns ovos desses para que uma mãe atenta se precipitasse furibunda não se sabe de onde e passasse como uma flecha junto ao meu ouvido, para logo em seguida atestar a eficácia do método vendo o pálido primata distanciar-se através da planície, correndo o mais que podia.

Fosse como fosse, aquele não era meu destino, e fugir nem sempre era motivo para vergonha, como eu recordava de ter aprendido numa passagem de um paradidático em que um herói bravo e astuto escapava de uma ilha onde morava um gigante de um olho só, após tê-lo deixado sem nenhum. É verdade que eu não despojara a mãe tetéu de um só de seus ovos, mas de que me valeria isso? Minha aventura era o seu próprio objetivo. Detive-me. Minha casa, a de vovô e vovó, as dos empregados, todas as casas pareciam-me longínquas no espaço e no tempo, não só no passado como também no futuro, com um jeito de que meu regresso estivesse irremediavelmente distante e me reservasse obstáculos obscuros.

Mas eu não podia desanimar. Precisava cumprir meu destino, como fazem os heróis, e o meu destino era o Açude Grande. Tendo me afastado mais do que imaginara em minha debandada, também o avistei mais rápido do que supusera. A brisa gerava milhares de pequenas ondas cintilantes. Entretanto ali não havia aves e ovos coloridos, nem libélulas ou vitórias-régias. Apenas erguia-se do meio da água uma árvore morta, lançando-se verticalmente no ar, os galhos nus e retorcidos como braços convulsos estendidos para o céu numa súplica. Deram-lhe o nome adequado de Garra do Diabo. No que fora um dia sua copa saltitavam pardais marotos como pulgas num cadáver. A parte visível do tronco era longa e delgada. Começava escura, pois o período de estiagem deixara à mostra uma faixa estreita que geralmente permanecia submersa, mas o restante empalidecera após anos de exposição ao sol.

menino preto

As águas que iam passando impelidas pelo vento tomavam-lhe emprestada a imagem. O reflexo oscilava como uma miragem, os galhos semelhando serpentes, qual os cabelos de uma mulher que vira em outro paradidático, os pardais transformados em borrões indistintos que por um instante podiam ser confundidos com pomos escuros. Sim, em seu movimento inconsciente o reflexo tinha mais vida que o fóssil ressequido que o projetava, monumento à própria decadência. Aqueles galhos quebradiços haviam ostentado folhas e frutos, alimentado pássaros e morcegos, uma infinidade de insetos. Um dia fluíra através deles a seiva verde-hialina que os lançava em direção ao sol. Mas um açude, vocês sabem, é um reservatório artificial e não uma obra da natureza. Aquela árvore fora condenada à morte, o que lhe dava o aspecto de um inocente que protesta, de um herege que se lamenta cercado pelas chamas e ao mesmo tempo de um mártir em êxtase no momento de sua santificação, e ao seu duplo na água o de uma assombração persistente.

Como vovó, que fora uma senhora esguia, altiva, e agora debruçava-se sobre seus próprios joelhos numa cadeira de rodas, a árvore definhara lentamente, afogadas as raízes. Seus dotes escassearam, seus convivas foram alegrar outras paragens, mais fartas, sem o menor remorso. Observei as nuvens flutuando, plácidas, admirei-me da grandeza do céu como se ele fosse maior ali. Senti que havia algo de triste em estar vivo, talvez porque não houvesse tempo o bastante para solucionar as coisas já que a mais insolúvel de todas elas era a morte. Imaginei que eu deveria ser engraçado visto do alto, ou, por assim dizer, de fora, como um personagem.

Havia sentado na beira do Açude Grande qual um aventureiro que decide interromper sua jornada para um breve repouso, embora soubesse que demandar a Mata seria uma desobediência frontal às recomendações de minha mãe. Ali, de fato, não seria improvável encontrar cobras. Percorria-me uma indistinta sensação de angústia, solidão, perigo e liberdade. Ventava a gosto agora. Os onipresentes pardais começaram a abandonar os galhos da árvore defunta. Tirei uma das pequeninas goiabas do bolso e mordi-a com força, simulando uma fome de náufrago. Como não gostei muito, joguei-a na água. Estiquei as pernas – havia carrapichos por toda parte nas barras dobradas da calça – e apoiei-me nos cotovelos. Senti um gosto de sangue na boca e um certo ardor na gengiva. Lá ia meu dente da frente encravado na polpa rósea da goiaba que flutuava em meio às ondas como uma nau à deriva, o casco esburacado. Não sei se aquilo apenas me surpreendeu ou se eu sorri ainda mais banguelo.

