Família de Espectros

Contado do Marília Maciel*

Esse causo ocorreu no Engenho Mupã, relativamente próximo à cidade de Escada, onde minha mãe morava nos anos 1950. Ela conta que sua tia e prima vivenciaram esta história quando acompanharam o então padre da cidade até um sítio neste engenho.

Uma família de agricultores, que morava nesse sítio, costumava mandar seus dois filhos, de cinco e seis anos, cortar capim em um terreno afastado de sua casa, o que serviria para alimentar alguns animais do sítio. Naquela época, trabalho infantil era coisa muito comum, e os mais ignorantes não raro discursavam que criança devia mesmo trabalhar, pois brincadeira em casa de gente necessitada era coisa de pessoa mole. Pois um belo dia, essas crianças foram buscar capim e, sem mais nem menos, voltaram para casa desesperadas, deixando ferramenta, capim e chinelos para trás.

As crianças só diziam que não voltariam novamente àquele local, e mais nenhuma explicação saia daquelas pobres bocas. Os pais gritaram, bateram nas crianças, fizeram de tudo para entender o porquê daquele comportamento, mas nada adiantou. Isso durou algumas horas, até que o maiorzinho, já mais cansado da surra do que assustado com o que viu, finalmente falou.

Ele disse que no local onde eles comumente cortavam capim, viram três pessoas, mulher, homem e criança, vestidos de preto e olhando fixamente para eles, com olhos que não são desse mundo. O pai, em um primeiro instante não acreditou, e disse que, no outro dia, eles iriam trazer capim nem que fosse a base de cipoada nas canelas.

A mãe, mais crente nas coisas do outro mundo, tentou convencer o marido que, talvez, as crianças tivessem realmente avistado alguma assombração. O marido, meio a contra gosto, mas para não contrariar a mulher, que quando emburrada mais parecia uma gato do mato arisco, resolveu ir à Escada, onde logo procurou pelo pároco local, o então padre João.

Tocado pela situação, muito mais pelas crianças do que pelos pais, o padre se dispôs a fazer uma visita àquela família quão logo fosse possível. Quando finalmente o padre foi visitá-los, conversou com as crianças e pediu que eles o levassem até o local da aparição.

Chegando lá, as crianças não tardaram a ver novamente as três almas penadas, bem junto a um barranco onde a prima de minha mãe, que acompanhou o padre em sua investigação, estava encostada. Essa prima saltou de susto, ao perceber que as crianças olhavam assombradas em sua direção.

Já o padre, macaco velho com essas situações de visagem, pediu que os meninos perguntassem o que aquelas três pobres almas desejavam. Os meninos perguntaram e finalmente disseram que eles somente pediam uma missa. Pois bem, o padre disse que se era uma missa que eles queriam, uma missa seria celebrada para aquelas pobres almas no próximo domingo de manhã, e que a família das crianças deveria comparecer na ocasião.

O problema todo começou quando, no dia da fatídica cerimônia, a família das crianças arrumou uma bela de uma romaria, com gente de vários sítios do engenho, toda aquela gente amontoada em cima de um caminhão, parando de légua em légua até finalmente chegar à igreja em Escada. Foi tanta gente a subir no caminhão, e eles atrasaram tanto que chegaram à igreja somente após a leitura do Evangelho. Foi aquele reboliço de gente entrando na igreja e tentando se acomodar.

Finalmente, quando a família conseguiu prestar atenção à missa, mal puderam assistir somente ao final da cerimônia. Os pais das crianças agradeceram ao padre, e voltaram novamente em tamanha romaria para seus respectivos sítios. Porém, não se passaram três dias de tranquilidade, e o aflito pai das crianças retornou à igreja para dizer que, agora estava muito pior, pois aparentemente as almas penadas estavam aparecendo na porta de sua cozinha, e que as crianças nem saiam mais de casa com tanto medo.

O padre disse que já havia celebrado a missa e que não retornaria ao sítio da família, mas que buscasse saber com seus filhos o que ocorreu de errado. O pai, chegando em casa, foi logo puxando o cipós de goiabeira e tratando de mandar os filhos resolverem essa safadeza. Ou perguntassem o que aquelas almas dos infernos queriam ou iriam buscar capim com cipoada no lombo. O menino maiorzinho, muito aterrorizado e depois de alguns sopapos, olhou para aquelas três almas pálidas e vestidas de negro, bem ali na porta da cozinha, e perguntou o que eles ainda queriam deles.

As almas somente responderam que queriam uma missa, mas que dessa vez as crianças deveriam assisti-la do começo até o fim. Pois bem, dessa vez a família saiu do Engenho Mupã até Escada sem falar nada para vizinho algum, evitando o olhar dos curiosos e todo atraso que isso poderia causar. Eles assistiram à missa desde o começo, e quando ela finalmente terminou, o padre perguntou às crianças sobre as almas penadas.

Então as crianças disseram que os três estavam, agora, vestidos de branco, sorriam e acenavam com um gesto de adeus. Aquelas pobres almas nunca mais retornaram para assombrar as crianças, nem tampouco interromper seus afazeres domésticos no sítio.

*Marília Maciel é uma verdadeira apaixonada pelos causos e contos populares do folclore pernambucano, sejam eles nos engenhos, subúrbios ou ruas da capital. Desde muito pequena, ao visitar parentes e conhecidos em engenhos e bairros mais afastados, adorava ouvir relatos de malassombro. É apaixonada pelas histórias de assombração contadas pelos autores pernambucanos Gilberto Freyre e Jayme Griz. Tentou reunir em seu blog – Enquanto o Papa-figo Não Vem  – várias histórias, ouvidas durante sua infância e juventude.