Fantasmas no Velho Colégio

Conto de Saulo Silva

Arrepia-me passar naquela encruzilhada, onde se vê, às margens da estrada, as ruínas de um velho grupo escolar que, em meados dos anos setenta, foi destruído depois de um fatídico incêndio que vitimou várias crianças que ali estudavam. Mas mexe muito mais comigo lembrar a professorinha.

Contam os antigos moradores dali que, no dia da tragédia, a bela jovem recém-formada e extremamente apaixonada pela profissão conduzia mais um dia da rotina escolar quando algumas das crianças, ao fundo do salão do grupinho escolar, atrapalhavam sua aula: ”Tia, me dá um pirulito?”, pediam-lhe, aos berros.

Na tentativa de acalmar a turma, a humilde professorinha deixou-os sozinhos por alguns minutos, enquanto dirigiu-se à sala onde ficavam as guloseimas que eram oferecidas aos alunos como forma de recompensa ao final dos longos e cansativos dias letivos. Enquanto a professora saiu, alguns alunos menos comportados começaram todo o furdunço e um deles, que mexia no velho ventilador da sala, acabou provocando um curto-circuito que culminou em um incêndio e rapidamente o fogo tomou toda a sala de aula. Ao ouvir os gritos desesperados, a professorinha tentou, sem sucesso, abrir a porta e salvar seus alunos.

Alguns moradores próximos vendo todo o movimento chegaram até o grupo escolar para ajudar na contenção do fogo, mas não conseguiram salvar a vida dos alunos, tendo afastado apenas a professora que estava em estado de choque. Naquele dia o fogo ceifou a vida de 13 crianças e levou consigo a sanidade da professora.

Tempos depois, a pobre moça, imersa em uma tristeza incomparável e num remorso imensurável, costumava frequentar as ruínas do grupinho levando doces, sempre dizendo que ainda ouvia os gritos de socorro e as vozes de seus alunos pedindo-lhe pirulitos, até que uma noite relatam que ela foi engolida pela escuridão da encruzilhada e nunca mais foi vista desde então.

Hoje, na triste paisagem da encruzilhada do grupinho, comenta-se que quem passa por lá, altas horas da noite, vê a imagem perturbada da professorinha e ouve vozes infantis que suplicam desesperadamente: “-Tia, me dá um pirulito?”.