Contemplei o tempo. Ruminei minha preocupação por não ter ainda beijado os lábios de uma menina, por não saber amarrar meus próprios cadarços, e as duas coisas perturbavam-me com a mesma intensidade. Fantasias proibidas brotaram em minha mente. Meus mais primitivos devaneios sexuais eram promíscuos a tal ponto que eu enxertava seios entrevistos nos peitos batidos das colegas da escola, e o corpo, é claro, reagia. Eu não sabia ao certo o que fazer com ele, embora presenciar os bois cobrindo as vacas pudesse ter me levado a deduzir algo. Mas eu gostava daquela menina magriça e misteriosa, de olhos negros e esquivos, cabelos muito longos, também negros, às vezes dispostos numa trança única. A essa pelo menos eu devotava todo o meu idealismo.

A goiaba com seu insólito mastro já estava mais próxima da margem oposta e os galhos da árvore seca estavam vazios quando um pássaro de vôo soberano, e não frenético como o dos pardais, aproximou-se batendo as asas silenciosas. Pousou num galho alto e permaneceu imóvel. Era o pássaro mais impressionante que eu já vira. Seus olhos penetrantes mantinham-se fixos em algum ponto distante de seus vastos domínios, o bico era curto e recurvo, pontiagudo na extremidade, com duas minúsculas narinas no alto – como se vê, eu ainda não era míope –, sua postura era nobiliárquica, o peito estufado, as garras poderosas, e as penas enfunadas faziam com que parecesse ainda maior e mais imponente.

Sem que eu me desse conta a tarde ia sendo empurrada contra o abismo da noite. O vento esfriara e soprava com força para os morros do leste, onde ficava o Canavial. O verde predominante da paisagem esmorecera e aos poucos submergia numa tonalidade azulenta. As sombras se alongavam sobre as faces dos montes e aos pés das árvores, gerando inescrutáveis zonas de obscuridade que logo se estenderiam, tocariam e engolfariam o mundo. Com um crocito imperioso, o pássaro, que já não passava de uma silhueta, anunciou sua partida e desapareceu em direção ao abrigo da Mata.

O vento rouco agora parecia hostil, partia galhos da árvore, quebrava as unhas da Garra do Diabo. O velho tronco rangia parecendo prestes a romper-se e o seu reflexo ainda distinguível se retorcia como uma serpente atirada às chamas, já que a água se crispava em ondas inverossímeis. Dando-me conta de meu abandono, senti-me bruscamente alarmado, como se tudo estivesse prestes a se consumir na escuridão. Eu precisava escapar antes que fosse tarde. A esse pensamento tive a sensação de ouvir meu nome pronunciado em meio aos interstícios da própria ventania. Olhei ao meu redor e não havia ninguém, ou havia e não estava ao alcance de meus sentidos, o que era ainda pior. Escutei o chamado uma segunda vez, e receei que aquela fosse a voz da Mata, tentando aliciar-me, hipnotizando-me como a naja a um instante de aferrar a presa. Na terceira vez me pus a correr. As sombras rastejavam ameaçadoras aos meus pés; agora tudo eram serpentes, contra as quais minhas botas nada podiam. Temi que minha casa, os lugares e pessoas conhecidos não estivessem mais ao meu alcance, que eu estivesse extraviado para sempre, fadado a vaguear num mundo evanescente e precário. Já sufocava de horror quando avistei a estrada que morria engolfada pelo pasto no começo do norte. Corri como um louco, sem conter a alegria, o alívio e a ansiedade de estar logo em segurança.

Ao alcançá-la minhas pernas já não me obedeciam, mas continuei andando apressado, quase trotando, levado por elas, por assim dizer. Quando passava em frente à casa dos meus avós, entretanto, escutei meu nome ser chamado ainda uma vez, agora com clareza suficiente para que não restasse dúvida. Havia alguém sentado no terraço, oculto na penumbra. Não sei se encorajado pela familiaridade do terreno ou enfeitiçado pelo próprio medo, abri o portão e fui caminhando sobre as folhas secas, afugentando lagartixas e calangos, os morcegos que voavam ao redor do sombreiro, onde uma coruja alternava os olhos, tirando fino de mim. Estranhei que vovó estivesse sentada na mesma cadeira que vovô ocupara mais cedo, sozinha ali fora sem agasalho e sem companhia, com as portas e janelas fechadas, e o que era mais desconcertante, com as luzes ainda apagadas na boca da noite. Sem falar nada, convidou-me com um gesto a sentar-me a seu lado. Obedeci e acomodei-me timidamente na cadeira que indicara.

