De noite, na praia

– Que assombração, o quê?!?! Essa bobagem não existe! Como é  que vocês perdem tempo como essas histórias?

Carlos sempre soltava frases assim quando alguém lhe falava de coisas sobrenaturais. A reclamação acima, em particular, ele proferiu durante a noite na casa de praia onde passava uma semana de férias na companhia de colegas da faculdade. Acabado o repertório de piadas, a turma resolveu fazer uma rodada de causos de fantasma – cada um ia contar a seu, como ficou combinado. Carlos, é claro, ficou de fora da brincadeira. Deixou os amigos, a namorada, e foi caminhar na praia, sob a luz da lua.

Vinha de pés descalços, sentido a areia da úmida. O rosto era tocado por uma brisa morna que fazia roçar, unas nas outras, as folhas das palmeiras. No céu sem nuvens, a lua ofuscava com seu brilho quase toda a luminosidade das estrelas. Passava um pouco da meia-noite. Fechou os olhos para deixar que os outros sentidos captassem a tranquilidade daquele instante. Quando tornou a abri-los, sentiu um inesperado calafrio lhe percorrer a espinha.  A brisa morna fora trocada por um sopro gelado e os sons ao seu redor quase cessaram. Nada do gemer das folhas dos coqueiros, nada do bater compassado das ondas – o mar naquele momento parecia mais um plácido lago.

Carlos retomou a caminhada e notou um vulto que se aproximava. Na penumbra, a figura de um homem se distinguia. Era alto e usava camiseta e bermudas escuras. Andava a passos lentos, com se sofresse uma grande dor. Pensou em desviar o caminho. Mas o cara estava vindo da direção para onde ele precisava seguir. Continuou com passos firmes para apressar o encontro inevitável. O homem misterioso também apertou a marcha.  A menos de um metro, ele  segurou Carlos pelos ombros e o sacudiu com força.

– Me ajuda, cara! Tô perdido! Como é que saio dessa?

Ficou paralisado de pavor ao ver o rosto do sujeito: amarelado, todo inchado e com olhos esbranquiçados que não tinham íris! Carlos tentou gritar, mas faltou-lhe a voz. As mãos frias do homem o seguravam com firmeza, mas ele conseguiu se desvencilhar e sair correndo. Metros a diante, tropeçou num tronco e se espatifou na areia. Quando se levantou, ainda atordoado, percebeu que a noite havia voltado ao normal. A brisa morna soprava de novo, as ondas já quebravam na areia, o som dominante era, mais uma vez, o farfalhar compassado das folhas dos coqueiros.

Carlos seguiu cambaleante até a casa, onde todos dormiam. Aconchegou-se na cama, junto à namorada, e não conseguiu pegar no sono. Passou o resto da noite angustiado, suando frio. De manhã, levantou antes que todo mundo e saiu pela praia. Voltou ao local exato onde ocorrera aquele encontro surreal. Teria sido só uma espécie de pesadelo? Viu um pescador chegava numa pequena jangada. Assim que ele pisou na areia, Carlos lhe fez a pergunta:

– Olha, onde eu vi um cara que parecia estar um aperreio sério, sei lá. Parece que estava doente ou passando mal. O senhor sabe quem é?

O pescador de cabelos grisalhos respirou fundo antes de responder.

– Não foi ninguém deste mundo, não, amigo, O que você viu foi um surfista que sumiu nesse mar já faz uns anos. O corpo do camarada não foi achado nunca. Ficou sem enterro, sem missa. Por isso ele anda por aqui, incomodando os vivos. É o que dizem…

Carlos nem esperou o resto da explicação. Correu para a casa, acordou a namorada. Saíram sem se despedir dos colegas. Nunca disse a eles porque foi embora antes do previsto. Guardou segredo sobre o caso há até pouco tempo.

Contado por J. L. Munguba

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