Espíritos no Velho Sítio?

Eu e dois amigos, Diogo e Rafael, resolvemos participar da tradicional Festa de Reis que acontece no mês de janeiro num município situado na Zona da Mata pernambucana. Chegamos à pequena cidade por volta das cinco e meia da tarde de uma sexta-feira. E descobrimos que as poucas pousadas que haviam na cidade estavam lotadas. Ficamos vagando pelas ruas mais ou menos umas duas horas sem saber o que fazer, pois a única pessoa do grupo que conhecia bem local só chegaria no outro dia.

Estávamos nos preparando para sair da cidade e procurar hospedagem numa outra próxima, quando apareceu um homem estranho, perguntando se éramos turistas, pois  nunca havia nos visto por ali. Respondemos que sim, mas que já estávamos de partida pois não arrumamos lugar para ficar. Com um sorriso amigável, o sujeito moreno, de olhos muito negros, aparentando um trinta e pouco anos, que dizia se chamar Adonai, contou que era caseiro de uma propriedade próxima à cidade e que poderia nos ceder hospedagem desde que pagássemos uma pequena quantia. Os patrões, que nunca iam ao sítio, não precisavam saber do acordo.

Como já era oito da noite, decidimos aceitar, mesmo um pouco desconfiador. O local ficava a uns cinco quilômetros da cidade. O sítio aparentava estar há muito tempo desabitado. Apesar do mau estado de conservação,  via-se logo que o casarão devia ter pertencido a uma família bastante rica. Entramos na casa, e logo percebemos que não havia energia elétrica. Adonai falou que os galhos de uma árvore haviam danificado os fios que levavam luz ao sítio. Antes de nos deixar à vontade, fez questão de ressaltar para não subirmos as escadas para o primeiro andar, pois existiam madeiras soltas e poderia acontecer um acidente. Ficamos alojados num quarto ao lado da copa. Cansados da viagem, fomos logo arrumando as coisas para dormir.

Devia ser em torno umas duas da madrugada quando fomos acordados por um barulho no andar de cima. Parecia que alguém estava arrastando móveis. Ficamos assustados, pois imaginávamos que éramos os únicos naquela casa. Suspeitamos que Adonai estava realizando alguma faxina ou procurando algo. Resolvemos dormir novamente, mas não conseguimos, pois ouvimos um choro de mulher: ficamos tão impressionados que não conseguimos pregar os olhos. Depois de muita discussão, resolvemos subir para investigar usando a luz  do celular de Diogo, o único que ainda tinha carga.

Fora uma sala, só havia dois quartos no andar de cima. Um estava com a porta aberta e totalmente vazio. O barulho só podia ter vindo do outro quarto, que estava com a porta fechada. No momento que nos aproximamos dele, a bateria do celular de morreu de repente.

Senti calafrios e imaginei que aquilo tudo era um pesadelo. Só voltei à realidade quando Rafael me puxou para o lado. Percebemos que alguém havia passando lentamente por traz de nós. Quase automaticamente demos um pulo para frente e olhamos para traz, mas não vimos nada, pois Diogo não tinha conseguido religar o celular.

Após alguns instantes o aparelho voltou a funcionar, acendemos a luz de led e ficamos ainda assustados: a porta que antes estava fechada, agora estava totalmente aberta. Com muito receio conseguimos convencer Rafael a entrar no quarto conosco. Ao entrar sentimos um cheiro estranho, parecia que algo havia sido queimado. Quando iluminamos completamente o ambiente, notamos que o quarto havia sido  atingido por um incêndio. As paredes e a mobília tinham sido queimadas, com exceção da cama, que se encontrava intacta.

O mais estranho de tudo: havia um vestido em cima da cama, sem nenhum vestígio de mofo, teias de aranha ou algo que denunciasse que ele estava ali a muito tempo. Resolvemos não tocar no vestido e, quando estávamos nos preparando para olhar embaixo da cama, Adonai surgiu por traz de nós, gritando que havia dito para não subirmos as escadas e que nós não éramos mais bem vindos naquele local e deveríamos ir embora.

Pedimos desculpas e contamos o que havia acontecido, mas ele não parecia impressionado nem chocado. Só queria que fôssemos embora, esqueceu até de cobrar o pagamento. Quando saímos com o carro percebemos que um galho de uma árvore havia caído no meio do caminho por onde entramos. Tivemos então que contornar a casa para sair pela porteira de traz. Ficamos perplexos quando vimos que atrás da casa existiam três velhas cruzes de madeira enfiadas no chão. Resolvemos não descer do carro e fomos embora. A última coisa que me lembro foi de ter visto Adonai na janela e ao seu lado o que parecia ser uma pessoa mais baixa…

Ao voltar para a cidade, ficamos esperando o comércio local abrir para tomar café e depois encontramos Pedro (o outro colega que conhecia a cidade e acabara de chegar de ônibus). E ele nos contou que o sítio na qual passamos a noite estava abandonada há mais de trinta anos, pois o casal que lá morava fora assassinado pela própria filha, que logo em seguida se matou. Pedro contou que os pais descobriram o caso da filha com o caseiro e mandaram matar o rapaz. A garota, que tinha em torno de quinze anos, ficou revoltada e cometeu os assassinatos. Perguntamos a Pedro o nome do caseiro, mas ele não soube responder. Ficou então aquela interrogação… Seria Adonai o espírito do caseiro?

Contado por um leitor que se assina apenas como Lopes

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