Ela ficou algum tempo olhando para frente. Pareceu-me magra e alta, ou talvez eu é que fosse muito pequeno. Sua pele era muito alva, delicada, e com o tempo adquirira sinais e manchas, além de pequeninas feridas que nunca cicatrizavam, mas só de perto a intrincada teia de rugas finas em que estavam encrustados era perceptível. Seus olhos eram límpidos e conservavam um leve ar de riso, resquício de uma personalidade matreira, capaz de memoráveis presepadas, por exemplo colocar a calcinha usada sobre as narinas do marido adormecido. Como tudo nela, moviam-se com vagar, e quando os volvia para mim eu ficava inquieto como quem está sendo visto na nudez de seus sonhos e suas misérias. Senti-me desconfortável e receoso, porque não havia ninguém por perto e ela não falava nada.

– Cadê vovô? – perguntei.

– Tá na garagem fazendo as besteiras dele. – disse ela com um azedume bem-humorado e apontou para lá com um gesto desdenhoso. Sua voz não estava entrecortada como sempre, nem ela tossira ainda. Parecia estar especialmente serena naquele fim de tarde.

Lembro-me da garagem, mas nunca de ter visto um carro lá dentro. Era um aposento separado da casa, escuro, empoeirado e com cheiro forte porém indefinido, próprio. Servia de almoxarifado. Lá ficava o velho barquinho de alumínio, encostado na parede, os dois remos ao lado. Um dia meu pai levara a mim e minha mãe para remar entre vitórias-régias no Açude Pequeno. Havia também a pequenina cópia de um Van Gogh no qual eu não achava muita graça, com grandes flores alaranjadas num vaso e um fundo amarelo-claro. No momento, nenhum ruído vinha de lá, o que não era condizente com vovô estar fazendo suas besteiras.

Notei que vovó olhava para mim com um sorriso etéreo. Sua expressão tinha algo de jovial, e eu sabia que seus olhos tão calmos podiam também ser implacáveis. Suas feições não são tão claras em minha memória, mas certamente há algo delas em mim. Ela percebeu o volume em meus bolsos.

– O que é isso? – perguntou.

– É goiabas.

– Vai dar de presente pra namorada?

– Eu não tenho namorada… – repliquei, sorrindo todo encabulado, e fiz que olhava alguma coisa no pomar, à moda de vovô.

Depois ela se virou para a frente outra vez e ficamos em silêncio por mais algum tempo. Parecia-me que o dia, atingido o seu cume, equilibrava-se no alto e a noite se retardava, terminando de pendurar estrelas nos bastidores. Junto ao muro e quase em frente, os três altos eucaliptos de troncos pálidos e sempre feridos, sangrando resina, murmuravam em seu próprio idioma e faziam rapapés uns para os outros, como velhos lordes esclerosados,  fingindo ceder passagem a despeito da impossibilidade de se deslocarem, apenas bonecos brincados pelo vento. Finalmente, vovó perguntou como ia minha mãe, pois fazia alguns dias que não a via.

– Vai bem. – respondi, lacônico.

– Diga a ela que cuide bem de meu filho.

– Tá.

– Vá, vá que já é tarde. – disse vovó, reparando em minha inquietude.

Escorreguei da cadeira, satisfeito por ter sido liberado, quando ela, que nunca fora dada a efusões, me colheu num abraço suave como uma precipitação de plumas e me deu um beijo nos cabelos.

– Feliz aniversário. Vovó te ama. – disse ao pé de meu ouvido, e seu hálito não era enjoativo como eu imaginava, mas fresco como se ela tivesse mascado um pedaço da casca daqueles eucaliptos. Talvez tivesse escovado os dentes pouco antes…

– Brigado. Tchau, vovó. – o embaraço da situação alvoroçava-me, e esquecia-me que deveria reencontrá-la logo mais, em minha festa, se é que a saúde lhe permitiria.

