Assombrações de Gilberto Freyre em HQ!

O livro que conta as antigas lendas da capital pernambucana foi adaptado para quadrinhos pela equipe d´O Recife Assombrado

Beltrão e Balaio adaptaram para quadrinhos o livro de Freyre

Beltrão e Balaio adaptaram para quadrinhos o livro de Freyre

O Boca de ouro, o Papa-figo, o Lobisomem Doutor, almas penadas e outros seres sobrenaturais que há décadas tiram o sono dos recifenses se transformaram em personagens de histórias em quadrinhos.  É que as histórias do livro “Assombrações do Recife Velho”, de Gilberto Freyre foram adaptadas pela turma deste site num álbum que estará à venda em todo o país. O projeto é uma parceria d´O Recife Assombrado com a Fundação Gilberto Freyre e a editora Global,  que vai publicar o trabalho. O lançamento será no primeiro semestre de 2017.

A obra de Freyre  é considerada a mais importante referência e fonte de pesquisa sobre os relatos espantosos que dão à capital pernambucana a fama de cidade mais assombrada do Brasil. Conheça as origens desse livro cheio de espantos e mistérios neste artigo do pesquisador Sérgio Barza:

O autor de Casa Grande & Senzala foi um dos mais importantes intérpretes das singularidades da jovem nação brasileira. Escritor, sociólogo e antropólogo, Gilberto de Mello Freyre retratou em sua obra a formação de um povo moldado pela miscigenação, pela mistura de culturas diversas.

Um dos aspectos mais ricos dessa nova cultura latino-americana é o misticismo, a crença no sobrenatural. E o “Mestre de Apipucos”  sempre demonstrou curiosidade por esse tema. Um dos seus mais fascinantes textos é, portanto, “Assombrações do Recife Velho: algumas notas históricas e outras tantas folclóricas em torno do sobrenatural no passado recifense”, publicado em 1955, mas cujo embrião começou a se formar em 1929, quando o autor era editor do jornal A Província.

O fato que deu início a tudo é por demais pitoresco: uma noite Freyre foi procurado por um senhor, assinante do jornal, “que fora companheiro de luta de José Mariano e de Maciel Pinheiro” e que lhe pediu um grande favor. Já que ele tinha influência, poderia conseguir que o chefe de polícia expulsasse umas assombrações que perturbavam a paz de um sobrado no bairro de São José? Gilberto Freyre identificou um homem “que acreditando em espíritos maus e zombeteiros, acreditava ao mesmo tempo em solução policial para as assombrações de sua casa”.

O editor Gilberto Freyre teve então a ideia de encarregar o repórter policial d’A Província, Oscar Melo, de procurar “nos arquivos e nas tradições policiais da cidade o que houvesse de mais interessante sobre o assunto: casas mal-assombradas e casos de assombração”. Para isso contou com a aquiescência do então chefe de polícia Eurico Souza Leão . A pesquisa resultou numa série de artigos do próprio Freyre, que ainda usou como fonte de referência os conhecimentos de pessoas próximas: o seu cozinheiro José Pedro (“filho de velho capanga de José Mariano”), sua vizinha Josefina Minha-Fé (conhecedora das ritos afro-brasileiros), além seus amigos Pedro Paranhos e Júlio Belo. Nos anos seguintes muitos casos haviam se juntado aos colhidos inicialmente, vários deles contados por familiares e por moradores de Apipucos: alguns episódios vinham da época do Império.

A primeira edição de Assombrações do Recife Velho foi publicada na década de 50, mas, no prefácio da segunda edição, temos a melhor definição da obra, e de sua ligação com Recife:

“Este livro não pretende ser contribuição senão muito modesta para o estudo de um aspecto meio esquecido do passado recifense : aquele em que esse passado se apresenta tocado pelo sobrenatural. Pelo sobrenatural mais folclórico que erudito, sem exclusão, entretanto, do erudito. Mas sem que tenha sido vividas por uns tantos recifenses em ambientes e circunstâncias próprias do Recife: os de sua condição de cidade não só situadas à beira-mar como cortada por dois rios; de burgo por algum tempo judaico-holandês e não apenas ibero-católica; de capital de província e de estado depois de ter sido simples povoação de pescadores; de sede de vários conventos; de centro de atividades culturais importantes; de grande mercado de escravos trazidos da África; de espaço urbano caracterizado por sobrados de tipo esguio, de feitio mais nórdico do que ibérico: provável influência holandesa ou norte-européia sobre sua arquitetura”.

Uma sociologia do sobrenatural, por que não? Mas, longe do ranço da linguagem de alguns autores científicos, temos relatos encantadores (encantados?) de lobisomens, da cabra cabriola, de fantasmas de figuras célebres ou que assombraram figuras célebres, de locais assustadores, entre os quais a lendária Cruz do Patrão e a Avenida Malaquias, e, principalmente , casas mal-assombradas. E não só fantasmas, espíritos de falecidos, mas também seres demoníacos são citados no livro.

Como sentenciou o próprio Gilberto Freyre no prefácio da primeira edição do livro:

“O mistério continua conosco, homens do século XX, embora diminuído pela luz elétrica e por outras luzes. Por que desconhecê-lo ou desprezá-lo em dias tão críticos não só para certas fantasias psíquicas como para certas verdades científicas , como os dias que atravessamos? “