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O Frade Sem Cabeça

Por Giselda Costa S. Ribeiro

No Recife, existe um bairro de clima ameno, palco de acontecimentos marcantes no passado, que se chama Casa Forte: na vizinhança fica o Poço da Panela, local onde nasceu o poeta Olegário Mariano; mais adiante, fica Apipucos, onde morava Gilberto Freyre. O bairro teve origem no engenho de Ana Paes, mulher valente que liderou uma batalha contra os holandeses que queriam se apossar das suas terras. Hoje, no bairro, moram médicos, artistas, educadores, funcionários públicos, gente de classe média e muitos estrangeiros. Lá existe uma praça que foi obra do grande artista que era o paisagista Burle Marx.


Na época da história que vou contar, o pároco do bairro era o Monsenhor Odilon Lobo, alagoano de Penedo e, como todo alagoano, homem disposto. Na década de 50, quando ocorreram os fatos, o bairro de Casa Forte era uma grande família, onde todos se conheciam; já era realizada uma quermesse da igreja chamada “Festa da Vitória Régia”, ponto de partida para muitos namoros e casamentos; havia piqueniques da turma jovem; um clube chamado “17 de Agosto” no local onde hoje existe o quartel do C.P.O.R. e também um cinema no salão paroquial, chamado cinema do Padre. Enfim, não podia haver lugar mais gostoso e simpático do que Casa Forte...


A paróquia possuía uma casa de praia lá para os lados de Piedade que, naquela época, era um local sem muitas casas, muito pacato, e preferida dos que não gostavam da agitação de Boa Viagem. A turma do bairro sempre estava “piruando” um convite de Mons. Lobo para um fim de semana ou um feriado na casa. Numa dessas vezes, meu irmão mais moço, Joel, foi convidado, com outros colegas, para passar um fim de semana por lá. Foram: ele, Fernando Rocha, Fernando Fonseca, Nosa, que era uma espécie de governanta, Mons. Lobo e outros garotos e garotas, dos quais não me recordo no momento. Acho que minha irmã Eliane também foi. A partir daqui, vou contar o que soube por minha mãe e por meu irmão, Joel, e também por minhas irmãs.


Depois de se instalarem, todos corriam para a praia para o banho de mar, para o futebol, enfim, havia muita distração. Naquela noite terrível, era lua cheia e, logo depois do jantar, todos, com exceção de Nosa, se não me falha a memória, resolveram dar um passeio na beira da praia, antes de dormir, para fazer a digestão e apreciar a lua. A casa ficava próxima de uma igreja abandonada e da casa dos frades franciscanos, também de veraneio, que se achava vazia, na época. A casa da paróquia de Casa Forte era um pouco afastada da praia e, para lá chegar, tinha de se atravessar um terreno de vegetação rasteira, descer uma espécie de barranco e, dali, atingir o areal sem fim - tão branco que doía na vista - não sem antes vencer algumas depressões do terreno, comumente chamadas “cama de porcos”, que são como uns buracos rasos, onde esses animais às vezes dormem.


Pois bem, lá ia à turma conversando e fazendo a maior algazarra, com Monsenhor no meio e participando de tudo. De repente, a uma certa distância, viram o que lhes parecia ser um tronco de coqueiro escuro, dando a impressão de que fora queimado. Aquilo lhes chamou a atenção e eles pararam um pouco, uma vez que o tronco, a que lhes pareceu, estava isolado, longe do coqueiral que margeia a maior parte das praias do nordeste; porém, o mais estranho é que o tronco deu a impressão que estava se mexendo e aí, fixando mais a vista, todos viram o que era: levantou-se devagar a forma exagerada de um frade franciscano, com hábito escuro, o cordão claro na cintura, os pés, os braços e... sem cabeça!


Disse-me Joel que ficaram meio paralisados, até que aquilo foi se dirigindo para o lado deles e aí o Monsenhor gritou “corram, meninos!”.

As pernas dos meninos e do Monsenhor viraram rodas, mas as do “frade sem cabeça” viraram asas. Imaginem a cena: os garotos, o Monsenhor a correrem na frente e atrás, aquela Coisa, quase os pegando. Há certa altura, bem na frente, havia um daqueles buracos de que falei antes e, como não dava tempo de atravessarem, acharam por bem despencarem nele e foi a sorte, pois o “frade sem cabeça” passou zunindo, por cima deles, como se estivesse voando, e desapareceu.


Depois de alguns minutos, como nada aconteceu, o Monsenhor, cautelosamente, chamou a rapaziada, mandou arrumar as trouxas e se arrancaram, chegando bem antes do combinado, lá em Casa Forte. Todos contaram o acontecido às suas famílias, Monsenhor Lobo nunca desmentiu esses fatos, e, muitas vezes, falou para minha mãe que não podia dar uma explicação para aquela aventura. Até hoje, os que ainda vivem se lembram de tudo. Morreram Monsenhor Lobo, Fernando Rocha, Fernando Fonseca, Eliana; não sei se Nosa ainda está viva, nem se os outros colegas também. Meu irmão, Joel, ainda vive em Recife, hoje é Administrador de Empresas.


NOTA – Soubemos que, naquele local, diante da Igrejinha dos frades franciscanos, um deles morreu ao tomar banho de mar, devorado por tubarões e, realmente, há uma lenda que diz aparecer, em noites de lua cheia, o vulto gigantesco de um “Frade sem Cabeça...”.