– Tchau, meu filho. – ela ainda sorria, só com os olhos.

Atravessei o quintal pensando no pássaro. Algumas semanas mais tarde meu pai explicou-me que era um gavião e que eu podia encontrá-lo no mesmo lugar quase todos os dias, mais ou menos na mesma hora. Ali era um de seus postos de observação. Estava fechando o portão pelo lado de fora, quando vovó me interpelou pela última vez.

– Quantos anos você fez, meu filho?

– Sete. – respondi, e saí, sempre pensando no gavião.

Ao me voltar, dei-me conta de que os bois já estavam sentados na beira do caminho, seus olhos fixos, fosfóreos, os corpos como sombras imóveis, a não ser por um ou outro agitar ameaçador das cabeçorras, que os chifres prolongavam e as papadas refletiam. Não havia mais rolinhas nos fios, mas, ocultos pelo lusco-fusco, os grilos e os sapos convocavam uns aos outros para o concerto de logo mais. Decidi cruzar a zona escura que me separava da estrada do leste, que por sua vez me conduziria ao início da estrada do norte, já além da aglomeração bovina. A travessia em meio às trevas me pareceu longa, e talvez tivesse sido ainda mais penosa se não me servisse de farol a luzinha acolhedora da casa de um empregado junto ao Bosque dos Pés-de-Manga. Nas águas escuras do Açude Pequeno tive a impressão de ver surgir e desaparecer um par de olhos luminosos. Minhas pernas se apressaram por vontade própria.

Quando ressurgi já nas proximidades da estrada do leste, o cachorro da casa do empregado pegou a latir para mim. Já começava a descer a encosta vindo em minha direção, e eu a sentir o bolo do choro subir pela garganta, quando a porta se abriu e a silhueta de um homem se desenhou contra o retângulo amarelo. O cão avançou à sua frente e ele o seguiu, acendendo uma lanterna. De onde estava não me movi. Quando o facho incidiu em meu rosto e o cachorro já avançava afoito, o dono o repreendeu rispidamente, quebrando-lhe o ímpeto, e pela voz o reconheci. Funcionário particularmente confiável de meu pai, tinha justificada fama de macheza por episódios como aquele em que abatera a faca um lobo-guará que o surpreendera num lugar ermo.

Veio até mim cumprimentando-me e voltando a lanterna para o relógio enquanto o cachorro pulava ao meu redor, cheirando-me e lambendo-me, o rabo frenético. Falava manso, baixo e até fino, mas com tal ligeireza que era como se o fizesse num dialeto de passarinho. Sem entender patavina e sentindo sua mão amistosa mas inapelável pousar em meu ombro, apenas me deixei conduzir, observando que ele de fato levava uma faca de cabo vermelho e preto na bainha. Como o vira-lata ainda fizesse festa ao meu redor, comecei a ter vontade de alisá-lo. Compreendendo que ele era tão radical em sua estima quanto em sua hostilidade, essa última apenas o instinto de preservação dos que lhe eram caros acima da sua própria, senti-me dignificado.

A casa tinha por grotesca moldura as copas escuras das mangueiras. Em seu interior me impressionaram a precariedade e a nudez que de fora não se adivinhava. À débil luz de uma lâmpada  viam-se rachaduras e manchas, e na ausência de forro as telhas úmidas e repletas de fungos verdes se ofereciam aos olhos com despudor, de modo que ainda me senti parcialmente ao relento. Sem embargo disso, seu proprietário – ou o proprietário era meu pai? – comentou com orgulho que ali a cheia não chegava. Não sei se nesse caso seus gestos me ajudaram a compreendê-lo ou se dentro de seus domínios sua dicção se desacelerara. Não havia sofá, apenas uns escassos móveis angulosos, ossudos.

A única nota de fausto era dada pelas peles de caças diversificadas estendidas nas paredes. Entre uma de quati e uma de jacaré identifiquei uma de pêlos avermelhados que bem podia ser a do lobo-guará, na verdade uma feroz parturiente que segundo o relato mais popular se erguera nas duas patas na hora do ataque com o fim de derrubá-lo e abocanhar-lhe a garganta, abrindo-lhe a jugular, do que davam testemunho outros casos menos felizes. Procedendo assim, entretanto, tornara-se vulnerável, permitindo que o valente capataz, já sendo atirado ao chão, lhe plantasse no fértil ventre a lâmina letal. Incluía-se a título de apêndice o comentário de que o protagonista da estória sentia muita pena de ter tirado a vida a um animal tão raro, bonito e orgulhoso, e conseqüentemente à sua prole, sendo essa a única peripécia sua da qual não se orgulhava, embora não pudesse igualmente se arrepender, uma vez que também tinha filhos para criar, o que apenas contribuía para fortalecer a sua aura de justiça e coragem, tão necessária a alguém no seu cargo.

