Depois do Enterro

cemitério

Chama-se Norberto o coveiro que me relatou este curioso episódio. O nome da cidade do interior onde tudo aconteceu, ele me pediu para não revelar. Mas posso apenas dizer que é um município pequeno da Zona da Mata de Pernambuco, cercado por vastos tapetes verdes de cana-de-açúcar. Em 1975, meu informante ainda era aprendiz no ofício funerário. E, como todo aprendiz, foi incumbido pelo “coveiro-mor” das tarefas menos nobre. Nunca participava do sepultamento de morto rico, quando surgiam gordas gorjetas. Estava sempre ocupado com a conservação da necrópole e vez por outra é que enterrava algum indigente.

Numa tarde quente de dezembro, tiraram Norberto de um cochilo sob a proteção de um frondoso jambeiro para um desses trabalhos maçante. No bilhete escrito à mão, o prefeito solicitava tratamento adequado para o corpo daquela pobre senhora levado por funcionários da municipalidade – eleitores fiéis eram sempre recompensados de alguma forma, sabia o coveiro. Enquanto abria a cova, ouviu de um dos barnabés a história da finada. Dona Deda morava num das tantas casinhas da periferia. Negra miúda de aspecto centenário, não era de muitas palavras, mas tinha o respeito da comunidade. Vivia sozinha há décadas, não tinha parentes e não sabia precisar a idade. “Minha mãe se criou na senzala do engenho”, repetia ela aos curiosos. Ficava horas a fio pitando um velho cachimbo, sentada num banquinho e fitando o horizonte com um olhar meditativo.

Um dia os vizinhos sentiram a falta de Dona Deda na sua pose habitual. De dentro da casinha trancada, ela não respondeu aos gritos e palmas. Um vizinho mais afoito arrombou a porta frágil e encontrou a velhinha deitada na cama. Estava quieta, serena, sem respiração. Um descanso merecido, todos concordaram. Morrera durante o sono, um final digno para os justos. Alguém mais solidário foi pedir ao prefeito um enterro decente, mas ninguém quis acompanhá-la na derradeira despedida.

“Velha valente”, pensou o coveiro. “Penou só até na hora da morte”. Por causa do enterro de Dona Deda, Norberto teve que ficar até mais tarde no cemitério. Já era noite quando acabou todo o serviço de limpeza do lugar. Lembrou o longo caminho de volta para casa. E, com a ajuda de um velho cobertor, aconchegou-se ao lado do jambeiro amigo. Lá para as tantas, o coveiro foi acordado por um gemido distante, abafado. Mesmo arrepiado de medo, acompanhado de uma vela juntou forças para procurar a origem do ruído.

As pernas tremiam ao caminhar entre os túmulos e o barulho estava ficando cada vez mais perto. Apurou a audição e constatou que o lamento vinha do lote da nova moradora. Pensou em correr, mas falou mais alto o profissionalismo: coveiro frouxo morre de fome. Repetindo velhas orações, cavou com rapidez. Depois da primeira camada de terra, viu surgir uma mão suplicante. Com o berro de horror travado na garganta, puxou para fora da cova a velha que parecia tão viva quanto ele.

E Dona Deda foi logo tirando os chumaços de algodão do nariz e resmungando:

– Vôte! Que agonia desse povo. É um vexame pra fazer as coisas! Num tá vendo que não chegou a minha hora…

E saiu arrastando os pés até desaparecer na escuridão.

A notícia da ressurreição foi levada pelo vento a cada esquina da cidadezinha. Norberto nem teve tempo de contar a ninguém, pois todos foram ver Dona Deda pintando cachimbo sentada no banquinho.

Contado por Arlindo Norões

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