Flor do Inferno

de Adriano Portela

Flor queria casar de qualquer jeito. Toda tarde ela se enfeitava, se perfumava e ia para a varanda da casa. Os homens que passavam na rua, os bonitos, claro, logo escutavam um “psiu”. Quando os olhos masculinos se voltavam em busca do ruído avistavam um jogar de cabelos e um olhar profundamente apaixonado. Alguns ficavam encabulados, outros tinham até medo dessas insinuações. Já dizia seu Maneco da farmácia: “o que é oferecido demais está podre ou está sentido”.
Em casa, Flor era pressionada pela mãe. Dona Adelaide não entendia o porquê da filha não arrumar marido, e sempre se queixava com a comadre.
-Flor é tão bonita, tão jeitosa, mas não tem sorte com homem.
Realmente ela era bonita, muito bonita. Tinha os olhos castanhos, quase da cor de mel; a pela era lisa e morena; as unhas estavam sempre bem cuidadas; e o corpo exalava o cheiro dos jasmins.
Naquela cidadezinha os comentários corriam as ruelas. Nos botecos a conversa só era essa:
-A moça é formosa, mas tem algo estranho nela, afirmou Zé Caiçara.
-Ninguém quer compromisso com a danada.
-Aqueles olhos que ela tem põem medo em qualquer homem.
No meio da prosa, um homem que acabara de chegar à cidade, logo se intrometeu: “Pois eu caso. Enfrento a donzela e ainda irei me amostrar para vocês’’. Antônio Guilhermino era esbelto e forte, justamente do jeito que Flor gostava. Depois que os pais morreram ele deixou a capital e veio tentar a vida no interior. No pensamento do galanteador, o casamento seria uma solução para não ter que arrumar moradia, e, já que a mulher era bonita, o lucro já se fazia presente. ‘’Serei um homem apaixonado’’, concluiu.

O Casamento
Flor tinha se agradado do rapaz. Depois de dois meses aconteceu o casório. O evento mexeu com toda população de Jupi. Mesmo os que estavam dentro da igreja, pareciam não acreditar no que viam.
Enfim ela conseguiu o marido.

Em casa
A lua de mel foi perfeita. Qualquer casal desejaria viajar para a Ilha de Fernando de Noronha e naquelas areias fazer amor freneticamente. Eles aproveitaram o paraíso por uma semana.
Na residência os dois levavam uma vida sem atribulações, normal como em muitos casamentos. A emoção mesmo era só na hora do sexo. Antônio conseguiu emprego como vendedor numa dessas lojas de veículos e Flor fazia seus bicos costurando para as senhoras do bairro.

A decepção
-É sério, mulher. Eu vi teu marido com a tal fulana. Rosilda era a maior fofoqueira da rua e já tinha fama de destruidora de lares.
-E você acha que vou acreditar em você? Tenha paciência…
-Então tá certo. Mas, se duvidas, esteja às sete da noite próximo à casa de dona Quitéria e veja onde teu marido vai entrar.
Flor foi embora com aquilo na cabeça. E neste dia ela não se aguentou e seguiu o conselho da fofoqueira.
Antônio tinha largado do trabalho. Em casa ele dizia que o expediente era até as oito da noite. Só que às sete e dez ele, com ar de desconfiado, rondava pela Rua 48, até que de repente, assim como alguém que tem uma dor de barriga forte e corre para o primeiro banheiro, ele entrou disparado no barzinho de seu Antenor. Depois de alguns minutos Flor viu que a luz do quartinho em cima do bar havia sido acesa e para sua desilusão o marido fechara a janela.

A revolta de uma Flor
Ao abrir a porta Antônio percebeu que a casa estava toda escura e que uma penumbra parecia vir do quarto. Ele chamou pela esposa, mas não teve resposta. Vagarosamente ele caminhou até o destino. Ao entrar deu de cara com a mulher. Ela usava uma lingerie vermelha transparente e estava sentada com as pernas abertas e com os braços escorados no colchão. Ao redor da cama várias velas vermelhas estavam acesas. Por alguns segundos o marido havia pensado em correr. Mas, depois decidiu encarar a fantasia erótica. Com as unhas Flor arranhou-lhe o pescoço e de um golpe só arrancou sua camisa. Com a boca ela rasgou a calça e cuspiu fora o botão, e com a língua acariciou seu sexo. Aquela foi uma noite de um amor selvagem. Muitos vizinhos escutaram os gritos.
Depois do ato o marido parecia hipnotizado.
-Agora você vai aprender a nunca mais me trair. Escute e faça tudo que eu mandar: vais sair do emprego e jamais colocará o pé na rua. A todos vai dizer que és meu servo. E na hora que eu quiser vai ter que saciar meu desejo sexual. Se falhar… te mato. E uma coisa espero que você tenha aprendido: nunca ouse mexer com a sobrinha de LUCIFER! Neste momento os olhos dela ficaram vermelhos que nem duas bolas de fogo. E ele, paralisado, apenas balançou a cabeça em sinal de afirmação.
Deste dia em diante, Antônio nunca mais sairia de casa. Ele morreu quatro anos depois, na noite em que falhou.

P.S. Flor agora procura por um outro marido. Quem sabe ela num já olhou para você!


Adriano Portela é jornalista, escritor, cineasta e professor universitário. É autor do romance “A última volta do ponteiro” (prêmio internacional José de Alencar 2012, pela UBE-RJ). A obra foi adaptada para o teatro em 2014, ficando em cartaz no Recife. Portela é co-autor da coletânea “Enquanto durar a noite”, pela Aped e mestrando em Teoria da Literatura, pela UFPE.
Atualmente está na empreitada de dirigir o seu primeiro longa-metragem: O Recife Assombrado. Ele também apresenta um web programa de cultura (Parlatório TV) no portal www.parlatorio.com Site parceiro do ne10 Sistema Jornal do Commercio de Comunicação.