Ele me anunciou e pouco depois sua mulher apareceu enxugando as mãos no vestido e dirigiu-se a mim com um misto da indulgência dos adultos para com as crianças e da deferência dos empregados para com os patrões, ensaiando um tímido afago sem mal tocar-me os cabelos. Perguntou se eu estava com fome e assenti sem atinar que isso significava aceitar um convite para a janta. Fui conduzido a um banheiro para lavar as mãos antes de comer e depois a uma mesa feita sob medida para uma família numerosa. De fato, ao seu redor dispunha-se uma penca de meninos sem camisa e meninas de vestido que inexplicavelmente não pareciam ter mais que dois ou três anos de diferença entre si. Eram todos mirradinhos, de clavículas salientes, e pelo modo como me olharam tive a incômoda sensação de que já me conheciam embora a recíproca não pudesse ser menos verdadeira.

Aboletei-me no lugar que já fora reservado para mim ao lado da cabeceira e vi com um princípio de escândalo uma sopa com um pedaço de osso ao qual se agarravam outros de carne ser colocada em meu prato. O silêncio cedeu lugar ao tilintar das colheres, mas eu sabia que os meninos continuavam a me observar e quando não podiam conter o riso abaixavam a cabeça, chegando a escondê-la debaixo da mesa. Minha apreensão crescia à medida que o nível do líquido baixava e se aproximava a hora de ter que comer a parte sólida. Antes que isso acontecesse, entretanto, o chefe da família, depois de ter-lhe sugado o tutano, jogou o seu osso para o cachorro, que o recebeu com ânimo moderado, mais como um brinquedo para enganar a fome.

Julgando ter encontrado a solução para o meu impasse, ergui o osso da sopa, sopesei-o solenemente e atirei-o afetando o mesmo desprendimento do meu modelo. O vira-lata se atirou sobre o inesperado manjar com ânsia. Todos os meninos, e mesmo sua mãe, me olharam com espanto, e compreendi que tinha cometido uma gafe. Como o próprio pai, entretanto, esboçou um certo ar de riso ao ver o cachorro se deliciar com sofreguidão, um dos meninos quis repetir o gesto, mas ele o recriminou com um único olhar, quebrando-lhe o ímpeto, e a refeição retornou à sua quietude habitual.

Depois que os pratos foram recolhidos, a mãe nos trouxe outro, grande e raso, repleto de mangas fragrantes. Os meninos esperaram que o pai escolhesse a sua com toda a tranqüilidade e depois se atiraram sobre elas numa silenciosa disputa. A mãe reclamou com eles e perguntou se eu não queria. Aleguei já estar satisfeito. Para meu deleite e estremecimento, o pai sacou a faca de cabo vermelho e preto e começou a descascar sua manga com desinteressada minúcia. Sua ponta era aguçada e seu feitio diferente do das facas comuns; sinuoso e elegante, despertava fascínio. Notava-se o quanto era amolada pelo modo como deslizava sob a pele do fruto quase sem ser pressionada. Percebendo meu interesse, ele a firmou na mão direita, limpou os dois lados da lâmina na borda do prato e passou-a para mim, tomando o cuidado de só soltá-la completamente depois que a retive. Pesava como chumbo, tivesse bebido o sangue das vítimas. Devolvi-a com reverência. Depois que o chefe da casa degustou sua sobremesa e voltou a consultar o relógio, dispôs-se a me levar embora. Quando me despedi de sua família, uma das meninas, que me espantaria saber ter quase o dobro de minha idade, dirigiu-me um vivo olhar antes de promessa que de despedida, embora na ocasião eu não o soubesse.

