A Encantada do Pina
Por Sérgio Paulo de Mello Feitosa
O Pina é um bairro riquíssimo em histórias,
considerado por alguns escritores como uma das povoações mais
antigas do Recife. De fato, situa-se num local quase de inevitável
ocupação, dada sua condição de estar entre o mar
e o extenso e largo braço do rio Jordão. Neste querido bairro,
tive uma infância quase perfeita, meus pais inclusive moram ainda na
mesma casa, ocupada desde 1972.
Ali, também me veio uma fértil adolescência, com minha
turma e bagunças. Durante esses anos, minha casa era uma verdadeira
festa que não parava. Um "point" para a garotada da rua,
como se diz hoje. Nestes encontros, diários, num certo período,
o fim da noite normalmente era encaminhado para o “fantástico”
e todos se esforçavam para contar a melhor história ou a história
mais assustadora. Até que um dia, não recordo exatamente quem,
falou:
- Roberto, conta agora o que aconteceu estes dias com
teu pai.
Todos se voltaram e o apontado em questão titubeou,
quase engasgou e disse:
- "...acho que todos
sabem.
Não nem todos sabiam e eu era inclusive um deles.
Será que mais uma assombração estava fazendo das suas
aparições pelo bairro? Não era suficiente que bem próximo
dali, surgisse em noites de lua pelos mangues, a Encantada, que deu nome inclusive
a uma rua ainda hoje existente lá? Não era outra. Ele começou
e disse:
- "Não riam. Pai está bem abalado
com o que aconteceu.
Seu André era muito conhecido naquela região, não apenas
por sua habilidade como profissional, mas também por ser um boêmio
incorrigível. Quando começava uma farra ao fim de semana, era
difícil convencê-lo que a segunda não era sábado.
Também era um namorador hábil e a esposa fazia absoluta vista
grossa. Tinha desistido de brigar a tempo e assim a vida daquela família
corria. Até que numa noite de sábado, ele conheceu uma garota
numa festa de bairro à beira-mar das que aconteciam àquela época,
chamadas "feirinhas típicas". E a praia foi o melhor lugar
que encontrou para levar a menina.
E depois de namorar, como já estava "calibrado" de uma boa
quantidade de cerveja, acabou adormecendo ali mesmo, que ninguém é
de ferro. Há trinta anos, podia-se se dar ao luxo de dormir na praia
e acordar vivo e com roupa e ainda com relógio e carteira. Foram poucas
horas que descansou, mas foi reparador. Despertou só, em plena madrugada.
A parceira havia saído e ele nem havia percebido. Uma esplendida lua
cheia clareava toda a praia e as pequenas ondas de uma maré crescente,
tornavam a cena encantadora e que acredito todos já tivemos o prazer
de ver uma cena assim.
Seu André sentou-se e passou a mão na
cabeça para despertar realmente, olhando o mar de onde estava. A cena
parecia congelada. Uma foto de um artista habilidoso. Algo então o
fez parar realmente. Um vulto emergiu das águas exatamente diante do
ponto de onde estava. Primeiro pelos ombros e em seguida começou a
vir em direção à beira mar. O resto de sono que ainda
havia, diante do inusitado da situação dissipou-se completamente.
O vulto começou lentamente a sair da água. Ah... E aí
que o sono acabou-se mesmo!
Como era curioso, levantou-se e foi em direção àquela
pessoa. Começou então a vislumbrar a mais linda mulher morena
que poderia imaginar, com cabelos longos que chegavam à cintura e com
um detalhe: estava nua. Linda e nua. Com passos graciosos, saiu do mar e começou
a caminhar em direção a Boa Viagem. O homem, estupefato e agora,
realmente interessado, sem pensar duas vezes, começou a seguir aquela
mulher maravilhosa que tomava banho nua em plena madrugada recifense. Como
havia perdido seu sono uma cena tão rara e especial como aquela?
Apressou o passo; ela por sua vez, caminhava sem virar o rosto, mas não
estava apressada. Caminhava tranqüilamente. Ele deslumbrado observava
o corpo delineado como nunca havia visto. Os cabelos de um negro absoluto,
que desciam pelas costas... Tornozelos... Pés superdelicados... Hum...
Lindos. Mas ao observar para aqueles pezinhos, algo faltava. Ela não
deixava marcas na areia! Achou que estava vendo demais ou de menos e ao virar
para ver a trilha que tinham deixado, só encontrou as suas próprias
pegadas!
Parou de medo. E teve mais ainda de olhar à sua frente. Mas o fez!
E, diante dele, a linda mulher estava o observando, com um leve sorriso nos
lábios. Descompassado, o coração do pobre homem pedia
para ele que corresse, mas as pernas não obedeciam. Estava colado na
areia da praia de tanto pavor.
No local onde a Rua Tomé Gibson encontra a Avenida Boa Viagem, a moça
misteriosa tomou novamente o rumo do mar e, com grande agilidade, num único
mergulho desapareceu sob as pequenas ondas. Ele lentamente tomou o relógio
para ver quanto tempo ela ficaria mergulhada, ainda achando que podia ser
uma pessoa entre os viventes. Mas a espera foi em vão. Ela havia retornado
ao mar!
Estávamos obviamente estáticos e nem piscávamos ao ouvir
o relato. E nunca mais esqueci essa história. Segundo pude perceber
depois pelo próprio Sr. Marcos, ele nunca escondeu o que havia visto.
Ouvindo depois outras tantas vezes o mesmo causo - porque história
boa é como filme ou livro que se assiste ou lê várias
vezes - me quedei muitas noites diante do mar do meu bairro, tentando ser
o próximo que veria a "Encantada". Queria encantar-me com
seu corpo e seu sorriso. Nunca a vi. Não sei se tive sorte ou azar.
PS: Os nomes reais foram substituídos nesta
história absolutamente verídica.
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