Assim que saímos, avistei os contornos de minha própria casa, num nível mais baixo, perfurados por dois retângulos amarelos estranhamente vacilantes, um a janela, outro a parte de cima da porta de duas folhas, eu bem sabia. Só então me cientifiquei de que havia esquecido por um bom tempo, desde que a noite caíra, quão especial era aquele dia. O cachorro nos acompanhou durante o breve trajeto, sempre saltitante e eufórico, e tive a certeza de que havíamos nos tornado camaradas. Quando fomos chegando, estranhei que as caixinhas com motivos de super-heróis – como os do quebra-luz em meu quarto –, ainda não tivessem sido dispostas sobre as mesinhas, que por sua vez permaneciam empilhadas num canto do terraço. Me dei conta de que isso podia muito bem se dever a minha ausência, e pensei com preocupação que meus pais deviam estar preocupados comigo. Estava prestes a abrir a porteira, mas o funcionário de meu pai me reteve premindo de leve o meu ombro, em que sua mão estivera pousada durante o caminho, e bateu palmas compassadas.

Dessa vez foi a silhueta de minha mãe que se desenhou dentro da moldura da porta, lançando uma sombra indevidamente bruxuleante. Ela deu alguns passos indecisos, quase cambaleando, mas assim que o empregado se anunciou e me identificou, abrindo ele mesmo a porteira, lançou-se numa corrida aflitiva, posto que a saia longa restringia-lhe os movimentos. Já agora em minha defesa, o cachorro pôs-se a latir, e eu mesmo o repreendi, quebrando-lhe o ímpeto. Minha mãe me abraçou, dizendo que eu nunca mais fizesse uma coisa daquelas, nunca mais fizesse uma coisa daquelas. Estivera chorando. Pôs-se a agradecer ao fiel capataz, sem no entanto se desapartar de mim, e pediu-lhe que fosse procurar meu pai, que saíra para me procurar. Eu disse que queria ir junto, e não foi a ardente negativa de minha mãe que me dissuadiu, mas a assertiva do célebre algoz da loba de que eu precisava ficar para cuidar dela. Começava a decodificar sua linguagem e a falar no seu código. Despedi-me do cachorro e estendi a mão ao meu outro novo amigo, apertando a sua com a mesma suave firmeza que lhe era característica. Desapareceram na escuridão, mas o vira-lata ainda olhou para trás por três vezes.

Afastando-se um pouco de mim, minha mãe olhou nos meus olhos, e fiquei assustado como quem pressente o limiar do desconhecido. Irrompeu na sala uma cantilena arrastada e monótona, a antítese da canção esperada para a ocasião. Por que já estavam à luz de velas antes mesmo de minha chegada, em vez de esperar a hora do parabéns? Desvencilhei-me e avancei para a entrada; a primeira coisa que vi foi vovô com os olhos – e os óculos – rasos d’água, assoando o nariz no seu indefectível lenço. As pessoas, terços e bíblias nas mãos, estavam reunidas ao redor da mesa em que deveria estar meu bolo de chocolate com sete velinhas e onde em vez disso repousava um caixão do qual sobressaía o pálido porém sorridente semblante de minha avó, como se ela saboreasse uma derradeira presepada.


Autor: João Paulo Parisio. Ilustradora: Fabiana Miraz.

João Paulo Parisio é autor dos livros: “Esculturas Fluidas” (poemas, 2015) e “Legião Anônima” (contos, 2014), ambos pela CEPE. Tem publicações em antologias e jornais literários, entre os quais o Rascunho, de Curitiba, e o Suplemento Pernambuco. Entre 2008 e 2010, idealizou e editou a revista artesanal Pensamento. Criou recentemente o blog Fábulas Árduas – fabulasarduas.blogspot.com. Já esteve entre os vencedores de alguns concursos literários, incluídos o Prêmio Cidade de Belo Horizonte de Dramaturgia, o Concurso Nacional de Contos Cidade de Araçatuba, o Prêmio Cataratas e o Concurso Comemorativo do Sesquicentenário da Biblioteca Pública de Pernambuco. No Twitter, @JPParisio. Nasceu em Recife a 4 de setembro de 1982 e vive em Jaboatão dos Guararapes, também  Pernambuco.

Fabiana Miraz é doutoranda em Literatura Comparada pela UNESP. Desenvolve trabalhos com artes plásticas desde 2000, com exposições de pintura e desenho. Idealizou e promoveu, na área da educação, o projeto “Criança Arteira”, que visava a exposição de auto-retratos pintados por seus alunos. Trabalha com ilustração de livros infantis desde 2001.


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